A vida social da cidade na poesia de Antonio Francisco
Alessandro Teixeira Nóbrega
Introdução
Tanto para os autores que afirmam a existência de um novo período societal pós-moderno quanto para seus críticos, é unânime a afirmação de que o capitalismo contemporâneo passa por transformações.
Para Harvey (1992), essas transformações em ritmo acelerado acarretam em mudanças sociais tão drásticas quanto os processos de transformação tecnológica e econômica. Ao lado do ritmo acelerado das mudanças, há uma perda das referências valorativas tradicionais ou uma crise de valores. A sociedade parece ser comandada por um nada absoluto, certo, estático ou sólido, o que leva à perda da referência a valores fixos.
De acordo ainda com Harvey (1992), acentua-se a volatilidade e a efemeridade sociais. Enfatizam-se os valores e as virtudes da instantaneidade e da descartabilidade. Formou-se a dinâmica de uma sociedade "do descarte"1. Ela significa mais do que jogar fora bens produzidos; significa também ser capaz de atirar fora valores, estilos de vida, relacionamentos estáveis, pessoas e modos adquiridos de agir e ser. As pessoas foram forçadas a lidar com a descartabilidade, a novidade e as perspectivas de obsolescência instantânea. Essa efemeridade cria um sistema de valores públicos e pessoais de pequena temporalidade, instáveis, no contexto de uma sociedade em vias de fragmentação - conclui Harvey.
Berman (1992) colabora com esta idéia quando afirma que
tudo que a sociedade burguesa constrói é construído para ser posto abaixo. "Tudo que é sólido" [...] é feito para ser desfeito amanhã [...] a fim de que possa ser reciclado ou substituído na semana seguinte e todo o processo possa seguir adiante [...] sob formas cada vez mais lucrativas (Berman, 1992: 97).
A volatilidade torna extremamente difícil qualquer planejamento de longo prazo. A primeira estratégia aponta para o planejamento de curto prazo, bem como para o cultivo da arte de obter ganhos imediatos sempre que possível.
Dominar ou intervir ativamente na produção da volatilidade envolve, por outro lado, a manipulação do gosto e da opinião. Isso significa, em ambos os casos, construir novos sistemas de signos e imagens. A publicidade e as imagens da mídia já não partem da idéia de informar ou promover no sentido comum, voltando-se cada vez mais para a manipulação dos desejos e gostos mediante imagens que podem ou não ter relação com o produto a ser vendido (Evangelista, 1999).
A volatilidade e a efemeridade também tornam difícil manter qualquer sentido firme de continuidade. Há a perda de um sentido do futuro. A experiência passada é comprimida em algum presente avassalador. É a fragmentação do tempo em uma série de presentes perpétuos (Jameson, 1985).
O mergulho no turbilhão da efemeridade provocou uma explosão de sentimentos e tendências opostos. A vida metropolitana atual intensifica os estímulos nervosos da psique humana de modo brusco e ininterrupto (Simmel, 1979: 12). Em resposta a esse turbilhão de sentimentos incompreensíveis, os homens passam a ter necessidade de um local seguro contra a futura volatilidade, retraindo-se para instituições básicas como a família, em busca de raízes históricas mais seguras e valores mais duradouros num mundo cambiante.
O momento atual seria, então, caracterizado pela condição de fragmentação, efemeridade, descontinuidade e mudança caótica do pensamento.
O objetivo deste artigo não é discutir se as transformações do capitalismo contemporâneo fundam um novo modo de produção pós-moderno ou configuram uma nova etapa do capitalismo. O objetivo é chamar a atenção ao ritmo acelerado das transformações sociais que "desmancham no ar" os sólidos e fixos valores anteriores e à percepção desta crise de valores na poesia de Antonio Francisco.
Apresentando Antonio Francisco
O poeta Antonio Francisco é artista conhecido na cidade de Mossoró pelos seus versos. Nas manifestações públicas artístico-culturais, o poeta emociona as pessoas ao declamar suas criações literárias, sendo bastante aplaudido nos eventos.
Antônio Francisco Teixeira de Melo, poeta e xilogravurista, nasceu em Mossoró (RN), em 21 de outubro de 1949. Bacharel em História, pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), é compositor, e trabalhou confeccionando placas. Apresenta uma produção de vinte e um folhetos de cordéis publicados, e é autor de dois livros: Dez Cordéis num Cordel Só e Por Motivos de Versos.
Antonio Francisco foi imortalizado pela Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), ocupando a cadeira de número 15, do cearense Patativa do Assaré. Para Xavier (2007), "a eleição pela Academia Brasileira de Cordel para a cadeira anteriormente ocupada por Patativa do Assaré não foi aleatória, e revela a dimensão de sua obra". O articulista afirma que a produção cordelista de Antonio Francisco vem sendo muito elogiada pela crítica literária atual, a ponto de considerá-lo "a grande revelação no campo da Literatura de Cordel do RN nos últimos anos".
A indicação de Antonio Francisco à ABLC na cadeira de Patativa do Assaré foi noticiada em vários jornais de circulação local no Estado. O Jornal O Poti anunciou o acontecimento, chamando "o poeta mossoroense Antônio Francisco, um dos mais importantes nomes da Literatura de Cordel do Brasil" (Jornal O Poti, 21 de maio de 2005).
Não é por acaso que, no sítio Cortina de Vidro, o livro de Antonio Francisco, Dez cordéis num cordel só, está a exposição para venda ao lado das poesias de Drummond, Cecília Meireles, Castro Alves, Manuel Bandeira, Pablo Neruda e Fernando Pessoa.
O progresso conduz à ruína da geografia do lugar: natureza e espaço rural em Antonio Francisco
O ritmo acelerado do capitalismo contemporâneo assemelha-se a uma avalanche que desce montanha abaixo, arrasando, devastando e destruindo tudo que está a sua frente, por onde passa e consegue alcançar. Mas, engana-se quem achar que a sociedade capitalista, por isso, "está caindo aos pedaços". Ao contrário, como diz Berman, é justamente na ininterrupta perturbação, na interminável incerteza e agitação que o capitalismo se fortalece (Berman, 1992: 94), pois é das crises que mantém o seu dinamismo, ao atuarem como inesperadas fontes de força de adaptação (Berman, 1992: 101). Pois, aqueles que não têm uma atitude ativa diante das mudanças impostas pelo mercado serão passados para trás (Berman, 1992: 95).
É pela incorporação de novos espaços e novas esferas às necessidades de valorização do capital que as crises do capitalismo são superadas. O capitalismo contemporâneo expande-se por todos os campos sociais, e submete-os a sua lógica, a lógica do lucro, campos sociais, inclusive, nunca antes imagináveis. Os capitais colonizam certas dimensões da cultura e da subjetividade que lhe pareciam imunes (Evangelista, 1999)2.
Essa expansão devastadora do capitalismo não passa despercebida nas poesias de Antonio Francisco. Para o poeta, o progresso eleva o nível de vida, mas rebaixa sua qualidade. O autor refere-se ao progresso em geral, mas sabe-se que se trata do desenvolvimento capitalista no Brasil. Um modelo de capitalismo semelhante ao estadunidense, que valoriza "o individualismo e a democratização do acesso aos bens materiais como medidas de melhoria pessoal e de progresso social" (Dantas, 2001: 35). Para Antonio Francisco, o progresso econômico capitalista, que permite o acesso a determinados bens materiais a um número cada vez maior de pessoas, degrada a qualidade de vida e conduz à deteriorização da natureza.
No poema "O rio de Mossoró e as lágrimas que eu derramei", Antonio Francisco canta uma cidade onde seus costumes e a natureza são destruídos pelo progresso.
Este rio no passado
Tinha uma força incomum,
Mas o progresso dos homens
Que vive sempre em jejum
Partiu ele em três pedaços
Pra comer de um em um.
(Melo, 2003: 82, grifos nossos.)
E em "A lenda da Ilha Amarela", quando canta:
E assim eles viviam
Naquela ilha amarela:
Tirando o que precisavam,
Vivendo felizes nela
Sem deixar que o progresso
Mordesse um pedaço dela
(Melo, 2003: 23, grifos nossos.)
Tanto no primeiro poema quanto no que faz referência a uma Ilha Amarela, na visão de Antonio Francisco, o progresso é algo devorador, que consome as forças e tira "pedaços". A natureza é abocanhada pela força do progresso, que parece devorar tudo a sua frente vorazmente, como um ser faminto, durante muito tempo em "jejum". Na verdade, para Antonio Francisco, o progresso vive "sempre em jejum".
O progresso capitalista devasta florestas, polui rios, não há obstáculos a sua frente, em sua fome de lucros. No entanto, ele vai enfrentando limitações crescentes, cada vez maiores devido ao caráter limitado e inelástico do espaço geográfico disponível a sua expansão (Evangelista, 1999).
Para Antonio Francisco, a degradação da ecologia é realizada juntamente com a deteriorização da qualidade de vida humana. A natureza é degradada, ameaçando a continuidade da vida humana no planeta3.
A degradação da ecologia faz-se acompanhar pela destruição dos espaços tradicionais. A paisagem se modifica, o progresso modifica a geografia do lugar. Mas, também os costumes, hábitos e valores anteriores são esquecidos ou substituídos por outros mais apropriados ao modo de vida que se estabelece. É o modo de vida metropolitano, para usar um conceito utilizado por Simmel (1979). Para Lojkine (1995: 19), a crise da sociedade atual é inerente à relação da tecnologia com a geografia4.
O capitalismo conduz à urbanização cada vez maior da sociedade, e os espaços rurais são cada vez mais raros ou modificados a ponto de se estabelecerem modos de vidas semelhantes à vida urbana.
Nas estrofes abaixo de "O feiticeiro do sal", Antonio Francisco recorda:
Vejo nosso casarão
Com quatro cilos na sala
Cheios de milho e feijão
E um quarto pegado a casa
Que pai guardava algodão
Tem cenas que eu paro a fita
Deixo a imagem congelada
Como bem a de vovô
Numa noite enluarada
Contando história pra nós
Na subida da calçada
Nestas estrofes, a imagem de um passado que não volta mais é bastante clara. Os casarões de algodão não existem mais. Os homens não vislumbram mais as noites de lua por causa dos postes de iluminação que, se não impedem a grandeza da luz do luar, em muito amenizam a força do pratear nos caminhos. E os contos falados, os "causos", os momentos de contar estórias de lobisomens ou outras, na beira da calçada pelos mais velhos, foram substituídos por horas e horas durante as quais jovens e crianças permanecem diante do computador, na internet, no orkut ou simplesmente em jogos de rede.
O ritmo e a multiplicidade da vida metropolitana da cidade fazem
um contraste profundo com a vida de cidade pequena e a vida rural no que se refere aos fundamentos sensoriais da vida psíquica. [...] A metrópole extrai do homem [...] uma quantidade de consciência diferente da que a vida rural extrai. [...] Oposição à vida de pequena cidade, que descansa mais sobre relacionamentos profundamente sentidos e emocionais (Simmel, 1979: 12).
O progresso da urbanização traz uma multiplicidade de possibilidades para as pessoas. Há uma intensificação psíquica, diferentemente da vida rural - que é mais calma, tranqüila, de tempo lento. Na cidade o passo é largo, as pessoas estão com pressa, o relógio define o ritmo da marcha: constante, em frente e em círculo, como que para representar o cotidiano. Pois amanhã farás o mesmo percurso, as mesmas coisas, as mesmas ocupações, o mesmo ônibus. É como se o processo do trabalho fosse controlado pelo cronômetro da fábrica (Lojkine, 1995: 28).
O progresso traz a individualização do homem, que fica "em si mesmado", girando em torno de si mesmo. Uma atomização que esfria as relações sociais, que são mediatizadas pela frieza das máquinas, e as relações entre os homens urbanos ficam cada vez mais superficiais e parciais. O tipo metropolitano de homem, diz Simmel - não sem antes alertar para a existência de mais de mil variantes individuais -, desenvolve esse tipo de atitude como de proteção, para "preservar a vida subjetiva contra o poder avassalador da vida metropolitana". O autor completa: "Ele reage com a cabeça, ao invés de com o coração" (Simmel, 1979: 13).
Antonio Francisco busca da memória os casarões de algodão e as estórias contadas pelos mais velhos na calçada para contrastar com os hábitos urbanos. É um espaço que se encontra na memória, na lembrança do passado. Não existe mais. Não volta. Ele é diferente dos hábitos que o progresso da urbanização trouxe para os moradores. São outros hábitos. Antonio Francisco parece apelar para a necessidade de reagir com o coração à indiferença social que toma conta das relações entre os homens.
Uma cidade antiga, cujos costumes, brincadeiras e características em geral são perdidas pelo desenvolvimento urbano capitalista:
Quero ser neto de Perto/ Filho de Chico e Pedrinha/ Ser criado por titia/ E Maria prima minha/ E crescer correndo perto/ Do rancho que a gente tinha./ Quero quebrar minha vela/ Na primeira comunhão/ Pegar balde no Mercado/ Malota na Estação/ E jogar como eu jogava/ Bola, peteca e pião./ Quero correr com o vento/ Por dentro da capoeira/ De calça curta e chinela/ Armado de baladeira/ E enganar o sol quente/ De baixo da quixabeira.5
Na cidade urbana, as crianças não podem correr pelas ruas sem o risco de sofrer alguma violência de pedófilos ou até mesmo seqüestro dos traficantes de pessoas ou órgãos humanos. As crianças de classe média correm presas em condomínios de aparente segurança. E as estações de trem, apesar de serem um transporte ideal para o nosso clima e de condução mais barata, foram suplantadas pelas grandes empresas de ônibus. Quase nenhuma criança mais brinca de peteca e pião, os quais foram trocados pelos brinquedos eletrônicos e/ou virtuais. E o vento não corre mais devido às construções de edifícios que, ao contrário de substituirem as sombras das quixabeiras, tornam mais sufocante o calor, com o cimento armado e as estradas asfaltadas.
A degradação das relações entre os homens em detrimento da arte de viver
Para o poeta cordelista Antonio Francisco, o progresso capitalista não apenas degrada a natureza com sua expansão sem limites e destrói as espacialidades territoriais anteriores pelo desenvolvimento da urbanização, mas também deteriora as relações entre os homens. O progresso tecnológico traz uma desarmonia dos homens com seu meio ambiente, de modo a rebaixar sua qualidade de vida.
Em "A lenda da Ilha Amarela", tem-se:
Os rios eram sagrados,
Claros como a luz do dia;
Uma só mancha de óleo
Na água ninguém não via [...]
Não tinham cartão de credito
E nem cheque pré-datado,
O dinheiro ali também
Era um troço do passado
Pois todo macaco tinha
Seu próprio supermercado.
Também já tinham enterrado
A arte de fazer guerra:
O fuzil, a baioneta
Nas profundezas da terra
Com a lata de Baygon
E os dentes do moto-serra.
Já tinham ido pra lua,
Marte, Vênus e Plutão,
Mas voltaram para a ilha,
Enterraram a invenção
E ficaram olhando a lua
Do camarote do chão.
Estavam tão avançados
Que nem carro tinham mais,
Televisão, Internet,
Tinham deixado pra trás
Com as taxas de água e luz,
Gasolina, óleo e gás.
A geladeira também
Era um troço ultrapassado,
As frutas eram nas árvores,
Os legumes no roçado,
Os peixes dentro dos rios
E não num freezer fechado (Melo, 2003:.22).
Nota-se, nessas estrofes, que Antonio Francisco refere-se aos instrumentos do comércio atual como algo desnecessário em um local onde todos "tenham seu próprio supermercado". Antonio Francisco parece insinuar que, numa sociedade onde se possa retirar tudo da natureza, torna-se desnecessário o cartão de crédito, o dinheiro e o cheque pré-datado. Uma alusão clara ao comunismo primitivo, onde as trocas de mercadorias não eram desenvolvidas ou não dominantes. Os membros da sociedade retiravam da natureza seu sustento; era um supermercado para cada um.
"A lenda da Ilha Amarela" é uma paródia do descobrimento do Brasil. De modo que os macacos seriam os índios. A diferença da estória da Ilha Amarela e os índios brasileiros estaria, justamente, em que os macacos da Ilha Amarela já haviam experimentado todos os recursos modernos: televisão, Internet, geladeira, viagem à Lua etc. E agora abandonavam, enterravam nas "profundezas da terra", deixavam no passado, no esquecimento, porque tinham ultrapassado esse modo de vida. Notaram que todo esse desenvolvimento tecnológico conduzia à poluição dos rios, ao desmatamento de florestas, às guerras. Trocaram essas descobertas científicas por um modo de vida harmonioso com a natureza.
Para Antonio Francisco, o progresso tecnológico conduz a uma relação predatória com a natureza, rebaixando assim a qualidade de vida humana.
Em outras estrofes:
Quando os macacos da ilha
Viram na praia acampados
Aqueles "macacos brancos",
Feiosos, desfigurados,
Correram para ajudar
Aqueles pobres coitados.
Quando chegaram que viram
Aquele brasão cravado
Naquela cruz de madeira
Com dois macacos de lado
Armados até os dentes
Viram a cópia do passado
De um passado sem glória,
De guerra e destruição,
Onde o ódio e a ganância
Calavam a voz da razão,
Onde o macaco mais fraco
Era bucha do canhão (Melo, 2003: 24).
Como paródia do descobrimento do Brasil, os macacos brancos que os macacos da Ilha Amarela vêem é a chamada civilização. Um povo mais desenvolvido, mas que na verdade tinha instrumentos que os macacos da Ilha Amarela tinham deixado ao chão.
O fuzil e a baioneta, as armas, junto com o inseticida e a serra elétrica, levaram os homens à guerra e à destruição da ecologia. A geladeira acumulou-nos de conservantes, e retirou aos homens o sabor da comida fresca. A televisão e o carro vieram junto com as taxas de luz e gasolina, além da poluição. O progresso tem seu preço. Os serviços públicos exigem a divisão de sua manutenção pela coletividade por meio de taxas.
Portanto, os macacos da Ilha Amarela foram ajudar os macacos brancos, que ainda não tinham feito essa experiência. Foram lhes avisar de que as descobertas cientificas os conduziram a uma situação de violência e depredação do meio ambiente. Não há glória em um desenvolvimento tecnológico que traz para a humanidade ódio no coração e ganância em sua ação. Com essa experiência, notaram que, ao invés do "progresso", os avanços e descobertas científicas, era melhor uma vida modesta, em harmonia com a natureza, com a vida.
Os macacos da Ilha Amarela
Eram macacos comuns
Pequenos, amarelados,
Com pouco pêlo no corpo,
Andavam todos pelados,
Mas na arte de viver
Eram mais que avançados (Melo, 2003: 21).
Os macacos de poucos pêlos, na arte de viver, eram avançadíssimos. Esta referência a poucos pêlos, a macacos que andavam pelados e avançados na arte de viver por causa da harmonia com a natureza, não é apenas uma referência de identificação com os índios. Na literatura, o nu tem um significado muito importante, além da simples semelhança com os índios.
Os macacos estavam nus porque estavam despidos de qualquer sentimento de superioridade, arrogância ou volúpia. Para que os homens possam conviver em harmonia com a natureza, Antonio Francisco parece alertar, é preciso que se dispam de sentimentos de prepotência.
As roupas podem significar, na literatura, o símbolo do velho e ilusório estilo de vida anterior. A nudez pode representar a recém-descoberta e efetiva verdade, e o ato de estar nu torna-se um ato de libertação espiritual, uma forma de transcender a realidade, uma autodescoberta. A verdade só pode ser alcançada quando os homens perdem as suas vestes (Berman, 1992: 104).
Veja-se mais acima que os macacos brancos possuem todos os sentimentos descritos anteriormente. Eles estão vestidos para significar sua vaidade. Um mascaramento de seus próprios e verdadeiros sentimentos.
De acordo com Berman (1992: 105), pode-se dizer que os macacos amarelos estão nus porque são desacomodados e, ao mesmo tempo, é a maneira como desenvolvem sua humanidade plena, uma vez que nus, eles se tornam iguais, reconhecendo-se uns nos outros. A nudez dos sentimentos de volúpia e vaidade humanas aumenta a sensibilidade e a vida interior. Somente nesta nudez alcança-se a realização da plena humanidade. É somente pela realidade nua do homem desacomodado que se pode construir uma verdadeira comunidade. A nudez é o desvelamento.
Esses macacos nus não sentem frio, provavelmente, porque estão diretamente expostos ao calor do sol de uma ilha tropical. Mas, principalmente, não sentem frio, pois aproximam-se mais ainda, e enfrentam coletivamente, pelo calor dos corpos nus, o frio que gela os corações.
Esses sentimentos estão cada vez mais distantes do capitalismo moderno. Seja pós-moderno ou outra fase do capitalismo, o importante é notar que o ritmo acelerado da exploração do trabalho pelo capital está destruindo não só a natureza e, com ela, o planeta, mas também as relações entre os homens. A valorização do que é efêmero, a individualidade e a indiferença são valores predominantes em um mundo que mais parece em crise do que em uma nova fase de desenvolvimento.
Para resolver a crise de valores: desacelerar o ritmo, voltar ao passado? Por um governo da preguiça e um modo de vida poético
Nos poemas expostos neste artigo, Antonio Francisco parece afirmar a necessidade de voltar ao passado, deixar o progresso de lado. Mas, não se pode aferrar a tradições milenares, em busca de um passado histórico que não pode mais voltar (Dantas, 2001: 33). Defender uma organização familiar da produção, continua Dantas, é remeter a uma utopia "franciscana" de vida quando se dispõe de uma base técnica que permite libertar o trabalho da sociedade dos estreitos limites da privatização capitalista (Dantas, 2001: 37).
É verdade que é preciso desacelerar, se necessário, para que os homens possam viver. Sem a pressa da vida ritmada como um relógio de fábrica, aproveitar os instantes com sua família, saber quem é seu vizinho e conversar com ele, cumprimentar o "desconhecido" do caminho do seu trabalho ou aquela pessoa que você sempre encontra no ponto de ônibus. Importar-se com as pessoas, perguntar como estão, escutá-las. Se é preciso desacelerar o ritmo para que se possa melhorar as relações entre os homens, que assim seja.
As constantes mudanças e a falta de estabilidade dos valores sociais não são de todo ruins. Esta situação impele os homens a aspirar às mudanças em sua vida pessoal e social, de uma maneira ativa deliciar-se pela mobilidade, buscar a renovação e olhar para o futuro - a burguesia fomentou uma cultura humanística de ideal desenvolvimentista (Berman, 1992: 94). O problema do capitalismo, continua Berman (1992: 95), é que restringe esse desenvolvimento aos limites do mercado burguês.
Alguns atribuem às mutações tecnológicas o sentido do trabalho precário, a sua intensificação e a formação de uma camada de excluídos da modernização tecnológica (Lojkine, 1995: 27). Mas Lojkine reconhece que as mutações tecnológicas desenvolvem-se em uma relação contraditória. As possibilidades técnicas do capitalismo contemporâneo agudizam "o conflito entre as formas novas de organização técnica do trabalho e a antiga organização social" (Lojkine, 1995: 42). O progresso tecnológico não incumbe apenas destruição e violência. As suas possibilidades são paradoxais. A possibilidade de "uma nova etapa histórica que nos permita associar uma organização solidária e democraticamente culta da produção e da sociedade, com uma existência libertada do trabalho" (Dantas, 2001: 35).
É preciso saber utilizar a tecnologia de modo a diminuir o tempo de trabalho, aumentar o tempo livre. Assim, os homens poderão aprimorar o espírito, cultivar a alma. "De ‘máquina' que substitui e domina os sujeitos humanos, o computador poderá tornar-se ‘instrumento' que amplia a inteligência humana" (Lojkine, 1995: 22). A tecnologia poderia ser um "dos meios através dos quais a sua condição [do pobre] poderia ser melhorada" (Dantas, 2001: 31).
É bem verdade, e pode-se até ter um sentimento pessimista de duvidar do futuro, que ainda não se construiu um projeto que seja capaz de combinar o estágio atingido pela "nova base técnica e cultural da atual etapa histórica" e a melhoria "tanto material quanto espiritual das massas" (Dantas, 2001: 36). Mas, as condições técnicas para esta possibilidade já estão colocadas.
Conclusão
O poeta cordelista não só chama a atenção para esta crise de valores, como também convoca a humanidade para combatê-la, propondo, ou melhor, fazendo um apelo aos homens por meio de sua poesia para a necessidade de mudança de comportamento entre si e com a natureza. Um apelo que parece mais um grito de socorro, um grito de alguém que se vê sufocado pela areia movediça, que seja, de uma pós-modernidade.
As interpretações possíveis da poesia de Antonio Francisco não se encerram neste artigo, tampouco todos os sentimentos que podem despertar. Antonio Francisco faz um convite a uma reflexão sobre o que se está fazendo com a vida humana: quem pode ficar indiferente a este convite?
Notas
1 Em Dantas (2001): "[...] o trabalhador-consumidor estará sempre disposto a sustentar um ritmo frenético de trabalho que lhe permita consumir bugigangas fungíveis, umas atrás das outras [...]" (Dantas, 2001: 31).
2 O autor dá o exemplo da publicidade, onde na transformação da realidade em imagens, em certo sentido, as próprias imagens tornam-se mercadorias.
3 Mais adiante será retomado este aspecto da poesia de Antonio Francisco.
4 Além das dimensões mencionadas por Lojkine, ver também uma relação destas com a organização política.
5 Discurso de Antonio Francisco na posse da ABLC.
Referências bibliográficas
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DANTAS, Marcos. "Informação e trabalho no capitalismo contemporâneo." Lua Nova, São Paulo, 2003, nº 60, p. 5-44.
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HARVEY, David. A Condição Pós-Moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 1992.
JAMESON, Fredric. "Pós-modernidade e Sociedade de Consumo." In: Novos Estudos CEBRAP, n. 12, São Paulo, junho de 1985.
LOJKINE, Jean. A Revolução Informacional. São Paulo: Cortez, 1995.
JORNAL O Poti, Antonio Francisco, sessão notícias diversas, 21 de maio de 2005.
MEIRELES, Carlos. "Poeta Antônio Francisco: O Patativa de Mossoró." Jornal O Mossoroense, sessão Autores e Obras, 27 de julho de 2003.
MELO, Antonio Francisco Teixeira de. Por motivos de versos. 5.ed. Mossoró-RN: Queima-bucha, 2003.
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SIMMEL, Georg. "A Metrópole e a Vida Mental." In: VELHO, Otávio Guilherme (org.). O Fenômeno Urbano. 4ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. p. 11-25.
www.cortinadevidro.com.br. Acesso 26 de outubro de 2007.
XAVIER, Nilton. Alma franciscana. www.ceinet.com.br. Acesso dia 28 de outubro de 2007
Alessandro Teixeira Nóbrega Professor da Universidade do estado do Rio Grande do Norte (UERN), mestre em história pela UFRN e estudante do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN.
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