Editorial - Um longo percurso narrativo
Nesta "Cultura Crítica", caminhamos com o conto por mais de um século. De Machado de Assis a Guimarães Rosa; de Lima Barreto a Alcântara Machado; de Cecília Meireles a Hilda Hilst; de Jorge Amado a Rubens Fonseca. Osman Lins, Dalton Trevisan, João Antônio e Ignácio de Loyola Brandão.
O leitor da "Cultura Crítica" trará à memória outros contistas que deveriam ocupar nossas páginas. Júlia Lopes de Almeida, João do Rio, Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Autran Dourado...!
Temos extraordinários contistas que captaram e conceberam histórias com profunda observação da realidade social, histórica e psicológica que não puderam estar aqui. Mas, acreditamos que os estudiosos que se propuseram a comentar os contistas desta edição souberam selecionar escritores do passado distante, do passado recente e também do presente.
A "Cultura Crítica" procura mostrar a importância do conto em nossa literatura e na vida social. Por isso, o critério de seleção foi o de comentar contistas de várias épocas. Não houve preocupação com escolas literárias ou com identidade ideológica dos escritores. Há casos em que pesamos aspectos de época e de lugar do contista na história da literatura brasileira.
Com os artigos prontos - um universo de quatorze contistas, considerando a comparação entre João Antônio e Luandino Vieira, de Vima Lia Martin -, constatamos uma rica amostragem da narrativa curta e de tensão dramática concentrada. Variações temáticas, estilos distintos, procedimentos narrativos diversos construindo um mundo de personagens em conflito são passíveis de serem observados em conjunto nos ensaios críticos.
Há marcas acentuadas de estrutura narrativa que dão destaque a alguns escritores quanto às rupturas e transformações do conto. Acreditamos ser o caso de Machado de Assis, Alcântara Machado, João Guimarães Rosa e Dalton Trevisan.
Com a urbanização, iniciada no Brasil em fins do século XIX, o conto se manifestou como uma forma ágil e cativante. Lima Barreto o teve, ao lado de seus romances e crônicas, como arma da observação satírica e irônica das relações humanas mercantilizadas. Alcântara Machado veio a ser o contista por excelência do modernismo - seus contos são verdadeiros documentos da formação se São Paulo, dos bairros ocupados por imigrantes italianos. É um primor de síntese. Dalton Trevisan trouxe à tona as neuroses de uma bem arrumada e pacata Curitiba. Mas, Guimarães Rosa fez do conto uma peça rara de construção narrativa. Não são as personagens urbanas que protagonizam as tragédias, mas sim as do sertão de Minas.
Poderíamos fazer outras considerações a respeito do urbano e do rural que são expressos na história do conto brasileiro, mas não vem ao caso.
O leitor encontrará um estudo do escritor português José Saramago e um estudo comparativo de Vima Lia, já mencionado, que analisa o escritor africano Luandino Vieira. Os demais são brasileiros. Esses ensaios enriquecem a "Cultura Crítica", dedicada ao conto brasileiro.
Lembramos que editamos este número no momento em que se comemoram os 100 anos do nascimento de João Guimarães Rosa e os 100 anos da morte de Machado de Assis.
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