Primórdios da editoração do cordel: notícia de um catálogo de 1919-1920
Roberto Benjamin
A localização de um exemplar do catálogo da Livraria Popular Editora, impresso na capital do Estado da Paraíba em 1919, existente no acervo do Fonds Cantel, depositado na Universidade de Poitiers, França, revela novas informações, e permite algumas inferências sobre os primórdios da editoração da literatura de cordel no Brasil.
Impresso em quatro páginas - folha de rosto e três páginas de conteúdo - no tamanho usado para a edição de folhetos, tendo por cabeçalho: "Edições da Livraria ‘Popular Editora' de F. C. Baptista Irmão", costurado a máquina na última página de um exemplar do romance em versos História de Gonçalo Vallente - o filho de Pedro Malazarte.
É sabido, por outras fontes, que F. C. Baptista, o sócio principal, era o poeta Francisco das Chagas Baptista. As raras referências ao "irmão" dizem respeito a Ubaldino.
Francisco das Chagas Baptista publicou inúmeros folhetos em tipografias comerciais do Recife e da capital da Paraíba antes de se estabelecer com a Tipographia e Livraria Popular Editora, o que teria acontecido no ano de 1913 (Terra, 1983: 25).
A Popular Editora seguiu o modelo das editoras populares portuguesas, dentre as quais a H. Antunes Livraria Editora, com filial no Rio de Janeiro, com a qual o poeta Chagas Baptista mantinha relações comerciais, e pela qual, em 1919, viria a ter publicado o livro de versos História completa de Antônio Silvino - sua vida de crimes e seu julgamento.
O catálogo de 1919 ilustra a abertura da Popular Editora para incluir em seu acervo outros títulos de obras que não são de poesia popular em verso, tal como acontecia com as editoras européias:
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Escorço de chorographia da Parayba, de José Coelho;
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Poesias escolhidas;
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Do litoral ao sertão, de Coriolano Medeiros;
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O raptado (teatro), de Francisco Barroso;
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Modinhas e valsas modernas;
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A guerra do anti-Christo;
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Trezenas de Santo Antônio;
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Oração de N. S. do Monte Serrate.
Possivelmente, Ruth Terra, Sebastião Nunes Batista, Átila Almeida e José Alves Sobrinho não tiveram acesso a exemplares do catálogo de 1919.
A relação das obras de autoria de Chagas Baptista inclui, além de títulos conhecidos, possivelmente algumas reedições, omite títulos de folhetos de atualidade de que certamente haviam perdido o interesse, e inclui títulos novos, que não figuram na relação dos registros de sua obra:
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Traição e vingança - História de Esmeraldina, 1916-1917,
4. ed.
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História de Antônio Silvino (completa)
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História da imperatriz Porcina
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História de Maria Rita, 1917
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História da escrava Isaura, 1919
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História de Celina e Carlos - Casamento e mortalha, 1917
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História de Ligia e Vinício
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História da Formosa Guiomar, 1917
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O estudante caipora, 1917
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Peleja de Silvino Pirauá e José Duda
A surpresa é, porém, a referência a nove títulos de autoria de Joaquim Silveira, e um título de autoria de Manoel Nunes de Figueiredo. Estranhamente, os dois autores não são referidos na Antologia de cantadores e poetas populares, que Chagas Batista publicou em 1929.
Joaquim Silveira
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História de Pedro Malazrtes o mestre de Canção de Fogo
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História do rei do vento
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História do rei do destino
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História do reino encantado e das três garças pretas
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História de Gonçallo Valente - o filho de Pedro Malazartes[2]
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Amor e interesse
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Os três conselhos de Deus
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História de Furundango
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O homem do urubu
Manoel Nunes de Figueiredo
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Amor e patriotismo - Romance de Juvenal e Zulmira
Três títulos figuram no catálogo sem indicação de autoria:
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Zezinho e Mariquinha[3]
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Peleja de Nicandro com Nogueira[4 ]
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Peleja de Germano da Lagoa com J. Jaqueira[5] .
Em relação a Joaquim Silveira, há uma pequena nota na segunda edição do Dicionário bio-bibliográfico de poetas populares: "Silveira, Joaquim. Poeta de bancada, provavelmente da Paraíba, em cuja capital imprimiu folhetos pela Popular Editora em 1919." Registra a existência dos folhetos História de Gonçallo Valente - o filho de Pedro Malazartes, História da mulher que deu a luz a três meninos-cabras e uma edição, do Recife, da História de Furundango, que identifica como uma versão de um conto do mesmo nome, publicado no livro Subsídio ao folk-lore brasileiro, de Júlio Campina (1897).
Existe um exemplar da História de Gonçallo Valente - o filho de Pedro Malazartes e outro da História de Furundango, no acervo do Fonds Cantel. Há mais dois exemplares da História de Furundango, em coleções (Terra, 1981: 36). Já a obra de Nunes de Figueiredo não está registrada nos catálogos disponíveis das coleções conhecidas.
Ao final da quarta página, há um aviso de que, além das edições constantes do catálogo, a Popular Editora "tem em depósito todas as obras do incomparável poeta popular" Leandro Gomes de Barros[6]. Sem dúvida, a referência era a um saldo de estoque das obras de Leandro Gomes de Barros, falecido em 1918, cujos direitos autorais haviam sido imediatamente reivindicados pelo irmão de Chagas Baptista, Pedro Baptista (marido de Rachel Aleixo, filha de Leandro), que se havia estabelecido com livraria e tipografia na cidade de Guarabira, PB[7].
Notas
1 O autor agradece à Profa. Dra. Ria Lemaire, curadora do Fonds Cantel, e às técnicas Paola Cristina e Manoela Fonseca dos Santos pelo fornecimento da cópia digital do catálogo.
2 No início da narração da história de Gonçalo, o autor afirma: "Todo mundo já conhece/ de Pedro Malazartes as façanhas/ pois em seu folheto eu disse, em versos as suas manhas"... do que se pode concluir que Joaquim Silveira já havia escrito e publicado um folheto sobre as façanhas de Pedro Malazartes, do qual não se tem notícia na bibliografia, nem figura nos catálogos das coleções conhecidas.
3 Atribuído por Almeida e Alves Sobrinho (1978: 668) a Silvino Pirauá de Lima (1868 - 1913).
4 Nicandro Nunes da Costa (1829-1918); Bernardo Nogueira (1832-1895) (Batista, 1997: 15, 36).
5 Germano da Lagoa é o poeta Germano Alves de Araújo Leitão (1842-1908) (segundo Batista, 1997: 73). J. Jaqueira seria o cantador Joaquim Venceslau Jaqueira (segundo Almeida e Alves Sobrinho, 1990, 2º vol.: 201).
6 Ainda não é possível saber se o nome do poeta figurava em uma quinta página ou se, simplesmente, foi omitido da última linha da folha.
7 Batista, Sebastião Nunes. Bibliografia prévia de Leandro Gomes de Barros.
Bibliografia
ALMEIDA, Átila Augusto F. de & Alves Sobrinho, José. Dicionário bio-bibliográfico de repentistas e poetas de bancada. 2 vols. João Pessoa: Editora Universitária-UFPB / Campina Grande: Centro de Ciências e Tecnologia-UFPB, 1978.
__________. Dicionário bio-bibliográfico de poetas populares. 2 vols. Campina Grande: Uma Edição Campus II / UFPB, 1990.
BATISTA, Francisco das Chagas. Cantadores e poetas populares. Parahyba: Ed. F.C. Batista Irmão, 1929. 2.ed. João Pessoa: UFPB, 1997. 233p.
BATISTA, Sebastião Nunes. Bibliografia prévia de Leandro Gomes de Barros.Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1971.
CAMPINA, Júlio [pseud. de Luiz Tenório Cavalcante de Albuquerque]. Subsídio ao folk-lore brasileiro. Anecdotas sobre caboclos e portugueses; lendas, contos e canções populares, etc. Rio de Janeiro: Papelaria Mendes Marques, 1897. 82p. - 2. ed. Maceió: Universidade Federal de Alagoas, 197
Roberto Benjamin Professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco e Presidente da Comissão Pernambucana de Folclore
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