Memória e produção das vozes femininas na poética do cordel
Francisca Pereira dos Santos
A poética das vozes, produzida e transmitida por meio de uma multiplicidade de gêneros textuais, faz parte de uma das mais expressivas formas de comunicação cultural que se territorializaram no Nordeste brasileiro. São narrativas gestadas a partir de estratégias orais de um povo, e revelam um outro lado da história brasileira, da qual ainda pouco se sabe.
Contudo, o tempo muda, e no seu percurso, começamos a ouvir essas vozes migrantes, imigrantes e nômades que adentraram nos sertões, no agreste, nas zonas da mata, tabuleiros e caatingas, cantarolando suas diásporas e seus interlúdios, independentemente de um cânone literário que as defina e as classifique.
Tais poéticas, divulgadas no Brasil pelos cantadores e cantadoras nordestinos que cantaram ou declamaram seus versos, contando lendas e histórias tradicionais, fazem parte da circularidade das culturas que construíram um amálgama formado na "bricolage" dos "cacos" da memória de narrativas indígenas, africanas, judaicas, mouras, espanholas... e portuguesas. Essas últimas, vivenciadas como romances, novelas de cavalaria, folhetos, vieram nas caravelas, trazendo a memória da cultura popular de Espanha e Portugal.
Foram esses gêneros de múltiplas vozes com uma arte poética singular de performance oral que aos poucos se redimensionaram no Brasil, dando início à fixação da memória oral, que se transformava em constantes trocas de funções que "intervêm", como memória fundante, em narrativas tambémancoradas nas escrituras que chegavam ao Brasil na bagagem do imigrante. Essa fixação teve mais forte impulso com o advento das tipografias, em fins do século XIX, quando os versos passaram a ser impressos no Nordeste, provocando um novo modelo editorial no Brasil.
Para esta poesia, que ficou popularmente conhecida por seus produtores e receptores durante quase todo o século XX como "folheto de feira" - mas que viria a ser posteriormente conhecida como "literatura popular em verso" ou "cordel" -, foi desenvolvida por parte de alguns intelectuais e políticas públicas do Estado, a partir da década de 1960, quando houve uma importante campanha para lhes dar visibilidade. Data deste período o início de um programa institucional de reabilitação desta poética, ligado a Casa de Rui Barbosa, sediada no Rio de Janeiro, fundando e elaborando, a partir da confecção de um catálogo, de estudos e de várias antologias, o que poderíamos chamar de uma historiografia do cordel.
Contudo, em que pese a importância cultural e editorial dessa iniciativa, que diminuiu a lacuna existente, revelando as produções daqueles que atuam no território da chamada cultura popular, a perspectiva ali dominante tem um defeito grave, pois ignorava - ou excluía -, em suas reflexões e críticas, a presença e a produção das mulheres que cantaram ou que publicaram nesse universo. Ao ignorá-las, o discurso que se construiu nessa historiografia baseava-se na convicção de que este campo é exclusivamente dos homens; que eles eram os únicos que cantaram, glosaram ou narraram.
Maria de Araujo
Beata pobre, iletrada
Desse enredo não fujo
Que historia mal contada
Ela não foi figurante
Era estrela fulgurante
Da hóstia ensanguentada
E pra fazer este verso
Este texto teatral
Onde o fato controverso
Merece atenção total
Eu li Do Carmo Forti
Playboy; Bataille e gibi
Cordel, cartilha e jornal.
Nesta ficção real
Dou voz a um narrador
É minha avo sou leal
Pois foi ela quem contou
Como era o Juazeiro
Naquele tempo primeiro
Quando tudo começou.
Salete Maria, cordelista de Juazeiro do Norte, membra da Sociedade dos Cordelistas.
Acima, trechos de seu cordel "Maria de Araújo e seu lugar na história ou a beata Beat Cult".
escriptocentrismo e androcentrismo
na historiografia do cordel
Desde fins da década de 1990, venho estudando o folheto de cordel a partir da perspectiva da presença e produção das mulheres como autoras nesse universo proclamado como somente do homem. Esse enfoque vem me conduzindo a uma visão cada vez mais crítica em relação à historiografia do cordel e às percepções e caracterizações por ela construídas. Muitas delas dizem mais a respeito dos pressupostos dos discursos montados pelos pesquisadores do que do contexto prático e específico do mundo da poesia dita "de cordel". Os argumentos alicerçados nas bibliografias e nos estudos sobre essa poética baseiam-se, muitas vezes, em conceitos, idéias e postulados preconceituosos e excludentes, ignorando o mundo prático, concreto, dos poetas e o contexto social onde são criadas e transmitidas as tradições orais. Dois mundos diferentes para uma única realidade. E sobre ela, uma nova "verdade" que a historiografia construiu.
Apesar da constatação de que as pesquisas sobre cantoria e folheto de cordel excluíram a mulher cantadora, autora e testemunha desse universo poético - o que explica a existência de um cânone marcadamente masculino nesse campo -, é, paradoxalmente, na historiografia androcêntrica que temos encontrado, subterraneamente, a presença dessas mulheres poetas e transmissoras de uma tradição oral.
Nesse momento importante
Peço a todos atenção
Pra celebrar um artista
Famoso em toda a nação
E pra louvar com beleza
Peço ao Pai da Natureza
Que me de inspiraçao
Vou falar com correção
De um artista verdadeiro
Foi um mestre em escultura
Retratando em corpo inteiro
Toda beleza que encerra
Os tipos de nossa terra
Deste Nordeste altaneiro.
Clotilde Tavares, cordelista da Paraiba.
Acima, trechos do cordel "A vida e obra de xico santeiro, glória da nossa arte popular".
Vou pedir inspiraçao
A musa deste cordel
Que me guie com precisao
Para um relato fiel;
Essa Santa que me guia
Santa dos olhos, Luzia,
A tua bençao te peço
Inspira esse relato
Pra ser fiel e exato
Do folheto que começo
Acende em minha mente
Esse nume que me anima
Que clareia que me oriente
Na métrica, na boa rima;
Eu vou contar a historia
De sofrimento e de gloria
Dessa Santa tao querida
Que a graça me concedeu
De conservar no olhar meu
A luz que ilumina a vida.
(A santa Luzia protetora da visao)
Bastinha, membra da Academia dos Cordelistas do Crato.
Ao lado, trecho do cordel "A santa Luzia protetora dos olhos".
Essas vozes femininas, "descobertas" ou "achadas" em lugares caracterizados como espaços exclusivamente "do homem", ecoam e aparecem na historiografia de variadas maneiras. Elas surgem, por exemplo, nas testemunhas dos cantadores que presenciaram, viram e ouviram as mulheres cantadoras - fato que vamos encontrar nos depoimentos dos poetas e nas entrelinhas de documentos guardados nos arquivos sobre o tema em questão. Ou ainda, elas, de repente, aparecem nas imagens criadas pelos artistas plásticos - em geral, xilogravadores -, quando retratam mulheres cantadoras no ato de suas performances.
Ao ampliarmos ao máximo as frases ditas pelos que compõem o campo "de dentro" dessa narrativa - as vozes dos poetas -, bem como quando destilamos os argumentos daqueles que se aproximam dele "de fora", ou ainda quando observamos detalhadamente as imagens contidas no universo das gravuras, o que se apresenta, finalmente, como resultado dessa arqueologia sistemática é uma nova visão da poética do folheto e de seus criadores. Esboça-se uma arquitetura diferente, acrescida de novos sujeitos criadores, a exemplo de uma autoria feminina, que até agora ficou ocultada nesse contexto, e que vai aparecendo aos poucos. Primeiramente, as imagens são vagas, vultos ainda imprecisos, como sombras, ou em ecos, em citações de terceiros, chegando em forma de testemunhas auriculares e oculares.
Em face desta constatação, impõe-se a necessidade de questionar pelo menos duas abordagens nos discursos divulgados sobre o folheto brasileiro. A primeira está presente naquele que privilegiou pesquisas voltadas exclusivamente para essa narrativa como uma poesia escrita e impressa, prática que teve como conseqüência uma ausência de estudos voltados para a coleta das vozes cantadas. A segunda é a que se baseou na exclusão da palavra e da presença femininas no contexto dessa historiografia. Ao prestigiar somente o texto em forma de escritura impressa em folheto, em detrimento da cultura oral, que constitui sua origem e base que lhe é intrínseca, omitindo o estudo da performance, dos gestos, dos ritmos e da circularidade e movência radical das vozes, o discurso teórico convencional sobre o folheto que chega ao leitor desavisado é o de um texto único, fixo e definitivo através dos tempos. Nessa perspectiva, só quem publicava podia ser alvo da historiografia e ser incluído nela. Quem não tinha essas possibilidades econômicas, políticas ou culturais, como foi o caso das mulheres no contexto tradicional do mundo nordestino, estava excluído dessa história.
Esses estudos convencionais não levaram em conta a perspectiva feminina, nem as implicações, nuances, fases e transições da passagem da voz para a escrita, desconhecendo, por exemplo, que muitos poetas que publicaram, em vez de escreverem seus poemas, ou os manuscreverem, ditavam seus versos a alguém, fato sobre o qual, tantas vezes no decorrer de sua vida, o próprio Patativa do Assaré insistiu: "muita gente não sabe como é que eu componho os meus poemas. Não é escrevendo! É... faço a primeira estrofe, deixo retida na memória" (Carvalho, 2002: 17-18).
Na época em que as vozes poéticas começaram a ser fixadas no folheto, no final do século XIX e no começo do XX, dando início ao sistema editorial do cordel, as mulheres nordestinas não tinham acesso aos códigos da escritura, nem gozavam dos mesmos direitos sociais e culturais dos homens. Contudo, elas cantavam e produziam suas poéticas da maneira mnemônica da tradição, a exemplo daquelas que, com suas violas em punho, desafiaram o paradigma a elas imposto, caso das cantadoras cujos nomes ficaram gravados na memória dos nordestinos: Zefinha do Chambocao, Chica Barrosa, Terezinha Tietre, Maria de Lourdes e Vovó Pangula, entre tantas outras.
Peço licença aos senhores
Para essa narraçao
Dessa historia popular
Dentro da religiao
Que é com toda certeza
A maior da redondeza
A malhor da regiao
Esse trabalho eu dedico
Ao povo hospitaleiro.
Da cidade de Barbalha
E aos primos de Juazeiro,
E com muita devoçao
De todo meu coraçao
Ao SANTO PADROEIRO
Esse trabalho eu dedico
Ao povo hospitaleiro.
Da cidade de Barbalha
E aos primos de Juazeiro,
E com muita devoçao
De todo meu coraçao
Ao SANTO PADROEIRO
Helvia, cordelista de Campina Grande - Paraíba. Trecho do cordel O famoso pau do santo.
A historiografia, ao centrar suas pesquisas e reflexões somente na presença masculina, apagando e descartando a produção das mulheres, funda e legitima no campo do discurso oficial a existência de um cânone marcadamente androcêntrico, o que explica, talvez, o mito de que este universo foi exclusivamente do homem. Resumindo, a ausência destas poetisas e da sua palavra poética nos estudos da chamada "literatura popular em versos" não é o resultado somente do fato de essa historiografia ter promovido os textos escritos e impressos, mas também do fato de as mulheres estarem privadas da condição econômica e pública necessária, e de elas não poderem participar das decisões políticas e de poder nas mesmas condições que os homens.
da lama ao caos, do caos ao cosmos:
a construção do território
feminino na poética das vozes
O escriptocentrismo e o androcentrismo da historiografia do cordel começaram a ser questionados, portanto, a partir dessas duas constatações: a de que a mulher, na realidade social e cultural do Nordeste brasileiro, sempre produziu sua poesia, mesmo não podendo publicá-la, e a de que a ausência da mulher nesse universo, de fato, só se verifica no campo da teoria e da historiografia do cordel.
Nesse contexto, embora as mulheres cantassem e até publicassem, a exemplo de Maria das Neves Pimentel - uma mulher cordelista que, para poder escrever e publicar no contexto da época, profundamente marcado por valores patriarcais, teve de se encobrir com um pseudônimo masculino, Altino Alagoano -, elas ainda não tinham um espaço seu, e não haviam criado seus agenciamentos coletivos de enunciação. No entanto, elas existiam, elas cantavam, e esse cantarolar - devir-mulher - já constituía saltos para a futura construção de seu território.
É só mais recentemente, a partir das décadas de 1960 e 70 - período que coincide com as lutas feministas e as desconstruções sociais de gênero -, que as mulheres vêm desterritorializando o universo do folheto e, gradativamente, publicando e apresentando-se como autoras.
A presença das mulheres autoras de folheto e as condições que permitem suas performances hoje em dia trouxeram um novo fenômeno de investigação nesse campo. Essa autoria feminina, entretanto, apesar de herdar a tradição dos cantadores nordestinos - partindo de sua forma matricial, a voz -, também institui outras formas, outros conteúdos, outras autonomias. Talvez até: outra tradição. As mulheres, como poetisas, "ressignificam" essa poética, seja a partir de temas próprios, como o feminismo, a ecologia, a saúde da mulher e o homoerotismo, entre outros tópicos, seja inaugurando outros espaços de veiculação do cordel, tais como escolas, passeatas e universidades, lugares outros que não as tradicionais feiras. A produção feminina no folheto é a ponta do iceberg que permitirá a lenta e progressiva desconstrução do mito da autoria masculina exclusiva e do cânone exclusivamente masculino, presentes no universo do cordel.
pra quem nao sabe o sertao
de gados e fazendeiros
de gonzos e sesmarias
de indios e de vaqueiros
guarda em seu seio misterios
pressagios de curandeiros
Arlene Holanda é cordelista de Fortaleza, Ceará.
zuzu, cordelista de Salvador
Outrora privadas deste território por fatores sócio-culturais, as mulheres autoras apropriam-se do cordel e dele se tornam parte integrante, causando nesse contexto uma desterritorialização de gênero. A desterritorialização que as mulheres efetuam no campo tradicional do cordel apresenta uma soma que multiplica o espaço singularizado. Ao desterritorializar o gênero, ao abalar o patriarcalismo desta narrativa, as mulheres/poetisas desmembram-se do invisível, e se lançam ao outro lado da fronteira para dar voz àquelas que foram silenciadas.
Se, no passado, elas estiveram "caladas" e "mudas" dentro do espaço doméstico, hoje em dia elas desterritorializam esse lugar privado, cantam e lançam seus CDs de cantorias, escrevem e publicam seus folhetos, sem terem de usar pseudônimos masculinos; elas participam de grupos de poetas, ministram palestras e oficinas de produção de versos, criando no ciberespaço lugares de inserção para a difusão de seus folhetos.
A história que eu vou contar
É a mais pura verdade
Deu-se há mais de cem anos
Num lugar sem maldade
O povo era muito feliz
Sem conhecer a cidade
E todos viviam alegres
Sem ter civilização
Criavam porcos galinhas
Boi, pato, peru e pavão
Plantavam muito arroz
Quiabo, ate milho e feijão.
Zuzu, cordelista de Salvador. Trecho do cordel A historia de Helena e Valdemar.
Bibliografia
DELEUZE, Gilles. GUATTARI. Felix. Mil Platôs. Vol. 4. São Paulo: Editora: 34, 1997.
LEMAIRE, Ria. Repensando a história literária In: Tendências e Impasses o feminismo como crítica da cultura. HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (Org.). Rio de Janeiro: Rocco. 1994.
MELLO, Beliza Áurea de Arruda. Redemoinhos na Encruzilhada do Imaginário Ibero-paraibano: Pactos da mulher com o diabo do medieval aos folhetos de cordel. Tese de doutorado. João Pessoa. 1999.
MENDONÇA, Maristela Barbosa. Uma Voz Feminina no Mundo do Folheto. João Pessoa: Editora Thesaurus. 1993.
MOTA, Leonardo. Cantadores. Poesia e Linguagem do Sertão Cearense. 7ª. ed. Rio - São Paulo - Fortaleza: ABC Editora, 2002.
ONG, Wálter J. Oralidade e cultura escrita: a tecnologia da palavra. Campinas, SP: Papirus, 1998.
SANTOS, Francisca Pereira dos. Romaria dos Versos: mulheres autoras na ressignificação do cordel. Dissertação de Mestrado - Universidade Federal do Ceará - UFC. 2002. 159 páginas.
SCHMIDT, R. T. Mulheres reescrevendo a nação. Revista Estudos feministas, Florianópolis, v. 8, n.1, p. 84-97, 2000.
ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz na literatura medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
Francisca Pereira dos Santos Doutoranda do programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba -UFPB. Bolsista da Capes
*Este texto faz parte de reflexões que venho fazendo sobre a produção de folhetos de cordel no Brasil, como uma poética das vozes, mas também como um campo que foi sendo construído por dois tipos de discursos específicos, porém interligados: o discurso androcêntrico - voltado unicamente para a valorização das produções masculinas -, e o escriptocêntrico, que privilegiou apenas as obras escritas e impressas. Por essa razão, e também porque hoje as mulheres entram, desterritorializando - com suas publicações de folhetos, CDs de cantorias, criações de sites -, nesse universo marcadamente do homem, as reflexões ora expostas questionam, a partir da crítica feminista e dos novos estudos da oralidade, aqueles dois tipos de discursos, cujas bases epistemológicas excluíram da historiografia do cordel a presença e a participação das mulheres autoras.
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