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Home >> Revista Cultura Crítica >> 07, machado e rosa: 100 anos, 1º semestre de 2008 >> Elogio da Vaidade – comentários sobre uma alegoria machadiana

Elogio da Vaidade – comentários sobre uma alegoria machadiana

APROPUC-SP 17.03.09

Nílvia Pantaleoni 


Assim, pois, sigo aquele conhecido provérbio que diz: Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo. Não posso deixar, neste momento, de manifestar um grande desprezo, não sei se pela ingratidão ou pelo fingimento dos mortais. É certo que nutrem por mim uma veneração muito grande e apreciam bastante as minhas boas ações; mas parece incrível, desde que o mundo é mundo, nunca houve um só homem que, manifestando o reconhecimento, fizesse  o elogio da Loucura.
Erasmo de Roterdam (1508)

 

A leitora, o leitor, na arrumação dos papéis de sua escrivaninha, já deve ter notado que sempre se começa com empenho e seriedade a tarefa de organizar tudo, de colocar ordem na casa, desculpem-me, nas gavetas. No entanto, parece próprio do escrevente nunca levar a cabo a tarefa, pois, no final, sobram papéis que não cabem nas categorias previstas. A paciência se esgota, o tempo se acaba e lá vão eles para uma caixa ou para uma pasta com a promessa sem convicção de que logo serão reavaliados e catalogados. Por enquanto, são uma miscelânea. Existem diferentes espécies de miscelânea: a minha, por exemplo, encaixa-se na seguinte acepção do Houaiss: "conjunto confuso de coisas diferentes; mistura, mixórdia"; já a outra, "reunião de textos literários variados de um autor ou de autores diversos numa mesma obra", refere-se a uma das partes do terceiro volume das Obras Completas de Machado de Assis, edição da Aguilar, do Rio de Janeiro, no ano de 1962.
No início de Miscelânea, em nota de rodapé, J. Galante de Sousa, responsável pelo texto e organizador, adverte que a seção abrange "alguns trabalhos importantes de Machado de Assis, os quais não são facilmente classificáveis nas categorias recorrentes. Por esse ou aquele aspecto, ora misturando qualidades de vários gêneros, ora diferenciando-se das características tradicionalmente atribuídas a outros, esses trabalhos não se ajustam às definições comuns dos gêneros literários: artigos, ou crônicas, artigos, narrativas em verso, cartas abertas etc."
Pois bem, foi na miscelânea de trabalhos considerados de classificação difícil que encontrei o Elogio da Vaidade. Este não conheço, pensei, exultante por ter encontrado algo diferente para tratar da obra tão importante de tão importante literato, como se dizia no início do século passado (vinte, não dezenove, como pode pensar o desavisado leitor que, tendo passado toda sua vida no século vinte, vai terminá-la, um dia, no vinte e um).
Lido e computado o texto, tendo a mania de contar e recontar, não me furto à tarefa, e apresento o resultado: A Vaidade se promove por meio de introdução de linha e meia, seguida por seis partes, separadas por algarismos romanos, perfazendo cento e noventa e seis linhas, divididas por dezesseis parágrafos. Promoção negada pelos organizadores da obra machadiana, ao dispô-la bem no fim do terceiro volume das obras completas. A Vaidade, afinal, precisa ser advertida de que seu lugar é bem lá atrás. Depois dela, só o Epistolário, que quase ninguém lê. Mas, afinal, do que é composta a Miscelânea que acolhe o Elogio da Vaidade?
Folheio o livro em papel bíblia que comprei à prestação do vendedor da José Aguilar, na década de setenta, quando comecei a lecionar literatura. Passados mais de trinta anos, volto, leitora aparentemente mais perspicaz, meu olhar para estas páginas, e as descrevo, para desespero da Vaidade, que ignoro por enquanto. Dela me ocuparei no final!
À medida que leio, encontro preciosidades: O Jornal e o Livro, o primeiro texto, é dedicado a Manuel Antônio de Almeida; nas Aquarelas, Machado destila fino veneno, discorrendo sobre os fanqueiros  literários, os parasitas, o empregado público aposentado e o folhetinista - planta européia de difícil aclimatação nos trópicos (ele próprio, escritor de folhetins); Imortais apresenta duas lendas européias: o caçador de Harz e o marinheiro batavo; Reforma pelo Jornal, órgão democrático de divulgação da palavra pelo qual Machado nutria admiração e tinha esperança de que levaria as inteligências proletárias, as classes ínfimas a sobrepujarem as superiores, pois "a primeira propriedade do jornal é a reprodução amiudada, é o derramamento fácil em todos os membros do corpo social"; depois de assunto sério, é a vez de A Queda que as Mulheres têm pelos Tolos. É de enfurecer qualquer leitora a proposição de sua tese de adesão inicial: "Desde a mais remota antiguidade, sempre as mulheres tiveram a sua queda para os tolos", no entanto, os argumentos que o autor vai acumulando a respeito da falta de atrativos dos "homens de espírito" são hilariantes, e a leitora já no final concorda com o argumentador, de quem recebe sempre tantos lisonjeios.
E ele prossegue, nos textos seguintes, elogiando amigos, enfurecendo-se com os críticos de suas peças teatrais, que, diga-se de passagem, nunca obtiveram sucesso. Dois textos chamam a atenção por revelarem um Machado conhecedor profundo do cristianismo e que se revolta - qual Jesus na cena bíblica que trata dos vendilhões do Templo - do arremedo de religião praticada em seu tempo. Foi uma delícia, por fim, a leitura do apólogo das Botas e do concurso literário promovido por um mestre-escola que propõe como tema para seus alunos Um Cão de Lata ao Rabo.
Chega, afinal, a vez do Elogio da Vaidade, e que ninguém pense que lhe faltem qualidades literárias, pelo contrário. Originalmente publicado no dia 28 de maio de 1878, no jornal "O Cruzeiro", o mesmo em que Machado publicou semanalmente Iaiá Garcia, editado no mesmo ano, deve ter causado frisson nos leitores. O que se sabe é que sua colaboração nesse jornal continua até 1 de setembro. Entra, a 27 de dezembro, em licença, e segue, doente, para Friburgo, onde fica até março de 1879. Dois anos depois, publica Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mas isso é sobejamente conhecido, e só me atrevo a ir até a famosa dedicatória pelo simples fato de, no fundo de uma arca vazia, encontrar-se a Vaidade entre dois vermes: "Tu que não possuis nada, perscruta bem as dobras da tua estamenha, os recessos da tua velha arca; lá me acharás entre dois vermes famintos..."
Como classificar o Elogio da Vaidade? Comentei com um amigo, de muitas leituras. Logo ele lembrou-se da existência do elogio, de que mesmo? É verdade, Erasmo de Roterdam, século XVI, Elogio da Loucura!
Agradeço ao amigo por ter encontrado um filão precioso para tratar do assunto que já está me espezinhando, pois a minha vaidade, não a de Machado, mas a minha própria, não queria ser humilhada pela minha inoperância para tratar do tema a que me propusera.  Pressinto o triunfo da Vaidade, irmã da Modéstia que se dirige ao auditório universal, depois que a recatada irmã termina seu discurso. É verdade, trata-se de retórica. Pois, o Elogio da Vaidade é uma alegoria que apresenta duas irmãs em cena, no papel de oradoras com a incumbência de persuadir todos os homens e mulheres, absolutamente todos, de que uma delas, apenas uma, habita em seus corações e suas mentes. Ethos, pathos, logos e todos os sofistas, socorrei-me! Preciso colocar a Vaidade em seu devido lugar, ou seja, entre os vícios, e fazer brilhar a virtuosa Modéstia.
Recorro, primeiramente, à Loucura, e descubro que ela, bem antes da Vaidade, há exatos quinhentos anos, já se dirigira ao auditório universal, manipulando-o impiedosamente. Logo no início de seu discurso, justifica seus trajes: "Se, agora, fazeis questão de saber por que motivo me agrada aparecer diante de vós com uma roupa tão extravagante, eu vo-lo direi em seguida, se tiverdes a gentileza de me prestar atenção...".  Achei! Grito exultante, pois quem convive com a Loucura passa a agir de modo extravagante, a Vaidade também se apresenta com vestimentas vistosas! Mirem só: "Que eu sou a Vaidade, classificada entre os vícios por alguns retóricos de profissão; mas na realidade, a primeira das virtudes. Não olheis para este gorro de guizos, nem para estes punhos carregados de braceletes, nem para estas cores variegadas com que me adorno....".
Isso significa que seu autor andou lendo o Elogio da Loucura e... Cala-te boca! O que vais dizer? Cuidado, irás te arrepender. Passado o momento de insanidade, começo a ler desesperadamente tudo o que a Loucura diz e, respiro aliviada. Enganei-me, só algumas coincidências e a responsável, com certeza, é a Intertextualidade, que não sabia que seria chamada aqui. De uma coisa, tenho convicção, Machado lera Erasmo, e a constatação fazia com que eu o admirasse mais, pois o suplantara. A Vaidade é superior à Loucura!
Refeita do susto, admirando a Vaidade, e muito mais quem lhe deu voz, despeço-me com suas palavras finais. Mas, antes, não resisto em compartilhar um desabafo: vou pôr fogo na caixa da miscelânea, aquela do início de minhas considerações. Lá não existe nada, sem falsa modéstia que se equipare à Miscelânea recolhida das publicações do filho de um operário mestiço de negro e português que (pasmem!) teve em seu atestado de óbito  os seguintes dizeres: "Certifico que do livro de registro de óbitos sob número cinquenta e dois consta a folha 63, o registro de óbito de Joaquim Maria Machado de Assis: idade 69 anos, viúvo, natural desta capital, funcionário público, cor branca, falecido de arterio-clerose, às 3 e 20 horas da manhã do dia 29 de setembro de 1908".
Modéstia e Vaidade são duas entidades distintas, opostas, e, no entanto, são inseparáveis. Na verdade, irmãs xipófagas, ligadas tão fortemente que uma não sobrevive sem a outra. Mas, o que importa agora é, no Elogio, o triunfo final da Vaidade, ao suplantar, diante de todos, a Modéstia: "O quê? Credes que não é assim? E que ao cabo da pregação, deixo um auditório de relapsos? Céus! Dar-se-á caso que a minha rival vos arrebatasse outra vez? Todos o dirão ao ver  a cara com que me escuta este cavalheiro; ao ver o desdém do leque daquela matrona. Uma levanta os ombros; outro ri de escárnio. Vejo aí um rapaz a fazer-me figas; outro abana tristemente a cabeça; e todas, todas as pálpebras parecem baixar, movidas por um sentimento único. Percebo, percebo! Tendes a volúpia suprema da vaidade, que é a vaidade da modéstia." Genial!


Nílvia Pantaleoni Profa do Departamento de Português da PUC- SP

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