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Cordel,criação mestiça

APROPUC-SP 10.03.09

Martine Kunz


Quem são esses homens
de tez encardida
e passos graciosos?
Quem são esses magos
de magras figuras
e riso na boca?
Quem são esses reis
sem níquel no bolso
mas fartos de festa?

Deviam se maldizer e dançam. (Barroso, 1996)

Os versos do poeta e dramaturgo cearense Oswald Barroso integram o poema de abertura do livro Reis de Congo, de sua autoria, sobre reisados e teatro tradicional popular. Eles falam do povo nordestino, sabido, atrevido, desmedido, festivo, imperador de um dia nos seus reisados, quando esquece a rotina da penúria e implanta uma corte medieval no roçado. Os brincantes fazem reluzir uma Idade Média de sombra e luz, aqui mesmo, no sertão, transfiguram lendas, ensinam a rir da desgraça e a fazer do nada a ilusão do farto.
O povo imagina, aumenta, engorda, para que a fantasia possa embalar o real. O salafrário do "sacanageiro" do Antonio Biá, no belo filme de Eliane Caffé, Narradores de Javé (Brasil, 2003), não diz outra coisa: "O que nós somos, é só um povinho ignorante que quase não escreve o próprio nome mas inventa história de grandeza para esquecer a vidinha rala, sem futuro nenhum."
Essa invenção de uma "história de grandeza" encontra vazão no reisado. Nossa reflexão ficará sob a regência desse folguedo, pela alegria de suas falsas batalhas entre mouros e cristãos, entre drama e brincadeira; pela mestiçagem étnica de seus diversos elementos europeus, negro-africanos e ameríndios, e pelos traços medievais que marcam seus cantos dançados e dramatizações.
Alegria, mestiçagem e Idade Média compõem outras manifestações artísticas da cultura popular brasileira. "Sou um tupi tangendo um alaúde", diz Macunaíma, e o verso de Mário de Andrade permeia toda a reflexão de Serge Gruzinski, no seu belo Pensamento Mestiço (2001). Nada é inconciliável, nada é incompatível, comenta o historiador, não é porque o alaúde europeu e os tupis pertencem a historias diferentes que eles não podem se encontrar, na pena ou na voz de um poeta ou numa aldeia indígena administrada pelos Jesuítas.
No caso presente, evocamos a vasta rede de ecos ressoando entre a literatura do medievo ocidental e a literatura popular em verso do Nordeste do Brasil. As obras de Câmara Cascudo, Marlyse Meyer e Jerusa Pires Ferreira, entre outros nomes da crítica literária brasileira, ou ainda Paul Zumthor, medievalista suíço, estudioso das poéticas da voz, comprovam o quanto essa área de investigação suscitou contribuições ricas e inovadoras. Entre a França e o Brasil, o medievo e o sertão, as ressonâncias são de fato múltiplas.
O poeta "que faz verso na hora, feito caldo de cana", na definição de Curió, cantador alagoano, e que, não raro, faz as vezes de folheteiro de grito, lembra o jogral da Idade Media, brincalhão profissional e itinerante, de talentos múltiplos, que empresta sua voz à obra medieval: canção de gesta, poesia lírica e fabliaux, contos e romances em octossilabos, um dos versos mais antigos e utilizados na poesia francesa medieval.
Um e outro palmilharam caminhos, interpretando e criando versos, em meio a rodas de ouvintes. Um divulgava a literatura francesa no seu princípio, quase que exclusivamente cantada ou recitada, outro difundia um gênero literário que, pela circulação organizada e ampliada de sua produção, firmava e preservava a oralidade impressa nos folhetos.
Um e outro promoveram, com recursos diversos, uma espécie de mise en spectacle da literatura, e dos folhetos nordestinos emergem personagens, temas e enredos que cruzaram o oceano e driblaram o tempo.
Consideramos a literatura de folhetos, e arriscamos esboçar as concepções de tempo e espaço atuantes neste universo, em entrelaço de afinidades com os modos de sentir e de pensar do homem do ocidente medieval. Desse emaranhado de rizomas, surgiram e ainda nascem casos de namoro cultural e mestiço, lembrando-nos que Brasil e França não são ilhas.
Em La civilisation de l'occident medieval (1982), Jacques Le Goff explora as estruturas espaciais e temporais do mundo feudal, que são o marco essencial de toda sociedade e de toda civilização, como ele mesmo salienta em seu prefácio a outro livro: A civilização feudal. Do ano mil à colonização da América (2006), obra em que o autor, Jérôme Baschet, estuda a Idade Média em terras americanas, e segue os passos de seu mestre e prefaciador.
Embora sublinhe a surpreendente mobilidade dos homens da Idade Média, Le Goff observa que a extensão dessas viagens e migrações do corpo físico era bastante restrita. O verdadeiro horizonte geográfico era, de fato, um horizonte espiritual, o da Cristandade. Se, aqui em baixo, na terra, o universo cristão permaneceu um mundo cerrado, próximo do racismo religioso, em contrapartida, prossegue Le Goff, abria-se largamente para cima, para o céu. Materialmente e espiritualmente, não tinha tabique estanque entre o mundo terrestre e o além.
À continuidade espacial que confunde e costura juntos terra e céu, corresponde uma continuidade temporal análoga: o tempo é apenas um momento da eternidade, ele só pertence a Deus. Sendo assim, ele só pode ser vivido, sem que seja possível agarrá-lo, medi-lo, ou tirar proveito dele, o que seria pecado. É um tempo divino, contínuo, linear, organizado entre a Criação e o Juízo Final.       
Na literatura de cordel, o Nordeste é o espaço geográfico, mítico, trágico. É a região áspera do brasileiro destemido. Os folhetos falam dos valentes e do bandido-herói Lampião, dão o relato biográfico e a narração hagiográfica do herói fundador e taumaturgo, Padre Cícero, e contam ainda os cantares do poeta roceiro Patativa do Assaré e do rei do baião, Luiz Gonzaga.
Os versos lembram a fome, a seca, as enchentes, a carestia e a fé, foguete da esperança e bastião contra o medo. Inquietos e tenazes, cangaceiros são perseguidos pelas forças legais, vaqueiros cavalgam atrás de bois indomáveis, retirantes da seca e romeiros penitentes atravessam o cordel e todos os sertões, e vozes itinerantes de folheteiros e cantadores levam os versos, de feira a festa, de cidade a fazenda. O Nordeste é a pátria. Até em contexto de migração, a saudade é maior do que o desamparo. É o que Cícero Vieira da Silva revela no seu poema Os Martírios do Nortista Viajando para o Sul:

Quando o caminhão penetra
na velha Minas Gerais
o pobre inda vai mais triste
só olhando para trás
quanto mais o carro anda
a saudade aumenta mais.                                                
(In Batista, 1977: 53)

Não se faz turismo no cordel, só se for folheto de encomenda. O solo contém os homens. Se Copacabana aparece, é que teve, por certo, um incêndio espetacular por lá; se a França for citada, será para reforçar o caráter exemplar da história da Condessa Rosa Negra. As relações e os deslocamentos com o resto do mundo são esporádicos, de pura imaginação ou absoluta necessidade, e os lugares permanecem exteriores, distantes, meio indefinidos. O centro é o Nordeste. Um Nordeste que se alarga e se amplia em direção ao céu. Peregrinações verticais, circulação de mão dupla, nordestinos para lá e anjinhos para cá, o vai e vem assinala uma relação de troca e familiaridade com o além, como no famoso título de José Pacheco, A chegada de Lampião no inferno. A fronteira é fraca entre sagrado e profano, mortos e vivos, terra e céu, santos e bandidos, e até entre Deus e o Diabo. Os dois lutam, de igual para igual, pelo poder, e a famosa dupla ilustra, no cordel, aquele maniqueísmo herético que vigorava em plena Cristandade medieval. É à luz da rivalidade entre o bem e o mal que, muitas vezes, os detalhes da história factual encontram explicação.
A esse sertão que parece exaltar e anular ao mesmo tempo todos os antagonismos, correspondem várias modalidades entrecruzadas de contagem do tempo. Passamos de uma certa indiferença, manifesta em expressões vagas, temporalmente indefinidas: um certo dia, um dia, há muitos anos atrás, a um gosto marcado pela cronologia dos fatos acontecidos, quando o poeta de inspiração mais urbana reivindica uma eficácia jornalística, e faz questão de sublinhar a veracidade de seu relato pela datação precisa.
Mas, quando se trata de circular nessa mescla de céu e terra confundidos, o cordel apela para uma continuidade na linha do tempo, e não mais para o calendário recortado, fragmentado, de acontecimentos memoráveis. Impera então a idéia de um tempo de essência divina, que vai da Criação ao Juízo Final, concepção próxima daquela já identificada por Le Goff na sociedade feudal. O tempo é de Deus, é o tempo dos modelos que viram arquétipos, o tempo dos amores pelo resto da vida e além da morte. É um tempo sem fim, nem futuro, pois O fim do mundo está próximo, anuncia a sentença graciosa de Manoel Tomaz de Assis:

O fim do mundo está próximo
eu estou vendo a confusão
        eu já desatei a rede
e botei no matolão
        já arrumei bagagem
a fim de fazer viagem
        vesti meu jaquetão. (In Batista, 1977:321)

À sombra desse tempo ameaçado pelo apocalipse, uma sensibilidade passadista percorre a literatura de folhetos. Ela transparece na nostalgia de uma ordem que deixou de ser, na resistência à mudança, no apreço a costumes antigos, na denúncia do presente, num certo fatalismo em clima de espera. Se porventura tiver futuro, será na profecia assombrosa ou no milagre que, no mesmo golpe, espanta e salva.
De um lado, então, temos o modo de pensar da Idade Média ocidental, que opera a osmose entre realidades terrestres e celestiais, mentalidade que perpassa a canção de gesta, expressão literária primitiva da sociedade feudal; do outro lado, a literatura popular em verso, impressa em folhetos, nascida e criada no Nordeste do Brasil desde o final do século XIX, que propõe uma maneira de sentir o tempo e o espaço próxima do modelo medieval, e remete também ao contexto específico e à mente coletiva contemporâneos de sua produção. Em uma ou outra literatura, a sociedade que lhe corresponde pode contemplar sua própria imagem.
Para ilustrar essa idéia de trânsito entre duas esferas culturais, distantes no tempo e no espaço, evocamos o percurso sobressaltado e resistente de um texto do medievo francês: a gesta de Carlos Magno, e os primeiros passos de um texto que nasceu ontem, promissor e premiado: Lampião e Lancelote, de Fernando Vilela (2006).
 
A gesta de Carlos Magno ou a história mestiça de um texto polifônico

A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, A Prisão de Oliveiros, O cavaleiro Roldão, A Morte dos Doze Pares de França... Os títulos de folhetos evocam a presença do ciclo carolíngio da canção de gesta francesa na literatura de cordel. La Chanson de Roland integra esse ciclo de poemas, que tem Carlos Magno como personagem central. Sua versão manuscrita mais antiga data provavelmente do final do século XI, e relata a Batalha de Roncesvales, travada na Espanha, em 15 de agosto de 778, entre mouros e cristãos.
Surpreende que, mais de 1200 anos após o fato histórico que inspirou a lenda, os Pares de França permaneçam como modelos de valentia na literatura de cordel do Brasil do século XX. O certo é que encontramos, na produção épica da Idade Média ocidental, a exaltação da fé religiosa que animava as cruzadas, o gosto pela proeza guerreira e o peso do sentimento de honra, características do regime feudal, e não se pode esquecer que este conjunto referencial remete a valores em apreço no meio do sertão.
Carlos Magno é sertanejo.
 Em Mouros, franceses e judeus (1984), Câmara Cascudo aponta exemplos da expansão e contaminação do tema em várias manifestações da cultura tradicional brasileira, das cantorias às cavalhadas, dos reisados à xilogravura. Sem esquecer os brasileiros batizados Roldão, Oliveiros ou Carlos Magno.
Curiosamente, como ressalta o mestre em Cinco livros do povo (1979), esse sucesso infalível de Roldão, que se tornou tradição popular no Brasil, não teve fonte oral, mas sim origem impressa, perfeitamente identificável. Trata-se da História de Carlos Magno e dos Doze Pares de França que, conforme o autor, era o livro mais conhecido do povo sertanejo, nessa primeira metade do século XX.
O processo que vai da gesta francesa até a História do Imperador Carlos Magno, e daí ao folheto nordestino, constitui um itinerário pontuado de adaptações e traduções, ampliações e contrações, textos e vozes, prosas e versos. Tudo começa na França do século XI, com um longo poema épico, narrativo, cantado, que trata de feitos heróicos do século VIII, a Chanson de Roland. Tudo recomeça no século XV, com Les conquêtes du Grand Charlemagne, adaptação em prosa do texto primitivo em verso. Como outros romances de cavalaria, essa versão remodelada e tardia era destinada unicamente à leitura, e não mais a um público de ouvintes, como era o caso da antiga canção de gesta.
Em 1525, ocorre a primeira edição em espanhol do romance francês. Teremos de esperar o século XVIII para ter uma tradução em língua portuguesa, que foi, na verdade, uma remodelação completa do velho texto espanhol. É essa tradução portuguesa que, conforme análise de Marlyse Meyer (1995), foi a base de todas as adaptações populares do tema, incluindo as narrativas de cordel.
No entanto, o que nos encanta, além da presença determinante e inconteste da fonte ibérica, é a proximidade das formas de dizer do texto de cordel e da gesta primitiva francesa. Pois o poeta popular nordestino transpõe em versos a prosa da novela de origem culta do século XVIII, História de Carlos Magno e dos Doze Pares de França, reencontrando, desse modo, a expressão versificada que caracterizava o gênero épico medieval primitivo.
Do lado de lá, o jogral da França do século XI era o homem da oralidade e da performance. Do lado de cá, o poeta popular nordestino do século XX promove também uma literatura cuja língua é, antes de tudo, língua de comunicação imediata e concreta.
É que um e outro obedecem a estruturas poéticas específicas, que integram suas respectivas performances em tradições que convergem entre si. Cada qual, ao seu modo,
evidencia a conexão entre memória coletiva e estrutura poética: a transmissão do poema oral passa pela voz, pela performance, que supõe a presença física e simultânea de quem fala e de quem escuta (Zumthor, 1983). Sua consagração passa pelo leitor-ouvinte, que nele identifica a tradição que o sustenta.
Cordel e texto poético medieval dividem a cena nesse "ambiente teatral", onde a letra é antes de tudo voz, e a palavra é integrada à tradição.           
De fato, sabe-se que, embora veiculado pelo folheto, o cordel é o "grande texto oral impresso", como já o definiu Jerusa Pires Ferreira. A rima do cordel é feita para o ouvido e a memória, não para os olhos. Ela é antes de tudo mnemônica e comunicativa. O folheto é apenas o suporte material de uma poesia que permanece oralidade, conivência e memória compartilhada com o público.
No que diz respeito à gesta francesa, a intervenção da escrita é quase acidental, pois só aparece como veículo estabilizador da voz coletiva. A unidade da estrutura poética tinha de ser sonora para o grande público analfabeto da França dos séculos XI, XII e XIII, já que a voz, segundo a expressão de Paul Zumthor, era o único mass medium da época. O poema épico era declamado no castelo ou na praça pública, pelos jograis, com acompanhamento musical da vielle, um tipo de violino de três cordas apenas.
Aqui e lá, temos um texto mais orquestrado do que narrado, mais cantado do que contado, mais ritmado do que pontuado.
Enfim, se Leandro Gomes de Barros (1865-1918) poderia ter sido cantor de rap, por que não articular ferozmente a tradução em francês de estrofes de A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, à maneira de um Mestre de Cerimônia? Levada pelo desejo de integrar o coro franco-brasileiro das vozes do século XI francês e do século XX do Nordeste brasileiro, persuadida da primazia da voz e da cumplicidade artístico-literária entre os textos cotejados, infelizmente ciente de que a guerra entre religiões monoteístas está longe de ter acabado, por essas razões todas e por gostar de brincadeira e de performance, gravei minha voz no Estúdio Cânticos em Fortaleza, com direção musical e violão do maestro Parahyba e beatbox da percussionista Lila.  Infelizmente, não é possível submeter à apreciação dos leitores-ouvintes essa fala que pretende ir no rumo e no ritmo do rap. Fica registrada apenas a convicção de que esse é um texto que ainda não disse sua última palavra, e a certeza de um diálogo profícuo entre a gesta medieval, o cordel brasileiro e o rap que 

sugere que a obra de arte, aparentemente original, é, em si, produto de empréstimos desconhecidos, e que o texto novo e único é sempre um tecido de ecos e fragmentos de textos anteriores. Nas mãos dos rappers, a originalidade perde assim seu status inicial e é reconcebida para incluir a recuperação transfigurada do antigo, desequilibrando-a de modo inventivo. (Pinto, 2003)

O chassé-croisé do medievo e do sertão / Co'a batuta de Vilela na orquestração

O belo livro de Fernando Vilela, Lampião e Lancelote, não é cordel. Mas tudo nele remete à grande tradição. Escritor e artista plástico, Vilela ilustrou com gravuras sua narrativa em sextilhas, setilhas e prosa. Convocou o Lancelote da tradição arturiana e o Lampião da memória sertaneja. O primeiro quase não aparece nos folhetos nordestinos, o segundo inspirou vários títulos que se tornaram clássicos. Álvaro Faleiros lembra, em discurso de apresentação, que os dois heróis guardam em comum o fato de serem marginais: Lancelote é o amigo infiel do rei Artur, e Lampião é o Rei do Cangaço. O feitiço cruzado de Morgana e Vilela reúne as duas figuras míticas para um combate em que a palavra é o ferro e o fogo, e o epílogo dessa escrita mosaica é uma inversão inesperada de papéis, com partitura musical híbrida.
O texto Lampião e Lancelote é mesmo um passo de dança com troca recíproca e simultânea de lugar e de situação. Pois, no final, Lampião dança a gavotte, enquanto Lancelote, o xaxado e o xote. É um texto jocoso, saltitante, surpreendente e esperançoso. Uma "geléia" descreve o autor "Da magia européia/ Com a ginga brasileira". A epopéia é reinventada. O tempo é desmantelado. A geografia, re-desenhada.
Definir a epopéia não é tarefa simples, já prevenia Zumthor (1983), mas temos alguns ingredientes tradicionais que satisfazem as regras do gênero: uma narrativa de ação sem muitos ornamentos anexos, a encenação da agressividade viril e um combate mortal entre dois personagens fora do comum. Um é Lancelote, cavaleiro da Távola Redonda na corte do Rei Arthur, figura mítica do país céltico, que inspirou vários romances da literatura medieval; o outro é Lampião, cangaceiro nordestino, bandido-herói morto pela polícia, em julho de 1938, na Grota do Angico, em Sergipe, e motivo recorrente, antes de morto e depois de vivo, na literatura de cordel.
Mas, de repente, no auge da matança, uma boa risada mágica instaura a utopia pelo encantamento, e põe fim ao suicídio coletivo. Há uma troca instantânea de fantasia: Lampião afoga-se em armadura de lata, Lancelote veste roupa de couro de vaca, e os dois dançam um minueto que tem mais de brincadeira improvisada do que nobreza consagrada. Perdemos o compasso, e após este exercício barroco de desestabilização do real, voltamos a Zumthor para comprovar o aviso: realmente, definir a epopéia não é tarefa simples.
A batuta de Fernando Vilela rege uma renovação da tradição, e orquestra as sextilhas e setilhas dessa novela de cavalaria, solar e encantada.
Solar e encantada, pois a batuta é também vara de condão, tudo se transforma em cobre e prata, preto e branco, nas ilustrações do poeta e artista plástico Fernando Vilela. O preto e branco da xilogravura das capas de folhetos de cordel nordestinos, o prata da espada que rasga o tempo, o cobre das balas que arranham o sertão.
 Voltamos assim ao tempo e espaço, princípios de tudo.
Numa só jogada, um laço de vaqueiro apreendeu a França e o Brasil, a Idade Média e nossa época, a canção de gesta européia e o folheto nordestino, a cadência do cordel e o ritmo do rap. E o nó do laço é corredio. Sempre cabe mais um. O grande texto da voz prossegue na estrada, chamando a quem quiser engordar a balbúrdia, os griots da África, os poetas itinerantes berberes do Magrebe, os cantadores e emboladores do Brasil, os jograis e os trovadores medievais, e os rappers de hoje, todos com a palavra solta na boca, uma palavra que, mesmo impressa, não se deixa circunscrever nos limites da página, porque bem sabe que as fronteiras só existem para serem transpostas. Todos eles, mestiços de uma mesma tradição, que tem o dom do equilíbrio entre o fixo e o móvel, a memória e a imaginação, a letra e a voz.


Bibliografia


BARROSO, Oswald. (1996) Reis de Congo. Fortaleza: MINC/FLACS/MIS.
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CÂMARA CASCUDO, Luís da. (1984) Mouros, franceses e judeus. São Paulo: Ed. Perspectiva (Col. Debates).
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Folhetos do ciclo carolíngio:
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SAMPAIO, Marcos. (1975) A Morte dos 12 Pares de França. Juazeiro do Norte-CE: Tip. São Francisco.
FREIRE, João Lopes. (s/d) A História de Carlos Magno e os Doze Pares de França. Rio (?): Edição do autor.
ATHAYDE, João Martins de. (1975) Roldão no Leão de Ouro. Juazeiro do Norte-CE: Tip. São Francisco.
SILVA, Antônio Eugênio da. (1958) O cavaleiro Roldão. Campina Grande. 


Martine Kunz Universidade Federal do Ceará - Departamento de Letras Estrangeiras - Pós-doutorado PUC/SP - 2007. Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.

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