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Home >> Revista Cultura Crítica >> 06, cordel, 2º semestre de 2007 >> O feminino na ótica de Leandro Gomes de Barros

O feminino na ótica de Leandro Gomes de Barros

APROPUC-SP 10.03.09

Vera Lúcia de Luna e Silva

Este trabalho tem como objetivo analisar a concepção do feminino na obra de Leandro Gomes de Barros, a partir do exame de aspectos lingüísticos como a seleção lexical e as imagens - metáforas e símiles. Os dados analisados fazem parte de um trabalho mais amplo, que examinou, do ponto de vista estilístico, aspectos fônicos, morfossintáticos e retóricos, e resultou em tese de doutorado.
O corpus constitui-se de 72 folhetos originais pertencentes ao acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa e alguns pertencentes ao acervo do Instituto de Estudos Brasileiros na USP.
Leandro Gomes de Barros (1865-1918) foi um dos primeiros a publicar regularmente folhetos no Brasil, a partir de 1893, e é um dos mais representativos e fecundos autores dessa literatura. Sua obra vastíssima abrangeu uma temática muito variada, como a tradição ibérica: temas de época, como cangaço, Antonio Silvino, Pe. Cícero; crítica social e política, sátira e humor.

A questão do gênero

Um dos aspectos mais marcantes da obra de Leandro Gomes de Barros é, sem dúvida, a sua representação do feminino, calcada em imagens arquetípicas.
Num tom quase sempre jocoso, irônico e contundentemente crítico, Leandro Gomes de Barros constrói essas representações encenando em sua literatura a realidade social do nordeste brasileiro no início do século passado. Transpõe para seus versos um conjunto de valores sociais, entre os quais o ponto de vista e o imaginário masculino sobre a mulher, o que nos remete à questão do gênero que, segundo Cíntia Schwantes (1998), é "uma construção social". Para ela, "cada época elabora a partir de suas necessidades econômicas e políticas, um ideal de feminilidade e de masculinidade, que permita à sociedade manter-se operacional através de uma divisão de tarefas entre seus membros" (Schwantes, 1998: 19).
Assim, ainda segundo Schwantes, "o gênero se constrói tanto na prática diária dos indivíduos quanto nos discursos que determinam estas práticas".
O gênero, portanto, é uma representação cultural e, de acordo com Rita T. Schmidt,

enquanto que o termo sexo se refere ao dado biológico, o termo gênero constitui um sistema social, cultural, psicológico e literário construído a partir de idéias, comportamentos, valores e atitudes associados aos sexos, através do qual se inscreve o homem na categoria do masculino e a mulher na do feminino (Schmidt, 1994: 31-32).

Na obra de Leandro Gomes de Barros, é possível comprovar a "torrente dos discursos", "avalanche de imagens literárias" sobre a mulher, de que fala Michelle Perrot (2007: 22), pela recorrência de representações do feminino.
Profundamente arraigadas na cultura popular da época, essas concepções do feminino refletem aspectos de uma tradição medieval misógina, que tem origem no mito de Adão e Eva. Acreditava-se que as mulheres seriam criaturas débeis, sujeitas à tentação, como Eva. Por isso, deveriam estar sempre sob a tutela masculina.
Segundo José Rivair Macedo (1999), "a utilização da imagem arquetípica de Eva teve profundas ressonâncias e forte efeito moral" (Macedo, 1999: 42). Para esse autor, "A maioria dos pensadores, desde são Paulo, basearam a argumentação em defesa da superioridade natural do homem na fraqueza de Eva diante de Satã" (Macedo, 1999: 43). Ainda citando Macedo: "Boa parte do arsenal antifeminino dos teólogos e moralistas baseava-se na regra segundo a qual as mulheres levavam o homem à danação. Eram consideradas perigosas, frágeis, astuciosas, encrenqueiras, inconstantes, infiéis e fúteis".
Por outro lado, também com base em concepções religiosas, vislumbra-se o ideal da mulher santa, mulher pura, proveniente do culto à Virgem Maria. Estabelece-se, assim, um antagonismo, um conceito dicotômico do feminino (Eva x Maria), que perpassa os séculos, ora denegrindo, ridicularizando, desqualificando, ora exaltando, divinizando e sacralizando a mulher no imaginário dos homens, nas sociedades e nas suas literaturas, com reflexos até hoje, em algumas regiões e grupos sociais.
Não foram apenas os textos teóricos do cristianismo na Idade Média, gerando tradições misóginas, que influenciaram o conceito do feminino nas culturas. Na Idade Média, teve início também uma relativa valorização da mulher, quando se instituiu o casamento monogâmico. Nessa época, também surgiu a idealização da mulher,"o amor cortês" e o culto à dama na cultura trovadoresca, que, na verdade, mais engrandecia o cavaleiro e enaltecia o amor. Posteriormente, nos séculos XIV e XV, segundo Macedo (1999: 56), a imagem da mulher foi bastante denegrida na produção literária do meio urbano, e as personagens femininas eram, impiedosamente, satirizadas e ridicularizadas.
A obra de Leandro Gomes de Barros, produzida no final do século XIX e início do século XX, expressa, de maneira transparente e cabal, essa dicotomia, além de críticas ferozes ao casamento, que eram comuns na literatura do final da Idade Média, em que "muitas obras  foram criadas para mostrar os infortúnios e as misérias na vida do homem casado" (Macedo, 1999: 56). As críticas estendiam-se às mulheres casadas, alvo principal dos ataques depreciativos. Vejamos exemplos no folheto de Leandro Gomes de Barros, O Casamento, de 1904.

Casar-se, fazerse chefe
De um exército incorrigível!
Fazer cruz, cravar-se nela
Lutar com gênio impossível
Trabalhar, lutar com a sorte,
Captivar-se até a morte
Isso é que eu acho cascudo
Acho bom que o povo diga
Não és mestre de bexiga,
Como agüentas o canudo?
(...)
Antes de haver este mundo
Tudo do nada constava
Nem terra, nem luz, nem ar
Nesta epocha fuctuava;
Deus sem precisar de estudo
Em seis dias formou tudo
Que hoje vemos existir
De cada bicho um casal
A Adão não deu igual
Para elle não se afligir.
Adão se vendo criado
A tudo superior,
Mas, não tendo companhia
Fazia queixa ao Senhor,
Deus o fez adormecido
Sem que lhe fosse sentido
Tirou delle uma costela
E della fez a mulher
Dizendo está ai o que quer
Se arrume agora com ella

Adão julgou-se tão rico
Que nem soube calcular
Eva era gorda e formosa
Digna de Adão a amar
Depois qual o resultado?
Eva com pouco cuidado
Comeu a fruta privada,
Por causa dessa comida
Acabou Adão a vida
No condurú da enxada

Se Deus o tem feito agora
Elle não casava assim,
Embora elle amasse a Eva
Mas via o tempo ruim,
Havia de imaginar
Primeiro ia se arrumar
Por outra qualquer maneira;
Ou talvez esmorecia;
Que em tempo de carestia,
Mulher não é brincadeira.
(O Casamento, 1904 )
O rapaz vê um moça
Fica por ela encantado
Sedutora e feiticeira,
parece um sonho dourado
Os lábios parecem mel
Mas tendo a taça de fel
Guardada no coração,
O homem passa e não vê
E só chega a conhecer
Depois que está na prisão

Pede-a em casamento e casa
Pensa que leva uma jóia
Mas, leva um carcereiro
que o prende e não dar-lhe bóia;
Se a mãe dela for também
Elle verá muito além
Por onde a fortuna passa
Exclama, fiquei sujeito
Só a morte me dá jeito
A sair dessa desgraça
("O peso de um mulher",
In: Cantadores e poetas populares)
Não ha loucura maior
Do que o homem se casar
O peso de uma mulher
É duro de se aguentar,
Só um guindaste suspende,
Só burro pode puchar
(Conseqüências do casamento, p. 1)

Inventário das representações do feminino a seleção lexical

É extremamente relevante observar a escolha lexical de adjetivos e substantivos em Leandro Gomes de Barros, como reveladora das intenções e sentidos na representação do feminino.
Observa-se, nesta estrofe, a abundância de adjetivos de cunho depreciativo que têm como alvo as sogras, objeto da crítica bem humorada do autor:

Então a primeira sogra,
Foi uma tal Marianna,
Tinha os dentes arqueados
Como a cobra canninana,
Ell[a] casou-se na quarta
Brigou no fim da semana

A segunda era um typa
Alta, magra e corcovada
Damnada para passeios
Enredeira Exaltada
Cavilosa e feiticeira
Intrigante e depravada
(A alma de uma sogra, p. 2)

Essa inundação de epítetos em relação às sogras reflete uma tradição cultural que remonta à Idade Média. Simone de Beauvoir (1980: 218) refere-se a um mito secundário - o da sogra -, que permite a livre expressão dessas repugnâncias.

Pois o homem quando nasce
Traz logo a perseguição
Toma a mulher como cruz
Para mais condennação
Cae nas unhas de uma sogra
Que é peior do que dragão.
(A mulher e o imposto, p. 7)

 Era da côr de gibóia
O rosto muito cascudo
E tinha no céo da bocca
Um dente grande e agudo
Essa engoliu pelas ventas
Um genro com roupa e tudo
(A alma de uma sogra, p. 3)

A caracterização da sogra, nas estrofes citadas, aproxima-se da descrição de um animal monstruoso, exceto pelo emprego do vocábulo "rosto". Já o vocábulo "genro" é o índice seguro de que se trata mesmo da sogra e, no texto, é justamente sobre ele que recai a fúria do monstro.
Arrolando alguns adjetivos empregados por Leandro Gomes de Barros em relação à mulher, destacam-se: como filha tem alma nobre e fiel[1]; como moça é sedutora, feiticeira[2]; se velha, é magra, triste, esfarrapada, miserável, desvalida[3], ou marmota, alta, secca e carrancuda[4]; como sogra é enredeira, exaltada, cavilosa, feiticeira, intrigante, depravada[5], como vimos nos versos acima.
Verifica-se, no entanto, que ao referir-se à mulher, preferencialmente, a predicação negativa ou positiva resulta da escolha de substantivos em construções metafóricas que imprimem um forte tom de afetividade ao discurso.
Assim, não são exclusivamente os adjetivos que representam a mulher, de acordo com as intenções expressivas e estéticas do autor, suas concepções, que são reflexos do imaginário masculino, da realidade social da época. Para tanto, Leandro Gomes de Barros vale-se da força poderosa das imagens, quando aproxima e compara a mulher a animais e coisas.
Tem-se, então, um tipo de metáfora que incide sobre o substantivo, e que é por isso chamada de metáfora nominal ou substantiva por predicação[6] (Filipak, 1983: 127). Assemelha-se a uma definição ("a mulher é uma cruz"), com a presença dos termos comparado e comparante, o que define a metáfora in praesentia. Nesse tipo de metáfora, segundo Ricoeur (1983: 248)[7], ocorre uma intersecção sêmica entre dois termos igualmente presentes, ou seja, uma comparação com ou sem marca gramatical.
Vejamos alguns casos de caracterização, mediante o emprego do substantivo (às vezes acompanhado de termo qualificativo), estabelecendo uma relação de similaridade semântica, em referência à sogra:
Sogra - Animal valente, bala de bronze, bicha perigosa, cascavel, cobra, cobra caninana, cutelo, fera teimosa, fogo-vivo, jacaré de papo amarelo, serpente, serpente assanhada, surucucu, touro zebu.
Nos versos seguintes, outro exemplo desse tipo de construção metafórica:

Ella nascida é um anjo
Como moça um sol nascente
Como noiva uma esperança,
Como esposa uma semente
Como mãe uma fruteira
Como sogra uma serpente
(Mulher em tempo de crise, p. 1)

Nessa estrofe, todas as comparações (metáforas), numa seqüência paralelística, mostram que o autor percebe semelhanças entre a mulher e elementos (substantivos) do reino vegetal (semente, fruteira); do reino animal (serpente); substantivos abstratos (esperança) e que nomeiam entidades religiosas (anjo). A mulher assemelha-se, iguala-se a tudo e a nada. Oposição que fica mais evidente quando se observam os substantivos empregados nas comparações, embora as referências depreciativas ao sexo feminino sejam mais freqüentes em sua obra. Contudo, o peso da predominância depreciativa é atenuado quando o autor a contrapõe a substantivos como objeto, cousa, outros como essência, altar de divindade, ser absoluto. Temos, a seguir, uma amostragem dessas oposições que expressa uma representação social dicotômica:
Mulher - Animal, cana, capim, carga pesada, chaga, cousa, cruz, fardo, objeto, peso, peso enorme, peso infinito, rata, resto de mesa, roçado, volume.
Mulher - Altar de divindade, essência, flor da existência, fruto essencial, obra mais bela, rosa no sereno, ser absoluto.

Nos folhetos analisados, observa-se o uso recorrente dos vocábulos "cousa" e "objeto" em referência à mulher:

Mulher é um objecto
Que nasce por excelência,
É o coração do homem
É a flor da existência
Tambem quem a possuir
Tenha santa paciência
(Mulher em tempo de crise, p. 1)

O item lexical "objeto", nessa estrofe, é reforçado e corroborado pela escolha do verbo possuir. Já a frase exclamativa coloquial, "Tenha santa paciência", expressa um sentimento intenso de irritação e insatisfação.
No exemplo que se segue, verifica-se o uso do termo "objecto", seguido de uma afirmação positiva: "a quem eu quero mais bem". Isso remete a expressões coloquiais de uso consagrado no nordeste brasileiro, como "coisinha", "bichinha", com acepção de carinho.

Mulher é o objecto
A quem eu quero mais bem (...)
(Discussão do autor com uma velha de Sergipe, p. 14)

Se a mulher fosse uma cousa
Que nunca mais se acabasse
Não ficasse velha e feia
Todo tempo renovasse
Fosse igualmente a cana
Que se corta e ela nasce
(A mulher e o imposto, p. 3)

Entende-se, nessa estrofe, que a mulher é considerada uma coisa, mas com conotação carinhosa, e pelo desejo do poeta, essa coisa deveria ser renovável como a cana, que renasce bela e vigorosa a cada corte, não murcha nem apodrece, não fica velha e feia. Na sua fantasia, a mulher teria de ser uma cousa, isto é, algo eternamente belo, pleno de viço, agradável a seus olhos. Nessa perspectiva, a mulher velha, quando murcham seus encantos, é alvo de críticas bastante insultuosas na literatura de cordel da época.
A escolha vocabular é reveladora de concepções e valores sociais e é capaz de acentuar, de forma intensa, a expressividade do discurso poético de Leandro Gomes de Barros. Focalizando apenas o vocabulário empregado em relação ao tema, captam-se sentimentos de desprezo e a crença na inferioridade das mulheres, reflexos, na literatura de cordel, de aspectos de misoginia da tradição ibérica, como já foi mencionado anteriormente. Pelo exame desses termos, às vezes grotescos, percebe-se o significado da mulher para Leandro Gomes de Barros e para a sociedade da época e da região em representações de gênero que são mais explícitas nas camadas menos cultas da população, em que ainda acresce o problema econômico.

A mulher é um volume
Que tem um pêso infinito
Com carne de dois mil reis
Feijão a crusado o litro
Farinha a mil e trezentos
Toucinho dois mil e duzentos
E esse só tem o couro
Ainda diz a mulher
Compre pelo que estiver
Não faça cara de choro
(O casamento hoje em dias, p. 2)

Da mesma maneira que o poeta polariza no texto oposições em relação à mulher, expressas pelos vocábulos objeto x essência[8] ("Algum ha de ter mulher/ E a mulher é uma essência") ; ou animal x altar de divindade ("Disse a velha porque acho/ Pesado assim a mulher/ E diz que é um animal/ Que n'elle não a myster")[9] - ("Eu classifico a mulher/ como a flor da existencia/ um altar de divindade/ O simbolo da innocencia")[10]; observa-se a dicotomia também nos vocábulos peso, cruz x prazer, gozo, o que reforça a oscilação e a alternância entre uma imagem e outra de sentido inverso.

Como a luz planta nas trevas
O louro clarão garboso
A mulher planta o prazer,
Num coração pressuroso
Como a rosa no sereno
Ella com carinho ameno
Faz abrir um coração
D'ella se extrai o praser
Tudo tem que lhe render
O culto de adoração.
(O casamento hoje em dias, p. 8)

As imagens

O exame das imagens no corpus apresentado leva-nos a inferir que o autor emprega uma variada gama de construções metafóricas, desde as metáforas absolutas, visionárias, irracionais, de acordo com classificação de Bousoño (1985: 190), até as metáforas usuais, corriqueiras, denominadas "clichês". Vejamos alguns casos em que a metáfora incide sobre uma sucessão de substantivos que pertencem a um mesmo campo semântico:


A mulher é uma chaga
Que o homem tem sobre o peito
Não há remédio que cure
Só a morte dá um jeito,
É um asmático vexado
Que traz o homem atacado
Como a tysica pulmonar
É um aneurisma forte
Que só por meio da morte
Tem-se alívio desse mal
(O Inferno da vida)
Como se pode verificar, as metáforas de Leandro Gomes de Barros adquirem extraordinária força poética, quando o tema é a mulher. Nesse exemplo, observa-se a contundência das imagens para expressar a idéia de que a mulher é um mal, que causa dor e sofrimento, é como uma doença incurável, para a qual só a morte pode trazer alívio.
Nos versos seguintes, o autor constrói seu poema estabelecendo relações ilógicas, irracionais, visionárias, nos termos dos autores citados, caracterizando as metáforas como literárias e poéticas, no sentido estrito que lhe atribui Jean Cohen[11], com base numa impertinência semântica de 2º grau.[12]
Toda a carga de preconceitos vigentes na cultura machista e na sociedade patriarcal da época resulta na criação destes versos pitorescos, de um folheto datado de 1907:

- Leitor, eu fui estudar
A conducta feminima
Encontrei toda materia
Que pode ter n'uma mina
Descobri alguns brilhantes
Rubin, chrystal, diamantes
Phosphoros em grande quantidade
Salitre, enxôfre e carvão
A mulher no coração
Tem isso uma immensidade

A lingua é contaminada
De materias inflamaveis
De muitos fluidos electricos
E corpos desagradaveis
Tem no peito um gavetão
Depósito de ingratidão
Odio, amor e mau costume,
No pé do pulmão esquerdo
Tem um enorme torpêdo
D'onde despara o ciume

Tem bem no pé da laringe
Uma válvula de amargura
Por onde dispede a ira
E entra a maldade pura
Então ao baço encostado
Tem um cofre preparado
Para calculos de illudir
Junto do rim um deposito
Formado ali a proposito
Para a qualquer consumir
(Genios das mulheres, p. 1 e 2)

A sucessão de metáforas redunda numa alegoria em que essa primeira motivação, puramente subjetiva, relacionando a conduta da mulher a uma mina, expande-se por quase todo o texto. Nessa idéia abstrata de conduta, estão contidos todos esses minérios bem concretos: brilhantes, rubis, carvão, enxofre, numa relação totalmente desprovida de lógica. Note-se que, ao arrolar esses elementos, estabelece a oposição, já percebida antes: pedras preciosas x substâncias inflamáveis[13]. Substâncias que produzem combustão, consomem, destroem, mas que também produzem o calor, a energia e a força. O diamante - a pedra mais valiosa - e o enxofre - mineral popularmente associado ao próprio demo pelo seu odor.
Atente-se para o surrealismo da descrição das partes do corpo feminino, numa construção de metáforas denominadas fanopéicas por Ezra Pound[14], em que se evocam na mente do leitor imagens visuais. A visão é aterradora - línguas elétricas e incandescentes, um gavetão no peito, um torpedo no coração e, mais adiante, no mesmo poema: "No peito um subterranio/ E bem no centro do craneo/ Um motor que é o Juízo". Além disso, há referência a conceitos de natureza abstrata, ingratidão, ódio, mau costume, ciúme, ira, amargura, ocultos em gavetão, depósito, cofre, de natureza concreta. Observe-se, perdido no texto, parecendo um ato falho, inconsciente como um lapsus linguae, o substantivo amor. Ódio e amor - antagonismo que expressa, outra vez, representações dicotômicas sobre a mulher e que nos remetem a Beauvoir (1980, p.230):

Eis por que é, ao mesmo tempo, a encarnação do sonho masculino e seu malogro. Não há uma só representação da mulher que não engendre de imediato a imagem inversa: ela é, ao mesmo tempo, a Vida e a Morte, a Natureza e o Artifício, o Dia e a Noite. Sob qualquer aspecto que o considerarmos, encontramos sempre a mesma oscilação pelo fato de que o inessencial volte necessariamente ao essencial. Nas figuras da Virgem e Beatriz subsistem Eva e Circe (Beauvoir, 1980: 230).

Conclusão

A breve incursão exploratória às referências sobre a mulher na obra de Leandro Gomes de Barros permite concluir que a seleção lexical e a construção das metáforas (sejam estritamente literárias ou apenas clichês) refletem as oscilações e dicotomias sobre o feminino, tais como: animal x anjo; objeto x essência; chaga x gozo; serpente x altar de divindade; bicha perigosa x flor da inocência; resto de mesa x fruto essencial; cousa x ser absoluto; cruz x prazer, que se originam de concepções medievais persistentes na cultura nordestina da época e nos valores socioculturais que Leandro, de forma tão fiel e criativa, soube representar em sua literatura.


Notas

1 A força do amor, p. 46
2 "O peso de uma mulher". In: BATISTA, Francisco das Chagas. Cantadores e poetas populares. Popular Editora, 1929, p. 121
3 Viagem de João Lezo a serra do ceo, p. 12 e 15
4 Discussão do autor com uma velha de Sergipe, p. 3
5 A alma de uma sogra, p. 2
6 FILIPAK, Francisco. Teoria da metáfora. 2a ed. Curitiba: HDV,1983, p. 127.
7 RICOUR, Paul. A metáfora viva. Trad. de Joaquim Torres Costa M. Magalhães. Porto: Rés, 1983, p. 248.
8 Defesa feita pelo doutor Ibiapina, p. 15
9 Discussão do autor com uma velha de Sergipe, p. 8
10 O casamento hoje em dias, p. 8
11 COHEN, Jean. Op. cit., p. 173
12 Impertinência que é infração do código da fala, situa-se no plano sintagmático, segundo COHEN, Jean. Op. Cit., p.106
13 Com salitre, enxofre e carvão produz-se a pólvora.
14 Apud FILIPAK, Francisco. Teoria da metáfora. Op. cit., p. 110


Bibliografia

BATISTA, Francisco das Chagas Batista. Cantadores e poetas populares. Parahyba: Popular Editora, 1929.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Trad.: Sergio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
BOUSOÑO, Carlos. Teoria de la expression poética. Tomo I. 7. ed.  Madrid: Gredos, 1985.COHEN, Jean. Estrutura da linguagem poética. 2. ed..  São Paulo: Cultrix, 1978.
FILIPAK, Francisco. Teoria da metáfora. 2. ed. Curitiba: HDV, 1983.
MACEDO, José Rivair. A mulher na Idade Média. São Paulo: Contexto, 1999.
MARTINS, Nilce S. Introdução à estilística. São Paulo: T A Queirós, 1989.
PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2007.
RICOEUR, Paul. A metáfora viva. Porto: Rés, 1983
SCHWANTES,Cíntia. Interferindo no cânone: a questão do Bildungsroman feminino com elementos góticos. 1998. 298f. Tese (Doutorado em Literatura Comparada) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1998, p. 13.
SCHMIDT, Rita Terezinha. "Da ginolatria à genologia: sobre a função teórica e a prática feminista." In: FUNCK, Susana Bornéo (Org). Trocando idéias sobre a mulher e a literatura. Florianópolis: Ed. UFSC, 1994, p. 23-32.
SILVA, Vera Lúcia de Luna. A Tessitura poético-gramatical de um autor popular: Leandro Gomes de Barros. 1994.189f. Tese (Doutorado em Filologia e Língua Portuguesa) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.
ULLMANN, Stefhen. Lenguaje y estilo. Madrid: Aguilar, 1973.

Relação dos folhetos citados
1. A alma de uma sogra. As proesas de um namorado mofino. s. n. t., 16 p. (sem capa) (Antologia Tomo II)
2. O casamento (1904). In: BATISTA, F. C. Cantadores e poetas populares. Paraíba: Popular, 1929
3. O casamento hoje em dias. O Azar na casa do Funileiro. Recife: s.e, s.d. 16 p.In: Literatura popular em verso. Antologia Tomo III. Leandro Gomes de Barros 2.Rio de Janeiro: MEC/FCRB; João Pessoa: UFPB,1977.
4. Consequencias do casamento. Encontro de Jovino com Bentinho no outro mundo. O reino da pedra fina. Recife: s.e., 1910. 16 p. (Antologia Tomo III)
5. A cura da quebradeira. O peso de uma mulher. Parahyba: Popular, 1915. 16 p. (Antologia Tomo III)
6. Defesa feita pelo doutor Ibiapina. Em que livrou da forca um réo ja sentenciado. Recife: Popular, 1917. 17 p. In: Literatura
Popular em Verso.Antologia Tomo V. Leandro Gomes de Barros 3. Rio de Janeiro: MEC/FCRB; João Pessoa: UFPB, 1980.
7. O divorcio da lagartixa. Discução do vinho com a aguardante (2ª história folheto incompleto) Parahyba: Popular, s.d. 16 p. (Antologia. Tomo V)
8. Discussão do autor com uma velha de Sergipe s.n.t. (Antologia Tomo V)
9. [Exclamações] de Antonio Silvino na cadeia. Antonio Silvino se despedindo do campo. s.n.t. 16 p. (Antologia TomoV)
10. A força do amor ( completa). Recife: s. ed., s.d. 47 p. (Antologia Tomo V)
11. Genios das mulheres. A mulher roubada. Um beijo aspero. Ave Maria da eleição. Recife: s.e., 1907. 16 p. (Folheto Col. FCRB)
12. O inferno da vida. In: BATISTA, Francisco das Chagas. Cantadores e poetas populares. Paraiba: Popular, 1929
13. Mulher em tempo de crise. Um sonho de trez horas. Parahyba do Norte: Typ. Pernambucana, s.d. 16 p. (Folheto Col. FCRB)
14. A mulher e o imposto. Décima de um portuguez a sua namorada. Historia de João da Cruz (continuação) 2º vol. Recife: s.e. 1911. 16 p. (Folheto Col. FCRB)
15. Viagem de João Lezo à serra do céo (uma quengada que lhe rendeu cento e trinta e dois contos de reis). Historia completa. Parahyba: Popular [1916] 16 p. (Folheto Col. FCRB)


Vera Lúcia de Luna e Silva

Professora aposentada do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade Federal da Paraíba; doutora em Letras pela USPNotas
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