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Home >> Revista Cultura Crítica >> 06, cordel, 2º semestre de 2007 >> Uma breve história do cordel

Uma breve história do cordel

APROPUC-SP 10.03.09

Assis Ângelo


Literatura oral é a poética desenvolvida no calor do improviso pelos violeiros brasileiros, ou de um ou de outro lugar de além-mar, como Portugal, Espanha e França. É também aquela que é passada de boca em boca por gerações e gerações, sem que se saiba verdadeiramente a sua origem ou quem a fez, por isso anônima e também coletiva, popular, do povo. Vox populi, vox Dei.
Em Portugal, fala-se que "canta ao desafio" quem canta ao som de violas. Ainda em Portugal, mas nas regiões do Minho, Alentejo, Madeira, Açores e Barra Alta, o repente é chamado de fado beirão. Maria Barbuda, nascida Maria Marques de Souza (1869-1946), e Marques Sardinha, de batismo José Maria Marques (1859-1941), foram os mais importantes repentistas de Portugal.
Marques Sardinha representa para os portugueses o que Pinto do Monteiro (Severino Lourenço da Silva Pinto, 1895-1989) e os irmãos Louro, Dimas e Otacílio Batista representam para nós brasileiros. Monteiro é o local, no sertão da Paraíba, onde Pinto nasceu. Sardinha também é o lugar em que Marques nasceu, em Avança, Portugal.
Na Espanha, notadamente na região da Galiza, cantar de improviso ao som de viola é regueifar. Na França não se regueifa, mas trova-se. Na Argentina, Uruguai, Colômbia, Peru, Paraguai e Chile, chamam o cantador de payador, como no nosso Rio Grande do Sul.
A literatura de cordel, por sua vez, é a escrita por poetas de bancada ou por autores de linhas e gêneros diversos, como os contistas e os romancistas tradicionais, em atividade desde tempos imemoriais. Esse tipo de literatura é publicada em folhetos baratos que são vendidos em feiras livres, em livrarias ou de mão em mão nos teatros, bares e outros locais públicos, por seus próprios autores ou por quem eles incumbirem de desenvolver tal tarefa. Esse tipo de vendedor chama-se de folheteiro. Além de brasileiros, há cordelistas italianos, espanhóis e mexicanos. No México, o cordel é chamado de pliego de cordel ou pliegos sueltos. Em Portugal, de folhas volantes ou folhas soltas. No Chile, coplas de ciegos.

Dos ventos da Idade Média
Nos folhetos de 11x16 cm, em média, e de 8 a 64 páginas, chamados de "romance", incluíam-se, além de textos poéticos, textos em prosa, contando quase sempre histórias de cavalaria e viagens arriscadas e intermináveis, de donzelas e figuras encantadas. Isso por volta do século XVII. Hoje, o mais comum é acharem-se folhetos de 12 a 24 páginas com poemas feitos em sextilhas, septilhas ou decassílabos, seguindo a rigor regras e técnicas pré-estabelecidas. Entre os temas mais abordados, encontram-se ainda o cangaço, o padre Cícero e o ex-presidente Getúlio Vargas, fora a violência urbana rotineira, quase guerra civil, das grandes cidades, e personagens políticas e artísticas de destaque na cena nacional. Na capa desses folhetos - geralmente impressos em branco e preto sobre papel-jornal -, são gravadas fotos, desenhos a bico de pena ou em xilogravura, que é a sua forma histórica e tradicional. O vocábulo "Cordel" foi registrado pela primeira vez no Dicionário Contemporâneo, de Francisco Júlio Caldas Aulete (1823-1878), editado em Portugal, em 1881.
Essa, como se vê, é uma história comprida, cujas origens se misturam facilmente com os ventos da Idade Média dos séculos V a XVII. Foi por aí que surgiram os jograis, as cantigas de amigo e as de amor. Os jograis eram artistas ambulantes, poetas, declamadores; saltimbancos, palhaços, malabaristas. As cantigas de amigo falavam do dia-a-dia das pessoas simples e de seu habitat, que eram as aldeias.
No século XV, o alemão de nome Johannes Gensfleisch Zum Laden Gutenberg (1398-1468) criou a tipografia com caracteres móveis de metal, novidade que, mais do que depressa, se espalhou pelo mundo todo, possibilitando a impressão múltipla e rápida de livros, como a Bíblia. Antes, porém, houve quem já imprimisse textos na Alemanha e nos Países Baixos pelo processo lento e trabalhoso da xilogravura, conhecido desde a Antiguidade pelos chineses e coreanos. Os Países Baixos estão situados em terras baixas do Noroeste da Europa, e são regidos por uma monarquia e uma democracia parlamentar. Confunde-se quem os chama apenas de Holanda.
Os poetas do povo, trovadores, cavaleiros andantes e errantes, os desgarrados, os jograis, saíam vida afora louvando, quase sempre em fala versificada, a Natureza e Deus. À época em que apareceram esses artistas - registra a história -, mandavam e desmandavam nesse mundinho os senhores feudais, na maioria, membros do alto clero formado por bispos e abades da Igreja. Tempos difíceis, da Inquisição assassina levada avante com a chancela da Igreja Católica, a partir de 1231. No Brasil, durou quase quatrocentos anos. O papa João Paulo II, em público, já pediu perdão, mas só as vítimas podem perdoar...

Com Inquisição e tudo
Havia dois tipos de senhores feudais: os suseranos e os vassalos.
Os suseranos eram pessoas muito ricas e, conseqüentemente, muito fortes politicamente. Os vassalos não eram pobres, mas também não eram ricos como os suseranos. Os servos, sim. Os servos eram o que se chama de ralé. Não tinham nada. Viviam de favor e produziam o próprio sustento em terras emprestadas por seus nobres senhores - como hoje, aliás, apesar das encrencas freqüentes em torno da reforma agrária. Coisas de política, de poder, da Igreja. Coisa feia, eterna.
Os poetas daquelas eras eram charmosos, benquistos, bem vistos. Apresentavam-se nas ruas, nas casas do povo e em palácios até. Para onde os chamassem, lá estavam.
Com o fim da Idade Média, que durou dez séculos (a Inquisição, uns 800 anos), e a chegada da Era Moderna, que se estendeu até o ano de 1789 (leia-se: Revolução Francesa), os pequenos reinados uniram-se e formaram o que conhecemos como Estados nacionais. Há quem diga que a Idade Média foi o período mais difícil já vivido pela humanidade. Chamam-na até de "Idade das Trevas". Recomendo a leitura do livro Idade Média: Treva ou Luz?, de Indro Montanelli e Roberto Gervaso. Recomendável também é a leitura de Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o Contexto de François Rabelais, de Mikhail Bakhtim.

Poeta repentista
Hoje, tanto tempo depois, sobrevive entre nós a versão já pouco charmosa, mas ainda assim curiosa e sempre aplaudida, do poeta repentista (equivalente do jogral, trovador, saltimbanco) que anda por aí com uma viola a soar no peito, a louvar em verso a Natureza, e a criar (e a divulgar) a modo próprio notícias de todo tipo: fantásticas mais das vezes, jocosas outras, e outras também de forte apelo social e de características amorosas. Um cearense de Assaré, Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), o Patativa, foi um dos maiores expoentes no Brasil desse tipo de cultura, chegando a gravar discos e a publicar folhetos com poemas de sete e de dez sílabas, na maioria. Virou mito.
O poeta de bancada, como o poeta repentista (há pelo menos três mil deles em atividade, no Brasil), também continua firme, de caneta em punho, e aperfeiçoando-se cada vez mais no trato com as letras.
Pela internet e outros meios, procuram esses poetas escrever histórias e publicá-las no formato de livreto (ainda) de cordel, assim chamados os pequenos volumes em que são enfeixados notadamente textos poéticos. Essa foi uma das formas pelas quais textos de grandes nomes da literatura portuguesa, como Eça de Queirós e Antero de Quental, chegaram às mãos dos leitores. Entre nós, não há como deixar de reconhecer a obra cordelística de nomes do repentismo como Oliveira de Panelas, Ivanildo Vila Nova, Sebastião Marinho, Bule-Bule, José Mapurunga, Antônio Queiroz de França e Geraldo Amâncio. De cordel e de xilogravura, importantíssimo também é o nome do pernambucano de Bezerros J. Borges, poeta popular e artesão com oficina própria montada em sua casa, que vive a ensinar aos filhos (é pai 18 vezes) a arte que aprendeu no decorrer da vida. Nasceu no dia 20 de dezembro de 1935.
Na virada do século XIII para o XIV, um certo português, de nome Affonso Lopes Vieira, conta, em prosa, uma bela história no livreto O Romance de Amadis. Republicado em edição fac-similar em Lisboa, Portugal, no ano de 1926, depois em 1983, o livreto assim começava:
Ao fim de muito andar, encontrou Amadis um lenhador que tinha a cabana à borda do caminho. Como era noite fechada, ali se recolheu e deixou o cavalo a pastar.

Contou-lhe aquele homem que vira passar de longa data cinco cavaleiros armados, com um à frente que levava uma donzela.

- Amigo, como era a donzela?

- Senhor, formosa sem par!
Um romance de cavalaria, como se vê.

Histórias de martelo e espada
No desenrolar dessa história, não demora muito para que o herói da parada, Amadis, mate, a golpes de reluzente e justiceira espada, meio mundo de infiéis, e salve, ao fim e ao cabo, ileso, a sua amada Oriana, sequestrada que fora por um bando de vagabundos salteadores. Um velho escudeiro grego, de nome Macandon, surge de repente, do nada, para mostrar a um certo rei Lisuarte uma espada mágica que trouxera da Grã-Bretanha. Quem conseguisse arrancá-la da bainha subiria sem delongas ao trono. Essa história é conhecida de cor e salteada. Acha-se no ciclo dos cavaleiros da Távola Redonda do mítico rei Arthur, ora como espada fincada numa pedra, ora como espada fincada numa árvore. Outra versão dá conta de um martelo mágico feito arma usada por Thor e pelo deus gaulês Teranis. O fato é que esse tipo de romance ou novela de cavalaria, surgido simultaneamente na França e na Inglaterra, representava os ideais da nobreza feudal.

Cordelismo e repentismo
O repentismo, como espécie de braço da literatura oral, chegou ao Brasil via Portugal, e fincou raízes profundas no Nordeste. Sabe-se disso. O que pouco se sabe é o fato de o repentismo ter esticado pernas por Minas Gerais por meio da cana ou caninha verde, que é um tipo de canto e dança muito apreciado também no Sudeste do nosso país, incluindo o interior paulista. Fazer ou cantar versos de improviso, em Minas, diz-se: "jogar versos". Naquele estado, alguns nomes de "jogadores de versos" ficaram famosos: Pau Terra, Tiófo, o Cantador de um Braço Só, Cega Etelvina e Luduvina. Luduvina, uma baiana criativa, autora de um ritmo que leva seu próprio nome (o legendário Zé Coco do Riachão, chamado de "o Beethoven do Sertão brasileiro" pelos alemães, registrou esse ritmo num de seus dois discos de vinil). Também ganharam notoriedade os poetas Cândido Canela, João Martins, Zé Figueiredo, Tony Agreste (Antônio Caboco), Condencim Taboca, Juca e Beija-Flor. Alguns desses nomes, como Cândido Canela e Tony Agreste, tiveram textos transformados em canção ou ditos por declamadores profissionais.
Para reforçar a importância do repentismo - e do cordelismo - em Minas, no dia 2 de janeiro de 1980, o violeiro Téo Azevedo reuniu-se no Centro de Extensão Cultural Dr. Hermes de Paula, em Montes Claros, com Amelina Chaves, Jason de Morais, Braúna, Josesé Alves Santos, Manoelito, Tom Andrade, João Aguiar e Alencar Carneiro, entre outros, e criou a Associação dos Repentistas e Poetas Populares do Norte de Minas, que existe até hoje. Dois anos depois, essa Associação lançava o pasquim ou "pisquim" Calango, jornal editado em formato tablóide por Josesé Alves para divulgar a cultura da região, incluindo a literatura de cordel e o repentismo. Calango, esclareça-se, é um tipo de poesia improvisada e ritmada, parecida com o repentismo nordestino e com o partido alto carioca. Em 1987, era lançado o primeiro disco de repentistas mineiros, também por iniciativa da Associação criada por Azevedo e amigos.
Téo Azevedo, além de violeiro dos bons, é poeta cantador, compositor e produtor musical nascido no dia 2 de julho de 1943. Já teve inúmeras histórias de sua autoria publicadas em livretos de cordel.

Leandro Gomes de Barros
Além do que até aqui foi dito, é bom que se acrescente o fato de que, na virada do século XIX para o século XX, um cidadão nascido em Pombal, sertão da Paraíba, de nome Leandro Gomes de Barros (1865-1918), deitou e rolou no campo da literatura de cordel, deixando para a posteridade, segundo estimativas, nada mais nada menos do que 1.004 folhetos publicados. Em quantidade, foi superado, até agora, apenas pelo alagoano Rodolfo Coelho Cavalcanti (1919-1986), que publicou 1.466 folhetos. Também é preciso que se diga que, ao contrário de hoje, existiram, outrora, muitas gráficas especializadas na impressão de textos para folhetos de cordel, principalmente no Nordeste.

Cordel em São Paulo
Em São Paulo, na década de 1920, surgiu a Tipografia Souza, do português José Pinto Souza, que depois virou a Editora Prelúdio, especializada na publicação de letras de músicas populares, como sambas e modinhas. A Prelúdio deu vez à Luzeiro, do mesmo proprietário, que passara, a certa altura, a imprimir e a comercializar folhetos originalmente publicados em Portugal. Em 1995, ano da morte do grande poeta Manoel D'Almeida Filho, consultor da editora, a Luzeiro foi vendida à firma dos Irmãos Nicoló. Hoje, Gregório Nicoló é proprietário único desta autêntica editora nordestina encravada no coração da Paulicéia. Entre 2005 e 2007, a Luzeiro, sob a coordenação editorial do poeta baiano Marco Haurélio, renovou o seu catálogo de cordel, com relançamentos de clássicos de sua propriedade ou em domínio público e obras de grandes nomes da atualidade. Entre estes nomes, o próprio Marco Haurélio, autor de Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo, e Arievaldo Viana, poeta e ilustrador, autor de Proezas de Broca da Silveira.
Há dois anos, surgiu, também em São Paulo, uma nova editora com a proposta de editar esse mesmo tipo de literatura, a Hedra. Abrindo um leque no ramo, a veterana Letras & Letras dá início agora à louvável iniciativa de publicar uma série de livrinhos reunindo textos para folhetos de cordel. A série inicia-se com um punhado de histórias escritas pelo mineiro de Alto Belo, Téo Azevedo, que se distrai fazendo rimas em gêneros diversos, como sextilhas, septilhas e quadras duplas e soltas. Essas quadras têm rimas entre os 2º e 4º versos, sem ser o seu autor obrigado a seguir à risca o assunto abordado na primeira ou demais estrofes.
Com o mesmo espírito renovador, mas respeitando a tradição, outra casa editorial paulista, a Nova Alexandria, lançou a Coleção Clássicos em Cordel. Os dois primeiros volumes da Coleção, lançados em 2008, são adaptações de clássicos de Victor Hugo: Os Miseráveis, recriado pelo talentoso cordelista Klévisson Viana, e O corcunda de Notre-Dame, do professor e cordelista alagoano João Gomes de Sá. Prova inequívoca da vitalidade do cordel como símbolo de resistência da cultura popular.


Assis Ângelo é jornalista, autor de vários livros sobre música e folclore, entre eles, Presença dos cordelistas e cantadores repentistas em São Paulo, O brasileiro Carlos Gomes e Dicionário Gonzagueano, de A a Z.
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