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Home >> Revista Cultura Crítica >> 06, cordel, 2º semestre de 2007 >> A construção discursiva da imagem de si no discurso: um estudo do cordel de ocasião

A construção discursiva da imagem de si no discurso: um estudo do cordel de ocasião

APROPUC-SP 10.03.09

Simone Mendes


Teorizar sobre o texto literário é, por si só, uma tarefa difícil, sobretudo pela variedade de definições que proliferam em torno desse objeto. Tentar perceber uma dimensão argumentativa nesse tipo de texto, mesmo sabendo que argumentar ou persuadir o público leitor nunca foi, de acordo com a trajetória dos estudos literários, a principal finalidade dos textos advindos desse domínio, torna-se, então, um desafio.
Atualmente, há poucos estudos que focalizam uma abordagem argumentativa do texto literário. A exemplo dos mais significativos, podemos citar as contribuições de Gilles Declercq, que, ao estudar o texto teatral de Jean Racine,  concebe a ficção teatral como imitação das interações argumentativas do mundo real, da perspectiva diacrônica e técnica da retórica, como arte de persuasão, e da perspectiva sincrônica e modalizante da pragmática, como teoria da argumentação na língua e no discurso.
Outros estudos também devem ser destacados, como o de Dominique Maingueneau (1996), que também utiliza elementos da pragmática para pensar o texto literário, a exemplo das leis do discurso de Grice (1996) e dos conceitos desenvolvidos por Ducrot (1983) sobre os pressupostos e os subentendidos. Em um caminho mais próximo da nova retórica de Perelman, temos a teórica Ruth Amossy, que tenta aproximar os estudos argumentativos dos estudos literários, por meio do conceito de dimensão argumentativa, segundo o qual todo texto seria argumentativo, independentemente da finalidade de base ser ou não persuasiva.
Para começar a pensar em uma possível dimensão argumentativa do texto literário, é necessário refletirmos sobre uma questão nodal que costuma aparecer nos debates que giram em torno do assunto entre os estudiosos. Trata-se da função do texto literário, ou ainda, de uma suposta função social desse texto. É comum ouvirmos que o texto literário não é produzido para desempenhar nenhuma função específica na sociedade, ao contrário de  outros gêneros discursivos, a exemplo da notícia, das publicidades e dos debates televisivos. 
No entanto, quando nos deparamos com o cordel de ocasião, foco do presente estudo, podemos dizer que a forma de produção e circulação desse discurso, bem como a construção do ethos do poeta e a sua relação com o público leitor, fazem com que o cordel tenha não só uma função social bastante relevante no interior das comunidades, como também finalidade(s) bem marcada(s) discursivamente, além de uma dimensão argumentativa significativa, que envolveria a junção de todos esses elementos, tendo como pano de fundo o imbricamento entre os domínios literário e midiático, passando, certas vezes, pela biografia do autor. 

Assim, Mark Curran alerta que o estudioso da Literatura de Cordel deve lembrar que o poeta é de uma personalidade complexa. Não é, como seria fácil de concluir, só poeta lírico, ou só repórter social. O bom poeta não pode esquecer-se nem o dom da poesia que ele considera natural desde o berço, nem a obrigação que sente para com o povo. Por isso, fica com uma dupla visão artística, a de poeta e a de comentarista social (1986: 314-15).

De fato, pensar no cordel de ocasião é pensar em uma produção literária que ultrapassa os limites da poesia lírica, para dar lugar à opinião do poeta acerca dos fatos noticiados pela mídia e mesmo sobre acontecimentos corriqueiros presentes no quotidiano da comunidade em que o poeta se insere. Em decorrência de uma escolha temática que vai ao encontro das preferências de seu público, o cordelista  assume o papel de porta-voz, ora de uma sociedade de oprimidos, ora da própria mídia, corroborando o que é noticiado por ela, ora dos políticos locais, que encomendam textos de caráter mais propagandístico.
Em entrevista realizada pelo pesquisador José Erivan B. de Oliveira, em 29 de agosto de 1997, na cidade do Crato, o poeta Elói Teles, ao ser indagado sobre a forma como concebe a função social e a finalidade dos cordéis produzidos pela Academia de Cordelistas do Crato, afirma:

Nós temos duas vertentes do cordel do Cariri; nós temos uma, é aquele cordel que expressa a maioria do que está expressando agora, é o que escreve a vinda do papa, a morte de Tancredo, a moça que deu na mãe e virou cachorra, o pai que teve relação com a filha e ficou com a cabeça de vaca, essas coisas estapafúrdias, além do sentido de reportagem que às vezes dá...aqui no Crato, particularmente, se faz um cordel assim, de mais utilidade, se aborda mais temas históricos, culturais, um pouco de humor sadio em cada um, se coloca um pouco de cultura popular, folclore, finalmente, o cordel nosso participa de campanhas, quer dizer, é um cordel que tem objetivos... (Oliveira, 2001: 23).

Esses objetivos, aos quais o poeta se refere, relacionam-se a um certo grau de implicação e envolvimento dos cordelistas com a vida quotidiana ao seu redor, seja por meio de campanhas educativas, seja pelo relato de reportagens que focalizam eventos considerados importantes, como a morte ou a chegada de uma personalidade específica. Porém, é importante ressaltar a dimensão literária presente na transposição dessas finalidades para o cordel, através da consciência do poeta de possuir uma margem de manobra ampla, com a possibilidade de misturar humor com fato jornalístico, com folclore e com História, realizando uma reestruturação formal do texto original, marcada pela rigidez do número de versos, sílabas, estrofes e páginas.
Ainda sobre a atividade do cordelista, Manuel Diégues assevera que os poetas populares se apropriam dos acontecimentos quotidianos e os colocam em sua poesia,

não raro procurando dar-lhes fisionomia própria, isto é, decorrente  da atitude da sociedade. Um caso não raro de interpretação: o de procurar adaptar uma figura, uma estória maravilhosa, um acontecimento, ao próprio espírito de seu meio ou de seu ambiente. Não apenas interpretação, mas quase mesmo uma identificação (Diegues, 1986: 56).

Essa atividade de adaptação e de interpretação temática de conteúdos variados e mesmo de identificação do poeta com o seu público é fundamental para conferir funcionalidade ao poema de cordel, numa mistura de finalidades que passa pelo entretenimento, pela informação e pela formação de opinião (no sentido de educação e também de cidadania). A coerência entre a adaptação temática para o leitor e a imagem de si projetada pelo poeta (e mesmo uma imagem previamente existente) trazem credibilidade ao seu discurso, o que pode gerar uma fidelização do público, fato imprescindível sobretudo para os poetas que sobrevivem da venda dos folhetos.

Sobre a construção da imagem de si na literatura de cordel

Partindo da noção de dimensão argumentativa[1], segundo a qual todo projeto de fala, independentemente de ter uma finalidade persuasiva, não deixaria de ter uma faceta argumentativa, abordaremos a noção de ethos como uma imagem de si projetada no discurso, a fim de atingir a adesão do leitor; de persuadí-lo, formando ou reforçando a sua opinião, e mesmo captá-lo, no sentido de levá-lo a adquirir o folheto. Analisar a dimensão argumentativa nesse tipo de folheto parece apropriado na medida em que o cordel de ocasião se mostra como fruto de um processo de adaptação, interpretação e  problematização de determinado(s) fato(s) midiático(s) que faz(em) com que o "mundo" seja visto de uma certa maneira e não de outra.
O ethos do poeta apareceria, então, como uma estratégia persuasiva utilizada de várias formas, pois, como veremos, a imagem do poeta irá aparecer em algumas esferas discursivas, a fim de conferir credibilidade ao processo de midiatização pelo qual passa o poema e de captar o leitor, persuadindo-o a aceitar um determinado ponto de vista assumido, a se engajar em uma causa qualquer ou mesmo a se emocionar diante de um fato apresentado[2].
No âmbito dos estudos em Análise do Discurso, Maingueneau (2005) concebe o ethos como uma condição enunciativa que é estruturada tendo em vista uma corporalidade presencial -nas interações face-a-face - e imaginada - nas interações monologais ou não presenciadas pelo locutor e pelo interlocutor simultâneamente. Dessa forma, qualquer discurso manifesta essa corporalidade, através de uma vocalidade específica que indica, por meio de um "tom", quem está projetando sua imagem enquanto enuncia. Esse "tom" tangencia todo o discurso e pode ser percebido sob diversas formas de manifestação.
Para o autor, a "instância subjetiva", que se manifesta no discurso, não o faz apenas por meio de um estatuto social (prévio) e de um papel discursivo, mas além disso:

ela [a instância subjetiva] se manifesta também como "voz" e, além disso, como "corpo enunciante", historicamente especificado e inscrito em uma situação, que sua enunciação ao mesmo tempo pressupõe e valida progressivamente (Maingueneau, 2005: 70).

Construir uma imagem de si diz respeito ao que o autor nomeia como ‘processo de incorporação', que seria a construção do ethos pelo co-enunciador, através de uma voz e de um tom, de uma imagem corporal do enunciador, ancorada num "conjunto difuso de representações sociais valorizadas ou desvalorizadas, de estereótipos sobre os quais a enunciação se apóia e, por sua vez, contribui para reforçar ou transformar" (op. cit., 2005).
 Dentro de um outro quadro de problematização da noção de ethos na Análise do Discurso, Charaudeau - embora não mencione o processo de incorporação proposto por Maingueneau - acaba validando a importância de uma co-construção pelo leitor/ouvinte da imagem de si que o enunciador projeta em seu discurso. Segundo o autor:

O ethos relaciona-se ao cruzamento de olhares: olhar do outro sobre aquele que fala, olhar daquele que fala sobre a maneira como ele pensa que o outro o vê. Ora, para construir a imagem do sujeito que fala, esse outro se apóia ao mesmo tempo nos dados preexistentes ao discurso - o que ele sabe a priori do locutor - e nos dados trazidos pelo próprio ato de linguagem. (Charaudeau, 2006: 117)

Notemos que o autor se afasta um pouco da noção de ethos encarnado, focalizando uma dimensão especular em que a imagem de si se construiria por meio de um "cruzamento de olhares", num plano idealizado, entre a imagem que o enunciador tem do destinatário e a imagem que o enunciador pensa que o destinatário possui dele. O autor aponta ainda para um outro cruzamento que estruturaria esse jogo especular de construção do ethos: trata-se da relação entre os dados do enunciador preexistentes ao discurso e os dados trazidos pelo discurso no momento da troca.
Ajustando o foco sobre o cordel O cabrito e as Feras, do poeta Raimundo Santa Helena, podemos dizer que a construção discursiva do ethos do autor passaria, necessariamente, por diversas esferas discursivas complementares ou interdependentes, devido ao fato desse cordel ser construído a partir de uma imbricação de discursos que ora se apresenta por meio da poesia, ora por meio de dados biográficos, ora por informações extraídas do discurso de informação midiático, consolidando, juntamente com um ethos prévio estereotipado pela tradição do cordel em sua trajetória histórica, uma só imagem de si em sua produção.
A fragmentação metodológica dessas esferas discursivas é importante para o entendimento da noção de ethos, pois acreditamos que o poeta escolhido possui um diferencial estratégico, se compararmos a sua  produção com a de outros poetas: ele imbrica intencionalmente essas esferas, a fim de legitimar uma determinada imagem de si.
Assim, a hipótese que estamos tentando corroborar percebe a construção do ethos do autor em questão como a junção de pelo menos três ‘facetas' dessa imagem, a saber:  a) uma imagem ligada a um ethos prévio, ancorado em um estereótipo aceito pelo leitor, tendo em vista a produção cordelística enquanto prática sócio-historicamente situada, com bases na tradição oral; b) uma imagem de si construída discursivamente na poesia; c) uma imagem de si construída pelo discurso midiático; e d) um ethos projetado no discurso autobiográfico. Certamente, é na junção dessas manifestações da imagem de si  que poderemos visualizar melhor o seu ETHOS e o uso que ele faz dessa imagem em termos da dimensão argumentativa que gira em torno do cordel para o qual estamos lançando o nosso olhar. Entretanto, focalizaremos o ethos discursivo -descrito nas letras b, c e d acima - em detrimento do ethos prévio - descrito na letra a. Privilegiaremos, então, a construção discursiva da imagem de si, embora consideremos muito importante a descrição da imagem construída previamente pela tradição da literatura de cordel, do poeta-cantador, que trabalhava nas feiras e mercados, declamando e vendendo o folheto e mesmo do narrador oral, anterior ao aparecimento do poema escrito.
contextualizando o poema "o cabrito e as feras": o ethos na esfera literária

O poema em questão foi produzido em 1984 e teve como tematização de base a alternância de dois espaços cenográficos distintos, que se alternam ao longo do poema. O primeiro foi explicitado no título do poema: trata-se do desaparecimento de cabritos, de forma misteriosa, do jardim zoológico do Rio de Janeiro. O segundo está ligado ao movimento popular que reivindicava as eleições diretas no Brasil, um momento político bastante significativo e turbulento na época, pois caracterizou a transição do período ditatorial para o republicano, que teve início em 1985, com a posse, por eleição indireta, do presidente José Sarney, após a morte do então presidente Tancredo Neves.
Acerca dessa mistura de espaços que se alternam, podemos citar o trecho abaixo, cujos três primeiros versos descrevem o espaço ligado ao movimento das "diretas", e os três últimos descrevem o espaço ligado ao caso do sumiço dos cabritos e à estratégia encontrada pelos responsáveis do zoológico de colocar um cabrito como bode expiatório para solucionar o mistério.

O País faz novo tanque,
Com um possante canhão;
Nosso povo sem "diretas",
Sem carne, leite, feijão;
E o Jardim zoológico
Do Rio faz necrológico
Do cabritinho "Beltrão"

Ao se aproximar do final do poema, o autor promove um imbricamento entre os dois espaços supracitados, aproximando, por meio da comparação, a figura do contribuinte cidadão à do "cabrito expiatório", sugerindo que o cidadão estivesse sendo extorquido por altos impostos, que estariam, por sua vez, financiando as ações do governo  ao invés de servirem para melhorar a vida da população:

Aqui FaMInto "leão"
Tributa fome, velórios -
Contribuintes se tornam
Cabritos expiatórios.
Tanque de guerra buzina
Nas bombas de gasolina.
Pobre não tem mictórios...

Por meio da problematização dos dois espaços, num projeto argumentativo pautado, por um lado, em um posicionamento contrário à atitude do governo ditatorial e, por outro lado, contrário à exposição do cabrito como isca para as "feras" do zoológico, o poeta projeta, num primeiro plano, um ethos daquele que se indigna diante de fatos que julga injustos e reinvindica, em conseqüência, ações por parte do governo, ou propõe soluções, como oferecer dinheiro em troca do cabrito enclausurado.
No entanto, a seriedade da problematização parece se romper em função mesmo dessa imbricação inusitada de acontecimentos tão distintos, atenuando e mesmo mascarando a defesa que o poeta faz das eleições diretas, uma reinvindicação cidadã que estava sendo censurada pelo governo ditatorial. Cremos que essa estratégia se configurou como uma forma de driblar a censura na época, já que o título do folheto só faz alusão ao acontecimento no zoológico da cidade.
Dessa forma, uma imagem de si ligada à jocosidade aparece em certos termos que o poeta utiliza, tal como o neologismo "cascocure", aludindo ao fato de os cavalos da polícia militar disporem de manicures, enquanto, do outro lado, o povo sofria com a forte repressão. No final, o poeta evoca Deus, construindo uma cena em que o menino Jesus aparece na garupa de um jumento nos versos: "Deus ouvi nos oratórios / As preces do pensamento, / Que vão subindo, zunindo,/ No galopeio do vento! /  Ou se é um Joaquim Cruz / Ou um Menino Jesus / Na garupa do Jumento..." (p. 3).
 Em seus versos, o poeta projeta duas imagens básicas, quais sejam: o ethos do cidadão que se indigna e reivindica seus direitos e o ethos ligado ao humor e à jocosidade, no momento em que brinca com um quadro de problematização sério relacionado ao contexto vivenciado pelo poeta.

O ethos do poeta na esfera biográfica

A esfera biográfica ganha contornos relevantes no interior dos cordéis de Raimundo Santa Helena (RSH), à medida que se faz presente na grande maioria de seus folhetos, seja na contracapa, seja como um anexo ao poema, seja como temática do próprio cordel ou como paratextos que aparecem em espaços ao redor do texto. Enfim, o poeta sempre encontra uma forma de inserir suas memórias pessoais como reflexo de uma vida que beira à ficção e mesmo do retrato de uma historiografia do Brasil que passa pela sua experiência de vida.
Essa recorrência de trechos biográficos parece reforçar uma tentativa de legitimar determinados traços de um personagem que, embora transite em um universo ficcional, apresenta uma faceta que gira em torno de uma imagem de si mesmo na "vida real". Trata-se também, ao nosso ver, de uma boa estratégia de captação do leitor que procura se identificar com um poeta de "carne e osso", isto é, alguém que chora, sofre, luta, trabalha, lamenta; alguém que, antes de querer fazer sentir emoção, emociona-se com a própria experiência de vida.
A captação pela biografia parece ser um dos principais indícios da dimensão argumentativa presente nos textos de RSH. Embora ela seja apenas uma das formas que o poeta utiliza para atrair o seu leitor, parece-nos que ela é uma das maneiras mais eficazes no sentido de criar um elo de identificação com esse leitor.
No cordel "O cabrito e as feras", fragmentos da biografia aparecem na contracapa e no interior do cordel, em forma de um paratexto. Na contracapa, há um trecho que merece ser destacado, pela proximidade que mantém com a temática do cangaço, uma temática muito recorrente nas bases mais tradicionais da literatura de cordel:

Raimundo Santa Helena, poeta do Sertão de Cajazeiras, Paraíba, de onde fugiu com 11 anos de idade para vingar a morte de seu pai assassinado por Lampião em 9-6-1927. Mas chegou em Fortaleza em um pau-de-arara, dormiu na sarjeta, porém se reabilitou trabalhando 13 horas por dia e estudando à noite num galinheiro. Ingressou na marinha e hoje é ex-combatente remunerado. (1984: 8)

É importante ressaltar que, na poesia popular, é comum encontrarmos poemas em que a coragem para enfrentar a injustiça é vista como um aspecto positivo que reabilita o cangaceiro de seus crimes. Na história de Lampião, a morte do pai justifica sua entrada para o cangaço:  "Assim como sucedeu / ao grande Antônio Silvino, / sucedeu da mesma forma / com Lampião Virgulino, / que abraçou o cangaço / formado pelo destino (...) / Porque no ano de Vinte / seu pai fora assassinado / da rua da Mata Grande / duas léguas arredado (...) / Sendo a força da Polícia / autora desse atentado (...)" (Cascudo, 2005: 123).
Santa Helena, no trecho acima citado, apresenta-se também como alguém que saiu de casa para vingar a morte do pai e fazer justiça com as próprias mãos, mas que, ao contrário do que aconteceu com os cangaceiros, Antônio Silvino e Lampião, não entra para o banditismo. O poeta vai encontrar o seu caminho na marinha e depois na poesia. No entanto, o ethos de homem justiceiro, corajoso e destemido permanece, numa evocação ao "cabra macho" nordestino, que deixou seus projetos de vingança muito mais pelas circunstâncias nada favoráveis do que pela intenção ou vontade de fazê-lo.
Se Lampião se constituiu como um mito sertanejo pela maldade, coragem e vontade de lutar por sua própria justiça, Santa Helena também parece ter desejado exercer em seu leitor essa atração, porém pelo viés da benevolência inspirada em seu pai delegado, que andava ao lado da lei e ajudava sempre os mais necessitados, e não pela crueldade e pelas atitudes impiedosas, que os cangaceiros exerciam. É pelo viés do ethos do "homem de bem", daquele que consegue superar as dificuldades por meios honestos, que o poeta procura captar o seu leitor e trazê-lo para um universo cultural comum.
A esfera biográfica é narrada pelo poeta no interior do cordel, mas também ganha espaço na mídia e é reforçada e legitimada por ela, num movimento de retroalimentação. Isso significa dizer que, enquanto a mídia oferece temáticas para o poeta construir as suas rimas, o poeta se torna também tema para a mídia, num diálogo constante em que um legitima a atividade do outro.
Santa Helena, estrategicamente, se apropria do discurso da mídia para conferir credibilidade ao próprio discurso autobiográfico, bem como para captar o leitor em seu projeto argumentativo de formação de opinião e de sensibilização para temas que o autor considera imprescindíveis de reflexão.

O ethos do poeta na esfera midiática

Santa Helena, em entrevista concedida no dia 16/02/08, disse-me que, após uma conversa com Carlos Drummond de Andrade, começou a reunir toda sorte de documentos que pudessem comprovar sua biografia, devido ao caráter inusitado de sua história de vida. Desde então, o poeta vem reunindo e fazendo uso em seus cordéis de documentos oficiais, como certidões de óbito, de nascimento, certificados e condecorações da época em que serviu a marinha, bem como de sua hemeroteca pessoal, com cerca de 1.016 recortes de jornais, gravações de áudio e vídeo que contêm alguma referência ao nome do poeta.
Nas páginas 4 e 5 do poema analisado, RSH insere a reportagem intitulada "Cordelista quer levar ‘Expiatório" para oferecê-lo a sua mãe no Norte", publicada no Jornal O Globo no dia 11/05/84. O uso integral da notícia no interior do cordel, é um recurso muito utilizado pelo poeta para legitimar sua imagem projetada e/ou para conferir credibilidade à notícia referida no poema. Lançar mão desse recurso reflete a rotina do poeta de ler, recortar e documentar textos midiáticos (orais e impressos) que fazem alguma referência ao seu nome e à sua obra.
Na reportagem supracitada, a jornalista Patrícia Nolasco relata o fato de o cordelista, acompanhado do repentista Manuel Medeiros, ter ido ao Jardim Zoológico do Rio de Janeiro cantar "indignado (...), enquanto o cabrito comia resignado", protestando contra o fato de terem colocado um cabrito, nomeado pelo poeta de "Expiatório", como isca para uma suposta fera que estaria desaparecendo com os cabritos do zoológico sem deixar vestígios. RSH cantou o poema para os presentes e ofereceu dinheiro para comprar o cabrito e enviar à sua mãe, no nordeste, como presente do dia das mães.
Ao defender o cabrito, o poeta demonstra, num primeiro plano de leitura, um ethos solidário corroborado a partir da sua atitude face ao "drama" que o cabrito estava vivendo no zoológico. Essa ação altruísta parece ter origem em um relato biográfico, no qual o poeta descreve o seu sofrimento vivenciado em um período de grande estiagem no sertão, tal como podemos visualizar no fragmento a seguir: "Na seca de 1932 para salvar seus filhos da morte pela fome no Sertão de Cajazeiras, Paraíba, minha mãe (...) até matou o cabrito de estimação, que foi comido com farofa de lágrimas e saliva de fome. Era ele ou nós. Hoje é diferente" (p. 5).
A reportagem parece reforçar o ethos solidário do poeta, deixando entrever, num segundo plano de leitura, um tom de jocosidade também percebido na poema analisado. Porém, na reportagem, é notório a desfocalização do ethos que o poeta constrói no espaço discursivo ligado ao movimento das "diretas". A jornalista parece mascarar essa imagem, embora cite trechos do cordel que fazem referência a esse espaço, o que corrobora a nossa hipótese de que o fazer do jornalista e o fazer do poeta sofrem restrições diferenciadas em função do papel que desempenham, cada qual em sua atividade, mesmo que às vezes tais atividades se aproximem. Mas isso é assunto para um outro artigo.

Algumas considerações finais

Ao longo deste texto, tentamos perceber a construção discursiva dos éthés que o poeta RSH apresenta nas várias esferas discursivas das quais lançou mão para produzir o seu cordel "O cabrito e as feras", quais sejam: esferas literária, midiática e biográfica.
Na esfera literária, o poeta projeta a imagem do cidadão que se indigna diante das injustiças, reivindica e propõe soluções, em meio a um tom que mistura seriedade com jocosidade. Na esfera biográfica, o poeta projeta a imagem do homem ´cabra macho` que, apesar do sofrimento experienciado pela perda do pai, pela seca e pela fome que passou, escolheu o caminho do ´bem`, trabalhando, estudando e servindo à pátria, além de exercer a atividade de poeta. Por fim, na esfera midiática, temos a focalização do ethos solidário que se sensibiliza com o sofrimento do cabrito e oferece inclusive dinheiro para libertá-lo de seu suplício como bode expiatório. Na notícia que tem o poeta como foco, a jornalista responsável pelo texto mantém o tom jocoso, mas desfocaliza a imagem ligada ao movimento pelas eleições diretas no Brasil. Tais imagens parecem reforçar o projeto argumentativo do poeta de expor a sua opinião em direção a uma tese, para a qual ele busca captar a adesão do leitor.


 

1 AMOSSY, Ruth. Rhétorique et analyse du discours - pour une approche socio-discursive des textes. In: ADAM, Jean-Michel, HEIDMANN, Ute. Sciences du texte et analyse de discours. [s.l.] : Etudes de Lettres, 1/02/2005.
2 No poema "O cabrito e as feras", foco do presente estudo, o poeta Raimundo Santa Helena convida o leitor a se engajar na campanha das diretas e a se sensibilizar com o caso do cabrito que estava servindo de bode expiatório no zoológico do Rio de Janeiro.


 

CASCUDO, Luiz da Câmara. Vaqueiros e cantadores. Rio de Janeiro : Edições de Ouro, 1968.
CHARAUDEAU, Patrick. O discurso político. São Paulo: Contexto, 1996.
CURRAN, Mark. A sátira e a crítica social na literatura de cordel. In: DIÉGUE JR. Manuel (et. al.). Literatura popular em verso - estudos. São Paulo: Editora da UFSP, Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986.
DECLERCQ, Gilles. L'art d'argumenter: structures rhétoriques et littéraires. Belgique: Ed. Universitaires, 1992
DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. Ciclos temáticos na Literatura de Cordel. In: _________ et alli. Literatura Popular em Verso - Estudos. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986.
MAINGUENEAU, Dominique. Pragmática para o discurso literário. São Paulo: Martins Fonte, 1996.
MAINGUENEAU, Dominique. Ethos, cenografia e incorporação. In: AMOUSSY, Ruth (org). Imagens de si no discurso - a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2005.
OLIVEIRA, José Erivan Bezerra de. A literatura de cordel no novo espaço urbano do Ceará: trajetória, rupturas e inovações (dissertação de mestrado). Fortaleza: UFC, 2001.


Simone Mendes Doutoranda do programa de pós-graduação em Estudos Lingüísticos da Universidade Federal de Minas Gerais.

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