Moisés Matias de Moura: Cordel e Notícia
Gilmar de Carvalho
Estudos recentes, menos impressionistas e mais densos sobre cordel (Pires Ferreira, Kunz e Matos), abrem perspectivas de leituras e apontam para a valorização de folhetos até então considerados menores, pelo caráter de encomenda.
Em seu texto sobre a Indústria Cultural, Morin (1959) apregoa a dosagem da redundância com a novidade. Pode-se pensar que, com a exaustão dos clássicos, o folheto jornalístico vem suprir a parte do novo.
Nesse contexto de produção de folhetos, veiculando as mortes de Getúlio Vargas (1954), Luiz Gonzaga (1989) e a visita do Papa João Paulo II (1980), ganharam destaque José Soares, o "poeta-repórter do Recife", Raimundo de Santa Helena, da Feira de São Cristóvão (Rio de Janeiro), e Abraão Batista, de Juazeiro do Norte.
Moisés Matias de Moura, no entanto, caiu no esquecimento. Vale a pena chamar a atenção para sua importância no que se refere ao folheto de acontecido ou noticioso, nas notas de rodapé dos ciclos propostos pelos que se dedicam a catalogar essa produção. O cordel seria grande demais para caber nas gavetas dos entomólogos, e vivo o bastante para recusar-se a ser "a beleza do morto", expressão cunhada por De Certeau.
Um perfil arrevesado
Moisés Matias de Moura nasceu em Pesqueira, Pernambuco, a 14 de fevereiro de 1891, filho de João Matias de Moura e Maria Madalena do Espírito Santo (cujo nome foi grafado, erroneamente, Maria Madalena da Conceição, no atestado de óbito).
O primeiro casamento, com uma conterrânea de Pesqueira, foi registrado por ele em uma publicação chamada "Gazetinha do Moura", inventário de sua vida e obra: "Depois escrevi o verso/ de Moisés e Teresinha/ Que eu era esposo dela/ Ela era esposa minha/ Morreu me deixou viúvo/ Cumprindo a sorte mesquinha".
Dos dezenove filhos nascidos, nenhum se criou. Esse capítulo é "seqüestrado" dos documentos que contam sua vida a partir de 9 de outubro de 1943, dia do casamento com Justina Maria de Moura, solteira, de ocupações domésticas, filha de Vicente Pereira da Silva e Maria Ana do Espírito Santo, nascida a 30 de junho de 1912, em Boa Esperança (hoje distrito de Iara, município de Barro, Cariri cearense), e falecida em 1992.
O enlace se deu no Cartório de Pacatuba, onde a noiva vivia. Moisés era operário, solteiro, e não viúvo, como seria de se esperar. O documento também faz menção ao fato de o casal já ser unido, pelas leis da Igreja Católica, e ter três filhos: Vicente, nascido em 1927; Maria Ana, em 1930, e Aniceto, em 1938. Posteriormente, nasceram Maria Zeni, em 1946, e Raimunda Justina, em 1950.
A primeira edição do Dicionário de Repentistas e Poetas de Bancada, de Almeida e Alves Sobrinho, diz ser ele cearense. A segunda edição, diferentemente, diz ter chegado ao Ceará em 1926.
A filha Raimunda Justina faz menção a uma temporada de vinte e seis anos em Juazeiro do Norte, onde teria morado nas Malvas, bairro situado às margens da via férrea que liga a cidade do Padre Cícero a Missão Velha.
O exame médico feito pelo Instituto de Previdência do Estado do Ceará (IPEC), em 18 de dezembro de 1945, considerou-o apto para assumir as funções de guarda do trânsito, tendo sido admitido no serviço público em 10 de janeiro do ano seguinte. O prontuário dizia ser negro, medir 1,68 cm de altura, e pesar 56 quilos.
Em Fortaleza, reforçou a opção pelos folhetos de feira, fazendo do jornalístico o ponto de partida para suas criações: "Eu só escrevo é porque/ sou poeta de verdade/ quando eu chegar a morrer/ faço falta na cidade/ porque faço profissão/ de escrever novidade".
Em mais de cento e vinte títulos, o "historiador brasileiro", como se intitulava, foi um vigoroso intérprete, do ponto de vista das camadas subalternas, dos principais acontecimentos da época.
Uma história com lacunas
Algumas pistas sugerem que Moisés Matias de Moura teria começado a publicar folhetos em 1928, o que nem sua "Gazetinha do Moura" corrobora.
Em Juazeiro do Norte, teria conhecido Padre Cícero, escrito sobre sua morte, em 1934, e vindo para Fortaleza, aconselhado pelo "santo do Povo".
Orígenes Lessa tentou visitá-lo, em 1954, e deu notícias do poeta morando no bairro Amadeu Furtado (zona oeste da cidade), reconhecido pela comunidade pela agilidade ("e para escrever repente/ sou ligeiro como um raio") e pela credibilidade que ganhava sua versão dos fatos ("nunca menti em repente/ que não há necessidade").
Fazia da afirmativa de "que tem passado no trânsito/ uma vida sofredoura" (sic) uma rima pobre e a denúncia do soldo complementado pela venda de folhetos.
Mudou-se para a localidade de Cajazeiras, próxima a Messejana, e se tornou membro da Igreja Batista, o que não o impedia de continuar devoto de São Francisco e do Padre Cícero. A filha Raimunda Justina, aposentada pela Teleceará (Telemar, depois da privatização no governo FHC), mora na casa que foi do pai, nas proximidades da BR-116.
O "cabo velho do trânsito" morreu a 4 de abril de 1976, de uma trombose cerebral. O resgate de sua vida e sua obra esbarra nas dificuldades que cercam a produção tradicional ou popular, marcada pelos preconceitos elitistas e mantida, no caso cearense, à margem da História da Literatura e da Imprensa.
As referências ao poeta dão conta da venda de folhetos na calçada do Mercado Central, fazendo parte da vida de uma cidade que discutia política nos bancos das praças, comia pastel com caldo de cana e freqüentava, endomingada, as matinês dos cinemas.
A reconstituição da trajetória de Moisés resvala, muitas vezes, para o anedotário, e fica difícil distinguir a verdade da lenda. Seria de sua autoria a estrofe: "A pobre da dona Olga/ cuja dor os olhos empolga/ disse assim para o marido:/ eis nosso filho tão ridículo/ sob as rodas de um veículo".
Jornalismo popular
Pode-se não considerar Moisés Matias de Moura um grande nome do cordel, ao lado de Leandro Gomes de Barros, Chagas Batista, João Martins de Athayde, Luís da Costa Pinheiro, Joaquim Batista de Sena ou Expedito Sebastião da Silva. Ele não atingia a excelência do verso. Seu folheto é descuidado, tem rima pobre e pé quebrado. No entanto, sua contribuição ao cordel de acontecidos é inquestionável.
Talvez seja mais interessante vê-lo como intérprete de um "jornalismo oral", não "popular", baseado na enunciação da narrativa a partir do coloquial. Optava-se por dizer o fato de forma a provocar curiosidade, o desejo de acompanhar a narrativa, e dosava-se a emoção com a frieza dos dados, números e testemunhos.
A técnica passava ao largo dos manuais de redação, que não existiam, mas indiciava um tempo em que as empresas jornalísticas não estavam consolidadas, dando margem para que o povo expusesse os fatos do seu ponto de vista, com a legitimação de um porta-voz autorizado.
O jornalismo era exercido de modo boêmio, e as primeiras teorias só chegariam muitos anos depois. A resposta às perguntas básicas (que, quem, quando, onde e porque), a objetividade jornalística e o fato de se atender ao interesse público, exigindo que fossem ouvidos todos os lados envolvidos na questão, põem o jornalismo em outro patamar ético e de qualidade de emissão, agora compreendido como atividade empresarial.
Essa produção mostraria o impasse das camadas subalternas, em fase de sedução pelo rádio, insistindo no folheto como uma tradução dos jornais da época, acentuadamente políticos, no sentido de vinculação a partidos e agremiações.
Vale destacar que um folheto custava, em 1949, o dobro do preço de um exemplar do vespertino "Correio do Ceará" (fundado em 1915 e, desde 1944, integrante dos Diários Associados) ou da matutina "Gazeta de Notícias" (em circulação desde 1927), jornais que serviram de base ou diálogo possível para os "poemas" de Moura.
Um lado sensacionalista
É curioso que, quando tem oportunidade de fazer um registro jornalístico nos moldes poéticos, o autor opte pela seleção de crimes, desastres e fenômenos, a tipologia do chamado fait divers, definido por Barthes como: "informação monstruosa, análoga a todos os fatos excepcionais ou insignificantes, em suma inomináveis". Esse é também o viés adotado pelas empresas jornalísticas quando lançam formatos ditos "populares".
Longe da frieza dos "jornais de prestígio", o folheto circunstancial registra as notícias como se pensa que o povo gostaria de recebê-las.
Ao tratar da "inudação" (sic) do dia 5 de maio de 1949, sob uma grande chuva que castigou Fortaleza, Moura começa a provocar quem "profetiza mentira", ao perguntar: "Por que não profetizaram/ que esse dilúvio ia haver/ no dia 5 de maio/ muito havia de chover/ para ficarmos cientes/ do que ia acontecer?"
A expressão "dilúvio" é a mesma dos jornais, embora o poeta não tenha informado o índice da precipitação, que se aproximou dos 300 mm, segundo o "Correio do Ceará".
A "Gazeta" dá o total dos desabrigados, que coincide com a cifra de Moura: "Como agora em Fortaleza/ ficaram desombrigadas (sic)/ 150 famílias/ na chuva desabrigadas".
Enquanto o "Correio do Ceará" apela para o impacto visual de fatos, Moura perde-se na afirmação não-comprovada de que "muitas crianças morreram/ por debaixo das paredes", e passa a fazer propaganda de Acrísio Moreira da Rocha, prefeito populista, de grande aceitação nos anos de 1940, o qual, segundo o poeta, "da forma que trata o rico/ trata também a pobreza".
"O encanamento dágua/ de Acarape a Fortaleza/ ficou todo interrompido/ com a forte correnteza", prossegue Moura, deixando de lado as ações da Prefeitura para assegurar o abastecimento d'água, enfatizadas pela "Gazeta", alinhada com Moreira da Rocha.
Moisés Matias de Moura fala do desaparecimento de quatro jangadeiros, fato que os jornais não noticiaram. Pode-se contrapor ao rebuscamento do "Correio" a linguagem mais seca da "Gazeta", tentando o poeta popular tirar partido da enchente, que "foi um castigo que veio/ do autor da criação".
A versão do desastre
Sete mortos e nove feridos foram o saldo do desastre de trem do dia 31 de outubro de 1949, no quilômetro 11 da Estrada de Ferro de Baturité, localidade de Moitinga (hoje Vila Peri), entre Parangaba e Mondubim, na zona sul de Fortaleza.
Poeta e jornais tiveram em comum a identificação dos mortos e feridos, com definição de idade, ocupação e residência. Os veículos de comunicação, no entanto, foram buscar as causas do acidente no fato "da tamanca do freio haver se despregado caindo sobre o trilho" ("Correio do Ceará") e na denúncia da falta de manutenção das máquinas, enquanto Moura acrescentou ao relato um lado mágico, quando atribuiu ao maquinista a observação: "Quando a máquina fez a curva/ avistei as 2 cruz/ não vi trilho na estrada/ creio por nosso Jesus".
Vale ressaltar, na versão do poeta, o fato de ele ter coberto o desastre como um repórter escalado para este fim: "Foi 30 guarda de trânsito/ com alta autoridade/ chegou com a comitiva/ naquela localidade/ depois que verificou/ reconheceu a verdade".
Além de dar conselhos aos maquinistas e lamentar a morte e o sofrimento dos feridos, o "cabo velho" aproveita para reforçar o corporativismo da instituição militar quando diz: "O inspetor Pedro Ribeiro/ foi o local com os guardas/ por sua iniciativa/ trabalha nunca se enfada/ os elementos do trânsito/ sabe honrar suas fardas".
O apelo do futebol
Em 1950, era disputado um campeonato nacional de seleções dos Estados. Uma vitória do Ceará no jogo contra o Pará, dia 18 de fevereiro, sábado de carnaval, levaria o estado a prosseguir na competição.
O carnaval atrapalhou a cobertura dos jornais. A "Gazeta de Notícias", que circulou na véspera do jogo, antecipava que a partida não tinha um juiz definido.
A arbitragem de Jombrega (Francisco José Róseo de Oliveira) foi catastrófica para cortar as pretensões "alencarinas": ele anulou dois gols da seleção cearense, e o jogo acabou com um empate de 2 a 2. Foi grande o impacto, não apenas no noticiário dos jornais, como no carnaval, onde os sujos deram a nota de revolta predominante do corso.
Moura refletiu mais que os jornais esse sentimento de indignação. A capa do folheto mostra um rato com sacos de dinheiro. O texto define o juiz como um "guabiru do rabo fino/ que nem o gato lhe pega/ mas ainda não está livre/ de levar uma esfrega", o que teria levado o árbitro a se esconder no carnaval para não sofrer agressões.
Um detalhe pitoresco que jornal e folheto anunciam é a recusa do açougueiro de Jombrega a continuar a lhe fornecer carne: "Carne neste meu açougue/ tu nunca mais comprará/ saia daqui todo dia/ comprar carne no Pará". Moura vai além, sugerindo que os motoristas da praça teriam tido a mesma atitude de recusa, o que a imprensa não confirma.
O senso de oportunidade do poeta acentua-se quando registra que, com melodia de "Daqui não saio", os blocos nas ruas e os leitores de Moura entoavam uma provocação com gosto de revide: "Agora com quatro filhos/ onde é que eu vou morá/ que Jombrega é cearense/ mas roubou para o Pará".
Expulso do quadro de juízes da Federação Cearense de Desportos, Jombrega teve neste clamor popular, do qual Moura foi um dos intérpretes, sua grande condenação.
O impacto de um crime
O relato de um crime que comoveu a cidade e que deve ter vendido muitos folhetos foi localizado na Biblioteca Amadeu Amaral, da Funarte, com o título: "Monstruoso crime do ex-jogador Idalino (sic) que foram vítimas os dois comerciantes Aluísio e Geraldo".
Trata-se de uma segunda edição, diz a capa da publicação. Provavelmente, trata-se da retomada de um tema que deve ter vendido à exaustão, porque envolvia um ex-jogador de futebol, personagem do pequeno Olimpo da cidade, em um crime, com a motivação de roubar o automóvel de uma das vítimas.
Idalino comprou o carro, com a promessa de pagar depois, e os vendedores sumiram, o que provocou reação de Luizinha, a noiva de um deles. Astucioso, o jogador de futebol passou telegramas falsos, dando pistas que iludiriam a moça.
Preso, "como cínico traiçoeiro/ em vez de chorar sorriu", ele confessou o crime e sugeriu que "não foi mais que o demônio/ que estava a me atentar".
De ídolo a facínora, Idalino teria também matado sua mulher, a dona da pensão onde morava, por ele jogada da janela. Depois de oito dias de interrogatório, foi levado para a detenção. Antes, pediu para trocar de roupa: "Tenho roupa e tenho jóias/ que nem todo rico tem/ e sair como mendigo/ não se faz isto com ninguém".
Ele foi preso com sua amante, Alcinda Leal. O poeta pergunta o porquê do crime: "Por que foi que Idalino/ usou tão feio mister/ era porque sustentava/ de 3 a 4 mulher/ e não ganhava a despesa/ na profissão de chofer".
A conclusão moralizante era de se esperar: "Aviso a meus companheiros/ que não sejam renitentes/ deixem a vida mundana/ para ser mais competente/ não ame a mulher da rua/ ame a sua somente".
A triste história de Moacir Weyne
Moisés Matias de Moura fez um comentário poético sobre um fato que provocou forte impacto sobre a cena fortalezense: a morte do comerciário Moacir Weyne, membro de família tradicional na cidade, baleado na varanda de casa, no bairro de Porangabuçu (hoje Rodolfo Teófilo), por um grupo de quatro "amigos".
A agressão aconteceu às vinte horas do dia 12 de novembro de 1949, e o óbito teve lugar às três da madrugada do dia seguinte. Um dos agressores foi identificado como João Capadócio, filho do Tenente-Coronel César Borges.
Weyne era considerado "o violão seresteiro n°1 dos subúrbios" ou, de acordo com o relato de Moura: "Gostava muito de farra/ brilhava em todo salão/ parece que está se ouvindo/ a voz de seu violão/ naquelas noites de lua/ não perdia seu clarão".
Os amigos chegaram tarde, e queriam brincar de tiro ao alvo. A mulher reclamou, e Moacir retrucou: "Mulher tenha paciência/ chegaram os amigos tarde/ hoje em nossa residência/ vou fazer os gostos deles/ com carinho e reverência".
O alvo seria um caju, cuja safra começa em outubro. Moura deu um álibi para os agressores: "Aí botaram um caju/ e um dos dois atirou/ mas desviou o caju/ em Moacir alvejou/ caiu logo no chão/ quando a arma disparou".
Moacir criava cavalos que corriam no Jóquei Clube, e foi homenageado com uma corrida num domingo de novembro. Moura se emocionou: "Quando vi chegar de luto/ o cavalo de Moacir". E para dar um desfecho satisfatório para o relato, até certo ponto estranho, pelo fato de não condenar, enfaticamente, os criminosos, que alegaram agir em legítima defesa, disse que a viúva ganhara o prêmio da corrida de cavalos.
A gazetinha de Moura
A publicação de quatorze páginas enumera os folhetos de Moisés Matias de Moura. A listagem dá conta do que se perdeu, pelo descaso com a memória.
Ele diz que "o primeiro anúncio meu/ foi escrever o desastre/ do pequenino George/ do Sr. Cezar Cayat/ depois que escrevi este/ eu fiz profissão da arte".
A listagem prossegue falando do poema sobre Severino Sombra, líder de uma facção integralista. "Depois escrevi o verso/ da planta de Fortaleza/ que divide a cidade/ com toda sua beleza/ quem nunca viu já conhece/ o verso conta a certeza".
Moura também fala sobre três jovens maranhenses mortos, afogados no porto de Fortaleza, sobre o atropelamento pelo trem do Dr. José Sombra e a morte do português sócio de uma padaria.
A Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo, é tema de dois folhetos. A interventoria de Carneiro de Mendonça, depois da Revolução de 1930, no Ceará, também merece folheto. "Depois escrevi o verso/ a verdadeira certeza/ do navio misterioso/ do porto de Fortaleza/ que aparece no porto/ com garbosa boniteza".
A história da mãe que se casou com o filho tem todos os ingredientes de um sucesso de vendas. A construção do mercado, o suicídio de um cabo do Exército, notícias das eleições que envolveram a Liga Eleitoral Católica (1934) e o choque de um caminhão com um bonde, nada escapa à voracidade poética de Moisés Matias de Moura.
Não se sabe se essas pistas apontam para folhetos propriamente ditos (ele usa a palavra "anúncio") ou se sua interferência dava-se no âmbito da voz e da performance.
São poucas as informações de onde publicava os folhetos. Um deles ("Carta que veio do céu") traz o selo do editor Olegário Pereira Neto, de Juazeiro do Norte. É provável que suas publicações fortalezenses tivessem o selo de Epolari Maia, responsável pela impressão dos folhetos de Joaquim Batista de Sena, antes de o poeta paraibano se instalar com a Tipografia Graças Fátima, em 1954.
Tradição e permanência
O folheto já não tem o mesmo sucesso de vendas de ontem. Nesse ínterim, houve um significativo avanço das tecnologias e das mídias, e o povo encontrou outras formas de participação e comunicação, aproximando-se, em alguns casos, dos modelos da Indústria Cultural e, em outros, da adoção de posições políticas mais conseqüentes, como se dá com as rádios comunitárias e o fortalecimento de movimentos sociais.
Nos episódios das mortes de Ayrton Senna e Lady Di, na lenda urbana da perna cabeluda e na moça que dançou lambada com o cão, a tradição do folheto jornalístico deu sinais de vitalidade.
Na região do Cariri, com a Academia dos Cordelistas do Crato, ou em Fortaleza, com o pessoal do CECORDEL (Centro Cultural dos Cordelistas Cearenses), o folheto de acontecido permanece, apesar dos avanços da mídia, mostrando que, num contexto de sofisticação de tecnologia e das práticas mercadológicas, ainda existe espaço para a atitude da qual Moisés Matias Moura foi um pioneiro. Muita coisa mudou, mas o formato do folheto, a rima nem sempre rica e a métrica, às vezes, de pé quebrado servem como suporte para esta informação que resiste à margem dos meios hegemônicos, e continua a desafiar estudiosos e a encantar o povo.
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Gilmar de Carvalho
Prof. Dr. do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará; doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.
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