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Home >> Revista Cultura Crítica >> 06, cordel, 2º semestre de 2007 >> Em Cordel - Apresentação

Em Cordel - Apresentação

APROPUC-SP 10.03.09

O cordelismo dá provas diárias de vitalidade. Sedes de difusão dessa arte popular estão espalhadas por todo o país, como é o caso da
Casa do Cordel, situada na rua Vigário Bartolomeu, no centro de Natal,no estado do Rio Grande do Norte.
Ela foi criada no ano passado para divulgar a literatura cordelista e potiguar. A iniciativa foi do poeta Abaeté.
A instituição tem um acervo de mais de mil títulos. O leitor pode encontrar folhetos de poetas como Antônio Francisco, Concriz, Bob Motta e Braga Santos. A Casa também edita obras de poetas locais e abriga a sede  da União dos Cordelistas do Rio Grande do Norte.A revista Cultura Crítica é uma publicação semestral editada pela Apropuc, com tiragem de 2 mil exemplares.


A revista Cultura Crítica dá um passo a mais, animando suas páginas com a literatura de cordel. Gênero poético e romanesco que se impôs por si só. Por que iniciamos com essa afirmação? Porque foi desprezado pela cultura acadêmica, considerado gênero menor ou subliteratura. Nem sempre assim dito, com todas as letras.
Luís Câmara Cascudo deu-nos um dos estudos mais amplos e profundos sobre a literatura oral, conceituando-a como popular. Em seus termos, o cordel é uma forma de literatura popular. Ressalta que a criação oral se baseia na tradição e na necessidade de transmissão cultural de geração a geração. Trata-se de uma forma histórica originária da literatura, cujo percurso deita suas raízes na mais tenra e primitiva cultura.
Mas o que tem de particular a literatura de cordel? Câmara Cascudo dá a seguinte explicação: "Há uma literatura popular impressa, literatura de cordel, que os franceses denominam de colportage, que Charles Nizard estudou na França e que Teófilo Braga esboçou em Portugal. Ninguém decidiu sobre a velocidade inicial desses livrinhos. Saíram do povo ou foram incluídos, pela leitura, na oralidade anônima? Foram temas dados pelo povo ou constituíram trabalho individual, posteriormente tornado popular? Esses livros vêm do século XV, do século XVI, do século XVII e continuam sendo reimpressos em Portugal e Brasil, com um mercado consumidor que nenhuma glória intelectual letrada ousou possuir."
Tudo indica, portanto, que nossa literatura de cordel vem dessa tradição européia, particularmente da tradição dos colonizadores portugueses. É o que afirma Câmara Cascudo. "O português emigrava com o seu mundo na memória". Aclimatado no Brasil pela cultura oral, teve uma "floração sem fim" na forma de cordel. Uma das primeiras influências dos colonizadores, nesse sentido, foi detectada no início do século XVII, na Capitania da Paraíba, com a divulgação dos "contos de Trancoso".
Franklin Maxado, no livro "O que é literatura de cordel", relata-nos curiosamente que, em Portugal, o rei João V, em 1769, expediu um decreto de que só os cegos podiam vender esse tipo de folheto, e que por isso passou à denominação de "Literatura de Cego", vendida nas igrejas e feiras. O mesmo autor indica que há duas referências quanto à primeira publicação de cordel no Brasil: Câmara Cascudo aponta para fins do século XIX, com o romance "Zezinho e Mariquinha ou a Vingança do Sultão", de Silvino Pirauá de Lima. Ariano Suassuna considera que a primeira publicação se deve ao "Romance d'A Pedra do Reino", lido no sertão nordestino.
Vemos que a literatura de cordel é impressa, mas sua natureza é oral e, por isso, popular. Muitos poetas da oralidade eram analfabetos. Sua arte popular está vinculada às aglomerações também populares. Na forma de folhetos, cuidados pela xilogravura, os poetas a divulgam e dela sobrevivem. As rodas se formam em torno das cantorias ou declamações, que podem não ser acompanhadas de instrumentos. É o canto ou declamação "a palo seco". Franklin Maxado testemunha que, "muitas vezes, o folheteiro é analfabeto e a estória que faz que lê é simplesmente decorada", e "quando esquece algum trecho, o bom folheteiro improvisa outro verso".
Os temas dos cordéis variam imensamente, como se pode constatar nos ensaios que formam esta revista. Não poderia deixar de anotar que o conservadorismo está presente. Franklin Maxado registra preconceitos de raça e cor, bem como bajulação a coronéis e políticos. Diz: "Mesmo sendo bastardo, mestiço, mulato, cabra ou mesmo negro, os poetas procuram se branquear com sua arte." A sobrevivência do poeta, muitas vezes, condiciona o sentido social de sua criação.
Os leitores e estudiosos da literatura encontrarão neste número da Cultura Crítica uma rica variedade de exposição, análise, descrição, discussão e avaliação do fenômeno cultural literatura de cordel. O próximo número da revista será dedicado especialmente aos 100 anos da morte de Machado de Assis e aos 100 anos de nascimento de João Guimarães Rosa. 

Erson Martins de Oliveira

 Agradecimentos

Este número da Cultura Crítica é resultado da colaboração de muitos poetas e pesquisadores, que contribuiram das mais diversas formas, com textos, fotografias e sugestões. Sem essa ajuda, esta publicação não seria possível. Em especial, a revista contou com a colaboração de Edilene Matos, professora da PUC-SP, e a orientação de Marco Haurélio, cordelista e estudioso de cordel. Agradecemos a todos.

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