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Home >> Revista Cultura Crítica >> 06, cordel, 2º semestre de 2007 >> Leandro Gomes de Barros: A coexistência do ator político e do poeta mediador da modernidade

Leandro Gomes de Barros: A coexistência do ator político e do poeta mediador da modernidade

APROPUC-SP 10.03.09

Ivone da Silva Ramos Maya

I.
Um episódio pouco esclarecido e, de certa forma, controverso na biografia do poeta paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1918), considerado pela crítica o fundador da literatura de cordel impressa, é o de sua morte, em 4 de março de 1918, no Recife. A escassez de dados relativos ao registro civil do indivíduo é explicada, geralmente, pela precariedade dos serviços de identificação naquela época, levando-se em conta a distância entre os locais destinados a essa finalidade, como cartórios, prefeituras etc. e o ambiente rural. Esse fator inviabilizava o acesso da população a esses serviços, que estão na base do exercício da cidadania.
No caso de Leandro, no entanto, dispomos de algumas informações que dão conta de sua existência até os 15 anos, quando saiu da Fazenda Melancia em Pombal, onde nasceu, e foi para a Vila do Teixeira na Paraíba, onde viveu em companhia da família do padre Vicente Xavier de Farias, que eram parentes de sua mãe. Consta que teria fugido de casa aos 11 anos por causa dos maus-tratos recebidos do padre, e passado privações. Depois do Teixeira, segue para Vitória do Santo Antão, em data não especificada, e só depois para Jaboatão e o Recife, a partir de 1906.  Não temos documentos e certidões que comprovem sua trajetória de vida, fato que se encaixa no raciocínio acima, mas alguns livros fornecem as duas versões de seu falecimento.
Na primeira hipótese, o poeta teria sucumbido à pandemia da gripe espanhola, a temível influenza[1], que dizimou, entre 1918 e 1920, mais de 20 milhões de pessoas no mundo. Foi considerada a maior epidemia da humanidade, maior até que a peste negra. No Recife, fez 2.551 vítimas em apenas três meses.
A gripe concorreu com dois acontecimentos significativos, a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa de 1917, o que parece explicar, de acordo com alguns especialistas, o "silêncio" que se formou a respeito da influenza na historiografia brasileira, apesar dos enormes prejuízos sociais e econômicos que teria ocasionado, além das seqüelas morais e da morte de milhares de pessoas.
A segunda hipótese justifica minha opção em começar pelo necrológio do poeta em vez da biografia, como é de praxe nesse tipo de abordagem, em que vida e obra se misturam e, algumas vezes, se confundem. A morte de Leandro teria sido causada por seu constrangimento em ter sido preso no Recife, em 1918, após publicar A palmatória e o punhal, folheto proibido pela polícia pernambucana, onde ele narra o crime de um trabalhador que se vinga do senhor de engenho, que o castigou com uma surra de palmatória, apunhalando-o até a morte.
O delegado, ao ler o poema, achou que Leandro teria sido tendencioso ao defender nos versos aquele que, de agredido, passara a agressor. E mandou prendê-lo. Segundo o jornalista piauiense Permínio Ásfora, foi esse fato que precipitou a morte do poeta. Justamente por ser um homem íntegro, sentiu-se humilhado com a prisão, e acabou falecendo (Ásfora apud Terra, 1983: 41)[2.]

Apesar de folgazão, Leandro era homem de muita vergonha e de muito sentimento. E naquele já distante ano de 1918, a cadeia constituía uma humilhação, à humilhação da cadeia sucumbiu o grande trovador popular[3].

Tal acontecimento em sua vida assinala, em minha visão, a transformação do poeta em ator político, e acaba imprimindo à sua obra poética o tom de denúncia social que irá notabilizá-lo talvez como o primeiro autor da literatura de cordel a apresentar uma obra de consistência política. O episódio é a prova de que Leandro conhecia bem os fatos que constituíam a sociedade em que vivia e o regime de exclusão social, baseado na coerção e no uso arbitrário do poder.
Sabemos que os acontecimentos da Primeira República constituem a espinha dorsal de grande parte de sua obra poética, e isso nos leva a caracterizá-lo substancialmente como um homem de palavra, no sentido de usar a habilidade retórica para fazer a leitura de sua própria época de acordo com a ótica do popular, comprometido com uma verdade baseada em demonstrar os fatos com isenção.
Na literatura de cordel, o empenho com a palavra é o mesmo que na literatura de maneira geral. No entanto, três figuras se revezam para colocar em funcionamento essa máquina de expressão: o poeta, o cantador e o repentista. Enquanto os dois últimos são encarregados da transmissão dos versos alheios e responsáveis pela improvisação no momento da cantoria, de tirar o repente, o poeta é, ao contrário, o senhor de seu discurso, o dono da palavra.
Em Leandro, essa maestria foi reconhecida em vida pelos próprios contemporâneos, que viam nele a eloqüência personificada, embora não fosse propriamente cantador. João Martins de Athayde, aquele que o plagiaria desde o início, usava a expressão "o primeiro sem segundo", para se referir a Leandro.
Embora analiticamente o poeta paraibano tenha passado a ser visto como o "homem que falava", isso não significa, no entanto, que dizia o que os outros queriam ou que servia para falar o que queriam que fosse dito. O alter de Leandro é o próprio compromisso assumido com os leitores, como um poeta atento à situação política de sua época, na condição de um observador privilegiado dentre seus pares, que não chegaram a explorar com tamanha verve os vários assuntos que sua poética apresenta.
Nesse sentido, sua produção é exemplar, pois denuncia os fatos que iriam se perpetuar como males do próprio regime republicano, colocando-se no lugar do povo. A literatura e os versos representam, portanto, a tribuna de onde ele fala aos que querem ouvir/ler as histórias reais ou inventadas, cujo fio condutor serão os acontecimentos políticos.
Do poema em questão, "A Palmatória e o Punhal", só conhecemos a primeira estrofe[4]. Nota-se a "eloqüência" de que o poeta faz uso nessas poucas linhas ao tratar de imediato e de maneira sucinta a opressão do aparato do Estado sobre o indivíduo, chamando a atenção também a referência à lei do sertão, representada pelos dois instrumentos, que intitulam o poema e estão na base do mandonismo local, personificando formas não-democráticas de exercício do poder:

Nós temos cinco governos
O primeiro o federal
O segundo o do Estado
O terceiro o municipal
O quarto a palmatória
O quinto o velho punhal.

Leandro usa o espaço do poema para divulgar o fato, certamente corriqueiro naquele ambiente, mas com a intenção de não deixar passar em branco o ato corajoso do rapaz. Justamente nesse aspecto do poema se mostra a passagem da poesia para a militância: o poeta transforma em libelo, em ato de ousadia, um acontecimento do cotidiano, e posiciona-se a favor do mais humilde.
Uma situação que fazia parte, como já dissemos acima, do status quo da própria sociedade nordestina, mas com um desfecho surpreendente para os padrões vigentes na época. A pronta intervenção da polícia local, tentando desacreditar as "palavras" de Leandro, revela paradoxalmente a eficiência do sistema repressor e a vingança do lado mais forte, tentando encobrir a evidência dos fatos que realmente aconteceram.
No entanto, sob o signo da palmatória e do punhal, essa sociedade há muito era regulada, o que justificava plenamente a permanência de um sistema coercitivo e retrógrado baseado no mandonismo e no medo, totalmente em desacordo com o espírito democrático, supostamente preconizado pela República, mas coerente com a concepção de política em voga naquele período. Leandro, ao usar o discurso poético em prol do mais fraco, seria "traído" pelas próprias palavras, que se transformaram à sua revelia em ação: o delegado não gostou, e achou mais prudente encarcerá-lo imediatamente.
Em um poema datado de 1912, "Um Pau com Formigas"[5], Leandro alude com bastante indignação à situação vigente, e utiliza dois símbolos - a cartucheira e o rifle - para representar a República e os "tempos mudados", quando o medo substitui a lei e coloca em prática a destituição dos direitos dos cidadãos. Por isso, os dois últimos versos da segunda estrofe, "a cartucheira é a lei/ o rifle, governador", representam o mandonismo. O uso da palavra lei em minúscula justifica-se como uma referência distante à Lei.
Em vez do aparato jurídico - processo, juiz, advogados etc. -, que indicaria a existência de um sistema democrático de cumprimento de regras e sanções para a sociedade, o que se tem é o prevalecimento do código do mais forte. Por isso, a referência ao objeto onde se guarda o projétil (a cartucheira) e a arma de fogo (o rifle) simbolizam quem manda verdadeiramente na República brasileira:

Chamam este seculo das luzes
Eu chamo o seculo das brigas
A epocha das ambições
O planeta das intrigas
Muitos cachorros num osso
Um pau com muitas formigas

Então depois da republica
Tudo nos causa terror
Cacete não faz estudo
Mas tem carta de doutor
A cartuxeira é a lei
O rifle governador.

Não podemos deixar de notar na estrofe a alusão, mesmo que implícita, aos coronéis, ao cangaço e aos demais membros das oligarquias locais e seus prepostos, que são coadjuvantes na cena política da Primeira República. Ambiente que o poema "A palmatória e o punhal" condensa de maneira admirável.
Portanto, se a segunda hipótese da morte do poeta é verídica, conforme assegura Permínio Ásfora, somos levados a admitir que sua atitude em defesa do empregado e as conseqüências sofridas por causa do poema, que culminaria em sua prisão e no desfecho trágico, favoreceram para transformar em ação política o percurso poético do autor.
Esse me parece ser o traço mais vigoroso de sua biografia, embora seja paradoxal, pois seria por meio da morte do autor que a ação política expressa em vários de seus poemas viria a se consolidar e o transformar realmente num ator fundamental na cena histórica brasileira, tornando audível a voz do popular. Seus versos mostram a percepção do autor sobre a inexistência de limites entre o interesse público e o privado, demonstrando, por meio da sátira e da alegoria, a estrutura corrompida do sistema político vigente da época, alimentado continuamente pela troca de favores, alianças, barganhas e corrupção, num jogo permanente em que diversos atores se revezam continuamente.

II

Na obra de Leandro, convivem versos de um poeta preocupado com os destinos do país, com a ineficiência do governo no combate aos males sociais, mas também atento às modificações dos costumes na sociedade, sobretudo com o papel da mulher, em início de emancipação pelo trabalho nas fábricas de fumo e tecidos.
No poema "As cousas mudadas"[6], escrito e publicado provavelmente entre 1910 e 1912, Leandro atua como o crítico de costumes, e desfaz a imagem tradicional que se tem da mulher nordestina e seu papel no lar, surpreendendo-nos com afirmações da modernidade:

(...)
Os homens de hoje só querem
Mulher para trabalhar,
A mulher da casa é elle,
Faz tudo que ella ordenar,
Para ser ama de leite
Só falta dar de mamar.

(...)
Você sabe que esta casa
é igual a de Gonçalo
Enquanto existir gallinhas
Aqui não se trata em gallo;
Só se faz o que eu quizer,
Não tem santo, Pedro ou Paulo.

No tempo de meus avós
O homem só se casava,
Quando preparava a casa
De tudo que precisava,
Porque na lua de mel
Um noivo não trabalhava

Hoje vão para a igreja,
Quando acabam de casar,
Diz-lhe a noiva: você volte
Em casa tem que arrumar,
Eu daqui vou para a fabrica,
Tenho cigarros a fechar

É  necessário que eu vá
Ganhar o pão de consumo,
Se hoje eu não fechar cigarros,
Amanhã como me arrumo?
Em vez de cheirar a noiva,
Tem é catinga de fumo.

Já no poema "Recife"[7], impresso pela Tipografia do Jornal do Recife em 4/11/1908, ele tece loas à cidade que escolheu para viver. Acredito que possa ter servido de inspiração também a Manuel Bandeira, outro pernambucano ilustre, leitor confesso de folhetos da literatura oral, e que no poema "Evocação do Recife", do livro Libertinagem, apresenta um itinerário geográfico-sentimental movido pela lembrança, em que notamos os ecos da influência dos versos de seu antecessor paraibano.
O texto de Leandro notabiliza-se não só pelo reconhecimento da modernidade do Recife, como também pela descrição físico-geográfica de seus bairros, ruas, quartéis, monumentos, além da atmosfera comercial e jornalística. No final, o poeta pede desculpas ao leitor pela "imperfeição" da obra, bem dentro do cânone romântico, comprometendo-se a corrigi-la em outra edição:

(...)
Agora leitor voltemos
Ao viveiro do Muniz
Districto de São José,
Onde está perto a matriz,
Onde há três linhas de ferro,
Em frente do chafariz.

(...)
Edificios importantes
Existem nesta cidade,
Como bem o Arsenal
E casas de caridade
O palácio do governo
O asylo de mendicidade.
(...)
Foi o que pude fazer
Com relação a cidade,
Não fiz mais porque não pude
Mas não me faltou vontade:
Vou fazer um novo estudo,
Melhoro a obra mais tarde.

Nos próximos versos, percebemos sua poética peculiar, em que convivem lado a lado os temas do passado e a modernidade, mas também o tom crítico sobre a falta de vontade político-administrativa em relação à atividade portuária, por exemplo, e a referência ao meio de transporte mais democrático como o bonde, que une os vários pontos da capital por um preço acessível aos bolsos dos passageiros.

Deixei aqui duas ruas,
Porque estão de fogo morto,
Uma é a do Gazometro
E a travessa do Peixoto,
Que só terão influencia
Quando melhorar-se o porto.

Alem dessas inda ficam
Outras muitas sem fallar,
Devido a falta de rima
Não as pude mencionar,
Pois não havendo tres rimas
Não há quem possa versar.

(...)

Agora o leitor querendo
Uma viagem asseiada,
Tomemos alli um bond
Da taboleta encarnada,
Vamos até Magdalena,
Localidade fallada.

Ou um que a taboleta
É de cor de um azul claro,
Passa a rua do Hospício,
E vae até Santo Amaro.
Com um cruzado vae e vem,
─ Já vê que até não é caro.

Trata-se de um Leandro urbano, que reconhece, no Recife em fase de industrialização no início do século XX, uma intensa atividade jornalística. Os versos demonstram a importância que o mercado editorial teria naquele ambiente, já que representava o surgimento e a afirmação de uma classe profissional, conferindo prestígio social e político a todos que desempenhavam semelhantes funções.

Tem quinze typographias
Aqui nesta capital,
Tem o Jornal do Recife,
A Imprensa Industrial,
Leão do Norte, a Província,
Correio e Pequeno Jornal.
O Diario de Pernambuco
Folha de necessidade,
Que por ser a mais antiga
Impressa nessa cidade
Circula em todo o Brasil,
Até a actualidade.

Fóra agora os humoristas
Que têm sahida elástica,
Como bem O Periquito,
A Pimenta e a Lanterna Mágica,
Por diversos redactores,
Rapazes de muita pratica.

Aqui na capital moram
Bem poucos agricultores;
Moram mais commerciantes,
Artistas e carregadores;
Empregados, jornalistas,
Almocreves, pescadores.

A importância dos profissionais da pena e da palavra confirma a observação de Sergio Miceli, de que, na República Velha, "toda a vida intelectual era dominada pela grande imprensa que constituía a principal instância de produção cultural da época e que fornecia a maioria das gratificações e posições intelectuais" (Miceli, 1977). Os jornais eram o próprio espaço de legitimação política e a instância consagradora de carreiras como a de bacharel.
O poema demonstra, além do reconhecimento da coexistência de várias profissões, o grau de familiaridade de Leandro com sua cidade, posicionando-se como fruidor, e convocando o leitor a assumir a mesma posição. O Recife representava não só um centro irradiador de progresso e cultura cosmopolita do Nordeste da época, mas também a praça mercantil, figurada nas fábricas, jornais, o comércio eclético, as indústrias etc.
Por outro lado, é interessante observar que encontramos poemas de Leandro que rememoram um tempo ideal, situado no passado, território da utopia e do mítico. Neles, o poeta exprime seu descontentamento com a modificação dos costumes e da vida de maneira geral, com a elevação dos impostos e a chegada da crise econômica.
Nessa linha, situam-se os textos sugestivamente denominados As misérias da Epocha, em que o poeta se queixa da "traição" do tempo, ou Lembranças do passado, em que a passagem do século XIX para o XX é um fator desagregador, que acarretará desgraças e carestia para a população:

Se eu soubesse que este mundo
Estava tão corrompido
Eu tinha feito uma greve
Porem não tinha nascido
Minha mãi não me dizia
A queda da monarchia
Eu nasci foi enganado
Para viver n'este mundo
Magro, trapilho, corcundo,
Além de tudo sellado.[8]

Veio o tempo máo [mau]
Agredir o povo
Este seculo novo
Nos meteu o pao [pau]
No ultimo grao, [grau]
Não ha quem se salve
E nem ha quem cave
O bem que enterrou-se
O mundo trancou-se
E perdeu-se a chave

A quinze annos atraz
A crise se achava morta,
O dinheiro andava doudo
Correndo de porta em portas
Eu dizia a todo mundo
Breve o diabo se solta
No anno noventa e sete
Tudo vivia contente
O commercio satisfeito
Vendendo constantemente
Com a subida do cambio
Tudo subio de repente.[9]

Como a data provável do folheto está situada entre 1913 e 1914, Leandro, ao estabelecer nessa estrofe uma possível linha de tempo representada pelo ano de 1897, pode estar aludindo aos efeitos do episódio histórico do Encilhamento, ocorrido no governo provisório de Deodoro da Fonseca, entre 1889 e 1891: a desenfreada política emissionista preconizada pelo ministro da Fazenda Ruy Barbosa, que acarretou uma inflação incontrolável. Fala claramente da especulação financeira, ao mencionar a flutuação do câmbio, oposta à época do "dinheiro doudo" que, alegoricamente, se oferecia a quem o quisesse, indo diretamente ao domicílio do freguês.
 Também a oposição espacial entre cidade e campo está presente em Leandro como oportunidade de retomar o fio da exaltação ao passado, quando não haveria penúria e, conseqüentemente, carestia, porque as safras seriam abundantes. O poema "O tempo de hoje", escrito em 1918, só pode ser interpretado pelo viés da referência ao illo tempore, tendo em vista a inversão da sociedade de classes e da relação entre freguês e produtor, e o ambiente da Primeira Guerra Mundial.
Mostra, de maneira pouco usual, as relações de comércio e as trocas feitas entre o homem do campo e a cidade. Na economia clássica, o escoamento da mercadoria ou dos bens de uma sociedade depende diretamente do consumo e da entrada de capital, por parte do comprador. Nesse contexto, cabe ao comerciante correr atrás deste, a fim de escoar a produção, com certeza excedente:


O povo lamenta o tempo
Quando tudo era barato
Que a praça como uma louca
Se curvava aos pés do matto
Pedindo para comprar-lhe
Chamando ao matuto ingrato.
Quando nos propusemos estudar o Acervo de Leandro Gomes de Barros, começamos a perceber a necessidade de procurar um lugar para sua poética, visto a pluralidade de assuntos, que vão desde a recriação do romanceiro tradicional, passando pelo cotidiano, a mudança de costumes, a política etc., além da familiaridade com a métrica peculiar aos cantadores de cordel tradicionais.
Sua obra notabiliza-se, a meu ver, pela capacidade intrínseca de "traduzir" para o público os temas relativos ao funcionamento do sistema político naquele momento, tornando-os assimiláveis, sempre acompanhados do tom moralizante (que lhe é peculiar), bastante adequado ao formato conservador da sociedade nordestina de seu tempo.
Trabalhando constantemente com o humor, entremeando situações da vida real para criticar os "desígnios" da política, Leandro contribuiu para que sua obra apresentasse essa capacidade de resistir ao tempo, permanecendo viva na memória de muitas gerações e surpreendendo-nos até hoje pela qualidade e contemporaneidade dos temas apresentados.



Notas

1 No Brasil, uma vítima ilustre - e tardia - foi o presidente Rodrigues Alves. Reeleito, não chegou a assumir o cargo para exercer seu segundo mandato. Morreu de gripe espanhola no início de 1919, e foi substituído pelo vice, Delfim Moreira, até que se realizassem novas eleições, em abril, vencidas por Epitácio Pessoa.
2 Permínio Ásfora.  "Em crise o romanceiro popular", Diário da Noite, Recife, 13/12/1949. Apud Ruth Brito Lêmos Terra. Capítulo  II - "Poetas de profissão". In Memória de Lutas: Literatura de folhetos do Nordeste (1893-1930). São Paulo: Global Ed., 1983. p. 41
3 Apud Arievaldo Viana, "140 anos de nascimento de Leandro Gomes de Barros,o rei da Literatura de Cordel". In http://www.camarabrasileira.com/cordel77.htm.
4 Há uma outra versão desse primeiro trecho que difere da de Ásfora, provavelmente colhida oralmente. O poema, A Palmatória e o Punhal, encontra-se assim transcrito nos Fundos Villa-Lobos, do IEB-SP: "Desde que entrou a República/Que o nosso país vai mal/Pois o lençol da miséria/Cobriu o mundo em geral/Deixando a mão entregue/À palmatória e ao punhal". In Ruth Brito Lêmos Terra. Op. cit., p. 41. Embora haja apenas uma estrofe do poema, ela é suficiente para deduzirmos o que Leandro teria escrito em relação ao fato.
5 Folheto LC7020. Este exemplar do poema traz a data manuscrita 8/1/1912 na primeira página e a assinatura da filha de Leandro, Rachel Aleixo de Barros Lima.
6 Folheto LC6094, em que consta também o poema "História de João da Cruz", 4º volume.
7 Folheto LC7035, que contém um segundo poema chamado "Parodia", em que Leandro reescreve os versos Ilusões da Vida, bastante popular naquela época, de autoria de Francisco Otaviano, poeta romântico seu contemporâneo.
8 Folheto LC7003, As Misérias da Epocha. Esse folheto traz na capa o endereço, rua da Colônia, Jaboatão, que se refere ao local onde o poeta residiu até 1906, antes de chegar no Recife, depois que saiu da Paraíba, aos 15 anos de idade. O folheto foi impresso no Atelier Miranda, não havendo nenhuma outra indicação nesse acervo de outro exemplar que tenha sido feito lá. As Miserias da Epocha faz parte de um conjunto homogêneo de outros folhetos do autor, onde se notam semelhanças tanto na forma - o tipo de desenho nas capas, a cercadura, o tamanho do folheto etc. - quanto no assunto: reclamações contra a mudança dos tempos, contra o governo etc. O conteúdo, no entanto, faz menção a fatos anteriores à data fixada, o que nos permite afirmar, com grande margem de probabilidade, que sua escrita poderia ter ocorrido em meados do século XIX.
9 Folheto LC6048, A Guerra, a Crise e o Imposto/ Lembranças do Passado / 2a. edição da Guerra Geral.
O folheto não pôde ser digitalizado devido ao estado precário em que se encontra, embora seja legível em algumas partes.  Não apresenta a data de publicação. No entanto, a Bibliografia Prévia de Leandro Gomes de Barros - obra fundamental de consulta para nosso trabalho - refere-se, na página 51, a esse mesmo exemplar, que se encontra no Acervo de Raros, ao qual tive acesso: "O folheto está truncado na impressão. Do primeiro poema há, apenas, as páginas 5 a 8, e do segundo poema as páginas 9 a 12". O último poema, 2a. edição da Guerra Geral, não consta no interior do folheto; o título aparece apenas na capa.


Ivone da Silva Ramos Maya Pesquisadora em Literatura Brasileira - UFF-RJ/FGV-RJ.

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