Lima Barreto, O Contista – considerações sobre conto O filho da Gabriela
Em 1909, Recordações do escrivão Isaías Caminha marcava a estréia oficial de Lima Barreto como escritor. Repudiado por seus compatriotas e sem outra alternativa, restou ao romancista editar a obra em Portugal, mas, para tanto, teve de abdicar dos direitos autorais. Não bastasse isso, a crítica, quase por unanimidade, condenara o romance, supostamente de mau gosto, à clef e de qualidade inferior. José Veríssimo, conceituado crítico na época, também não o poupou. Esse, a seu ver, padecia de um sério defeito: o excessivo personalismo, opinião compactuada com Medeiros de Albuquerque e com Alcides Maia. Se assim concebido, Recordações do escrivão Isaías Caminha se restringiria ao mero relato dos dramas pessoais do próprio Lima Barreto que, como conjeturavam, não teria transcendido sua realidade para convertê-la em arte.
Esse parecer equivocado da crítica acompanhou o escritor por toda vida. Obras primas como Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911) e Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá (1919) não foram o bastante para romper o ranço dos detentores do poder e os estigmas impostos ao autor de Cemitério dos Vivos (1956). Sequer o advento do modernismo, do qual Lima Barreto foi, por mérito, precursor, conferiu-lhe o merecido prestígio.Conquanto Mário de Andrade e o próprio Alcântara Machado declarassem apreço por sua obra, ele ainda permaneceria, por um longo tempo, relegado ao ostracismo, a despeito de iniciativas isoladas como a de Monteiro Lobato, editor de Vida e Morte de J.M. Gonzaga de Sá.
Apenas em meados do século XX, a obra romanesca de Lima Barreto passou a ser devidamente valorizada e, desde então, um número considerável de estudiosos tem se empenhado para resgatá-la. Imbuídos desse propósito estão Carlos Erivany Fantinaty, em o Profeta e o escrivão (1978); Osman Lins, em Lima Barreto e o espaço romanesco (1976); Antônio Arnoni Prado em Lima Barreto, o crítico e a crise (1989) e, mais recentemente, Zélia Nolasco Freire ( 2005), em Lima Barreto, imagem e linguagem, Carmen Lúcia Negreiros ( 1995), em Lima Barreto e o fim do sonho republicano e Maria do Carmo Figueiredo (1995), em O romance de Lima Barreto e sua recepção.
Porém, se os romances de Lima Barreto já são relidos e submetidos a apreciações mais justas e imparciais, distantes das críticas canhestras, pautadas no preciosismo parnasiano, o mesmo não ocorre com seus contos, 105 no total. Apesar da vasta produção, o ficcionista teve apenas uma coletânea de contos publicada em vida, distorção ainda não corrigida. Conforme observa Mauro Rosso (2006, p.6),
Lima não recebeu nesse particular um estudo à altura. E da mesma forma e na mesmíssima proporção, talvez mais grave ainda, que esses equívocos interpretativos, há de se lamentar profundamente que, a par da intrínseca e incontestável relevância histórico-literária de Lima Barreto, tamanha riqueza temática, poucos praticaram com tanta coerência e consistência - e importante prenúncio estilístico, anunciador do modernismo, não tenham recebido o merecido tratamento editorial ao longo de todos esses anos.
Na verdade, o contista Lima Barreto não foi descoberto, na íntegra, pela crítica, por isso ainda há uma enorme lacuna a seu respeito.
Nas antologias escolares e na mídia, surgem, com freqüência, alusões a dois textos: O homem que sabia javanês (1986) e Nova Califórnia (1986), que serviu de base para a telenovela Fera ferida, exibida pela Rede Globo de Televisão. Embora os dois contos sejam primorosos e mereçam reconhecimento, podemos alistar outros de qualidade indiscutível como: Um especialista (1986), O filho da Gabriela (1986), Um e outro (1994), Como o homem chegou (1994), Uma vagabunda ( 1886), Miss Edith e seu tio (2005) , Sua excelência (1986), O jornalista ( 2005), O cemitério (2005), O único assassinato do Cazuza (1986), Congresso pamplanetário (1994), A indústria da caridade (1994), O número da sepultura (1994), Dentes negros, cabelos azuis (1994) etc.
De acordo com José Emílio Major Neto, no conjunto de contos de Lima Barreto, são detectadas três tendências: a satírica, em que se destacam Congresso pamplanetário e Agaricus Auditae ; a crítica social, integrada, entre outros, por Clara dos Anjos (1994), Dentes negros, cabelos azuis e O filho da Gabriela e, por fim, a crítica de costumes , retratos do subúrbio carioca do início do século XX, a exemplo de O número da sepultura e O único assassinato do Cazuza.
Já, na concepção de Mauro Rosso, os contos barretianos giram em torno de cinco eixos temáticos: a política; a mulher; o cotidiano da cidade, o subúrbio e a vida literária.
Classificações à parte, o importante é notar, em qualquer narrativa de Lima Barreto, a ruptura com os padrões estéticos vigentes à sua época e com a mentalidade racista e preconceituosa de seus contemporâneos. O intelectual, como poucos, fez da literatura um instrumento de combate contra a opressão, não se limitando, contudo, a produzir uma obra meramente panfletária. Ressalte-se o fato de que as inovações trazidas pelo contista não se deveram à sua inabilidade ou suposta incapacidade de escrever em conformidade com os padrões consagrados, nem se deram de modo aleatório, mas se mostram como desdobramentos de um projeto literário sólido e consciente.Como ele mesmo afirma:
Parece-me que o nosso dever de escritores sinceros e honestos é deixar de lado todas as velhas regras, toda disciplina exterior de gêneros, e aproveitar de cada um deles o que puder e procurar, conforme inspiração própria, para tentar reformar certas usanças...(apud Rosso, l996, p.3 ).
A percepção de que as narrativas de Lima Barreto ultrapassam as fronteiras estabelecidas para os gêneros literários não demanda muito esforço. Seus contos, ao se desviarem dos padrões convencionais, mesclam elementos da crônica, da reportagem investigativa, da novela e do próprio romance. Aliás, parte significativa desses foi projetada para servir de arcabouço para textos mais amplos, como é o caso de Clara dos Anjos e Numa e Ninfa (2005), convolados, respectivamente, em novela e em romance.
Nas narrativas breves do escritor, não rara é a ausência de unidade dramática. Além disso, muitos de seus textos classificados como contos, de modo insólito, encontram-se divididos em capítulos. Possivelmente tais características se devam à aludida intenção do autor em tê-los concebido com o fito de transformá-los, posteriormente, em narrações de maior envergadura.
A linguagem coloquial, semelhante a das crônicas, constitui outra peculiaridade dos contos de Lima Barreto. Esses iniciados, amiúde, a partir de diálogos travados em botequins ou em ambientes domésticos, remontam situações informais.Assim, o discurso das personagens flui livremente, as palavras, despojadas de artifícios retóricos, ganham vida e de conversas aparentemente despretensiosas afloram narrativas, que dada a espontaneidade discursiva, identificam-se com os "causos" populares, como verificamos em O homem que sabia javanês e em O único assassinato do Cazuza.
Na concepção Olívio Montenegro (1956), as crônicas e os contos de Lima Barreto superariam seus romances, pois neles, como supõe, o escritor teria se distanciado de seus dramas pessoais para empreender uma análise mais apurada da realidade.Ledo engano. Tanto os romances quanto os contos barretianos são pontuados por traços autobiográficos.Destarte, apenas para citar alguns exemplos, são patentes as semelhanças entre Horácio, personagem do conto O filho da Gabriela, e Lima Barreto.A perda precoce da mãe, a rejeição do padrinho, as inúmeras fugas para a Ilha do Governador, a personalidade depressiva, o sofrimento da mãe, a rejeição social, são pontos de convergência entre o criador e a criatura. De maneira similar, o protagonista de Como o homem chegou também se identifica com o contista.O personagem, intelectual tachado de louco e transportado em condições precárias de Manaus para o Rio de Janeiro, por não compactuar com os desmandos das oligarquias de seu povoado, não deixa de refletir o drama do escritor, também submetido, mais de uma vez, às agruras do hospício. Entretanto, os elementos autobiográficos, presentes na literatura de Lima Barreto, não a enfraquecem, ao contrário, conferem-lhe autenticidade, tornando-a ímpar e dotada de beleza singular. Sem exageros, Lima Barreto, um mulato marginalizado no Brasil republicano, superou o seu drama pessoal, fez-se escritor e transformou habilmente suas vivências em literatura militante, assumindo o papel de porta-voz dos oprimidos. Ele não se ateve apenas a questões particulares, porquanto soube imprimir, em sua obra, um caráter universal.Desse modo, um passo à frente de seus contemporâneos, o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma e de Um especialista foi um mestre na arte de narrar, um verdadeiro alquimista, no sentido metafórico do termo.Como Raimundo Flamel, o cientista do conto Nova Califórnia, transformou material bruto em ouro, arte fora do alcance dos poderosos.
No entanto, faltaríamos com a verdade, se afirmássemos que todos os textos de Lima Barreto igualam-se em qualidade.Em se tratando de um escritor, cuja produção é vasta, não causa estranheza o fato de alguns textos se destacarem em relação a outros. Por isso, ao levarmos em consideração sua obra romanesca, devemos considerar o hiato existente entre Clara dos Anjos e Triste fim de Policarpo ou entre Numa e Ninfa e Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá.
As variações qualitativas, presentes nos romances de Lima Barreto, também se mostram perceptíveis em seus contos. Quanto ao gênero, narrativas de viés satírico, como Congresso pamplanetário, construídas a partir de alegoria elementares, não atingem o mesmo grau de excelência de O homem que sabia javanês, Como o homem chegou, Dentes negros, cabelos azuis e Nova Califórnia, verdadeiras obras primas por aliarem a denúncia dos problemas sociais da nação a uma irrefutável qualidade estética.
Lima Barreto também atingiu grande êxito quando se prestou a denunciar o drama das minorias no Brasil do final do século XIX, sob a égide dos governos republicanos. Os negros e mestiços excluídos do mercado de trabalho no período pós-abolição, a exploração dos operários e, sobretudo, a opressão contra a mulher são temas de alguns de seus melhores contos.
Ao levarmos em conta as acusações de misoginia que pesaram sobre o escritor, sua militância a favor das mulheres parece um tanto paradoxal.A bem da verdade, o intectual assumiu posições polêmicas ao tratar do feminismo.Em Coisas do Reino do Jambom , observa:
Não é preciso pôr mais na carta, para ver o que visa esse feminismo caricato que prolifera pelos solicitados dos jornais. O que ele quer é a dignificação da mulher, não é sua elevação, o que ele quer são lugares amanuenses com cujos créditos possa comprar vestidos e adereços, aliviando nessa parte os orçamentos dos pais, dos maridos dos irmãos. ( Barreto,1956,p.54).
Ele, todavia, não criticara a luta das mulheres por condições de igualdade na sociedade machista e injusta, mas se insurgiu contra um feminismo de caráter elitista, que não propugnava por transformações sociais e visava apenas a interesses particulares dos setores privilegiados da burguesia.
Homem de vanguarda, avesso a qualquer forma de autoritarismo, o contista atento aos problemas de seu tempo, em Clara dos Anjos e em Um especialista, põe às claras o drama da mulher negra que, como revela, à semelhança do período da escravidão, era submetida pelos integrantes das classes senhoriais à condição de objeto sexual. Nos dois contos, o autor se restringe às agruras das mulheres pobres e mulatas, mas em O filho da Gabriela, vai além ao tratar de uma opressão que extrapola os limites e étnicos e sociais, atingido, assim, uma dimensão universal. No início da narrativa, somos colocados diante da tensão estabelecida pelo conflito entre empregada e patroa:
__Absolutamente não pode continuar assim...Já passa...é todo dia! Arre!
__Mas é meu filho, minha ama.
__E que tem isso? Os filhos de vocês têm tantos luxos. Antigamente criavam-se à toa; hoje é um Deus nos acuda, exigem cuidados, têm moléstias...Fique sabendo, não pode ir amanhã!
__Ele vai melhorando, Dona Laura; e o doutor disse que não deixasse de levá-lo amanhã...
__Não pode, não pode, já lhe disse! O conselheiro precisa chegar cedo à escola, há exames, tem de almoçar cedo...Não vai embora! A gente tem criados pra quê? Não vai, não!
__Vou, e vou sim!... Que bobagem!...Quer matar o pequeno, não é?
__O que é que você disse, hein?
__É isso mesmo: vou e vou.
__Atrevida!
__Atrevida é você, sua...Pensa que não sei...( Barreto, 1986,p.23).
A patroa e a criada ocupam pólos opostos e conflitantes. A atitude de Dona Laura reflete o pensamento dos grupos dominantes do período pós-abolição.Ainda que se proclamassem liberais e opostos à escravidão, concebiam os negros e os mestiços como bens móveis, cujo valor, na ótica escravocrata, era meramente econômico.Impregnada pelas concepções utilitaristas do seu grupo social, a senhora se mostra indignada com a possibilidade de o filho da empregada ter contraído moléstia, ignorando, com isso, a humanidade do menino, reduzido à condição de objeto. Já Gabriela, a empregada mestiça e desprovida de recursos, em princípio, mantém-se em posição subalterna.O tratamento dispensado à patroa, expressos nos vocativos: minha ama, Dona Laura evidenciam isso. Entretanto, ao reivindicar direitos próprios de uma trabalhadora livre (deseja levar o filho ao médico), no confronto com a realidade, rompe as estruturas sociais que a coisificam e, gradativamente, ganha voz. A relação vertical de subordinação se torna justaposta.Embora em posições antagônicas, as duas colocam-se em pé de igualdade, simetria expressa na fala da empregada, quando revida a ofensa de Dona Laura, valendo-se do mesmo adjetivo que ela: atrevida.
A antítese estabelecida nas descrições de Dona Laura e de Gabriela marca a oposição existente entre ambas:
Em seguida as duas mulheres se puseram caladas em um instante:_ a patroa_ uma senhora, ainda moça,de beleza suave e marmórea- com os lábios finos, muito decorados e entreabertos, deixando ver os dentes aperolados, muito iguais, cerrados de cólera; a criada agitada, transformada com faiscações desusadas nos olhos pardos e tristes. (Barreto, 1986, p.24).
No entanto, arrefecidos os ânimos, empregada e patroa entreolham-se.A despeito das diferenças, uma se enxerga na outra, descobrem-se, há entre elas um ponto de convergência. São mulheres oprimidas. Pensam sobre Gabriela o preconceito racial, as injustiças sociais e a exploração própria da sociedade de classes e sobre Laura, também adstrita às atividades domésticas, o autoritarismo da família patriarcal que a levara a contrair casamento com um homem mais velho, por quem possui verdadeira ojeriza, razão de a aristocrata manter relações extraconjugais.O episódio subseqüente à tensão entre as mulheres se apresenta rico em imagens:
E ambas, pelo fim dessa transfiguração inopinada, entreolharam-se surpreendidas, pensando que acabavam de se conhecer naquele instante, tendo ali vagas notícias uma da outra, como se vivessem longe, tão longe, que só agora viam bem nitidamente o tom de voz de cada uma delas. No entendimento peculiar de uma e de outra, sentiram-se irmãs na desoladora mesquinhez da nossa natureza e iguais, como frágeis conseqüências de um misterioso desencadear de acontecimentos. A dona da casa, à cabeceira da mesa, manteve-se silenciosa, correndo, de quando em quando, o olhar ainda úmido pelas ramagens do atoalhado, indo, às vezes, com ele até a bandeira da porta defronte, donde pendia a gaiola do canário, que se sacudia na prisão niquelada.(Barreto, 1956, p.24)
A imagem da gaiola niquelada, onde se debate o canário, simboliza a prisão na qual se encontram Dona Laura e Gabriela. O níquel, matéria prima da gaiola, também empregado no fabrico de moedas, sugere o dinheiro, poder econômico, que mantém a serviçal presa a casa por questão de sobrevivência e a patroa, refém de um marido indesejado, haja vista a necessidade de ostentar as aparências requeridas por seu status quo.
Da tríade de personagens que integram o conflito inicial, destaca-se o filho da Gabriela, protagonista da narrativa. Sem registro civil, destituído de nome próprio, o menino inexiste para o Estado brasileiro.Sua condição denuncia o descaso do poder público, nos primeiros anos da república, em relação às camadas pobres da população, compostas, sobretudo, por ex-escravos e seus descendentes Na ausência de projetos governamentais que lhes garantissem integração na sociedade livre, restava -lhes o subemprego, a mendicância, ou, na melhor das hipóteses, o trabalho de serviçal para os antigos senhores.
Embora o menino, quando muito, pudesse figurar apenas como um número nos dados estatísticos oficiais e fosse considerado pelas esferas do poder como mais uma criança anônima perdida no Rio de Janeiro do século XIX, cuja possibilidade de sobrevivência se reduzia 33%, seu valor para Gabriela é inestimável. O fato de ser conhecido pelo nome da mãe revela a afinidade entre ambos. Cumplicidade subtendida no sintagma O filho da Gabriela que intitula o conto.Os artigos definidos o e a, determinantes dos respectivos substantivos: filho e Gabriela exprimem a proximidade entre a mãe e o filho, a afetividade mútua de um para com o outro, também singularizam os termos determinados, dando a idéia de que, no âmbito familiar, o filho da Gabriela é único, especial. Tanto é que a mulher, ciosa de suas obrigações maternas, abandona o emprego na casa de Dona Laura para dedicar-se ao filho. Porém, premida pela necessidade, a mãe se vê, ironicamente, obrigada a procurar, sem êxito, outro trabalho. Mesmo tendo vencido a oposição de Dona Laura, a actante Gabriela, encontra-se impedida de realizar sua performance e não alcança o objeto de seu desejo: levar o filho ao médico. É dotada de vontade, mas lhe falta um elemento essencial: o poder econômico. Vã fora sua saída da casa da patroa, sem alternativas, para lá volta, levando consigo o menino. A mobilidade social apregoada pelo liberalismo republicano não se efetivara de fato para os pobres, para quem a liberdade, longe de concretizar-se, limitava-se ao plano formal. Gabriela morre na condição de cozinheira da casa, Dona Laura e o conselheiro Calaça, seu esposo, numa atitude paternalista, adotam o menino, dando-lhe o nome de Horácio( Barreto,1986,p.26):
O conselheiro condescendeu e cuidadosamente começou a procurar o nome adequado. Pensou em Huáscar, Ataliba, Guatemozim, consultou dicionários, procurou nomes históricos, afinal resolveu-se por Horácio, sem saber porquê.
O nome Horácio, atribuído ao menino aleatoriamente, torna-se destituído de seu significado. Além disso, de modo irônico, não se coaduna com a personalidade do infante, traumatizado por conta das condições insalubres e precárias de vida, sofre de afasia, nítido contraste com a eloqüência do poeta latino .
O conselheiro Calaça, representante das elites dirigentes do país, não ignora apenas o significado do nome do afilhado, mas também a sua própria existência como pessoa. O ato de registrá-lo, aparentemente generoso, reveste-se de violência simbólica. O registro de nascimento suprime, no âmbito oficial, a verdadeira identidade de Horácio, sua história pregressa e também a de sua mãe. Na verdade, em vez de o registro público consistir em um elemento de humanização para Horácio, mostra-se, de modo paradoxal, como um instrumento que oculta seu processo de desumanização. O conselheiro nomeia o afilhado como quem o faz com um animal doméstico ou com um traste qualquer. Sua indiferença em relação a Horácio se evidencia na seguinte passagem ( Barreto,1986,p.29):
E era assim sempre, o seu padrinho duro, desdenhoso, severo em demasia com o pequeno de quem não gostava, suportando-o unicamente em atenção à mulher, maluquices de Laura dizia ele(...)Horácio, toda manhã, ao sair para o colégio, lá avistava o padrinho atarraxado na cadeira de balanço a ler a ler atentamente o jornal: " A bênção meu padrinho"__"Deus te abençoe, dizia ele, sem menear a cabeça do espaldar e no mesmo tom de voz com que pediria chinelos à criada.
A atitude de menoscabo de Calaça, que dá a bênção a Horácio como quem pede o chinelo ao criado, esvazia o significado do ato de abençoar e mostra a superficialidade da cerimônia religiosa de batismo, afastando qualquer vínculo de paternidade entre o conselheiro e o menino. Malgrado usufrua alguns benefícios incomuns a um criado, o pequeno é apenas o filho da Gabriela submetido aos desmandos próprios de uma relação de apadrinhamento.
Dona Laura, de modo análogo ao esposo, recalcitra em assumir-se como mãe do órfão, um mestiço, que não possui seus traços aristocráticos. Ao dar-lhe a bênção, a mulher, justificando a presença de Horácio em sua casa para uma visitante, enfatiza o fato de ele ser o filho da ex-empregada, não ratificando, assim, sua condição de mãe, substituta de Gabriela. Como constatamos na cena que segue:
Uma tarde, quando isso ia fazer, encontrou Dona Laura atendendo uma visita. Vendo-a entrar e falar à dona da casa, tomando-lhe a bênção, a senhora estranha a perguntou: Quem é esse pequeno?__È meu afilhado, disse Dona Laura. __Teu afilhado?__Ah! sim! É o filho da Gabriela...Horácio ainda esteve um instante calado, estatelado e depois chorou nervosamente. (Barreto, 1986, p.30).
Subjugado pelo padrinho, que o mantém, na velada condição de escravo da casa, Horácio, superando sua afasia, reluta em cumprir uma ordem de Calaça. A fala contestadora do menino faz emergir sua humanidade em nítida oposição à condição de objeto que lhe é imposta pelo conselheiro. A tensão inicial entre empregada e patroa é revivida por Horácio e pelo Conselheiro. Cai a máscara do padrinho.Em pólos opostos, estão empregado e patrão:
Certa manhã, ao entrar na sala de jantar, deu com o padrinho a ler os jornais, segundo o seu hábito querido.
__Horácio, você me passe na casa do Guedes e traga-me a roupa que mandei consertar.
__Mande outra pessoa buscar.
__O quê?
__Não trago.
__Ingrato! Era de se esperar.(Barreto, 1986, p.32).
A consciência de sua real condição na casa do conselheiro, adquirida a partir do contato com as relações sociais opressoras, apesar de reveladora, torna Horácio mais deprimido. A ilusão de ser filho do casal aristocrata desvanece. Seu estado de saúde se agrava. Acometido de uma crise nervosa, ele é socorrido por Dona Laura:
__Já, Horácio? perguntou-lhe a madrinha,vendo-o entrar.
__Estou doente.
__E dirigiu-se para o quarto. A madrinha seguiu-o. Chegado que foi, atirou-se na cama, ainda meio vestido.
__Que é que você tem meu filho?
O rapaz, deitado, com os olhos semicerrados, parecia não ouvir; passava a mão pelo rosto, arquejava e debatia-se. (...)
__Horácio!...Horácio!...
__Estou dividido...Não sai sangue....
__Horácio, Horácio, meu filho...(Barreto, 1986, p.33)
Dona Laura, apartada da presença repressora do marido, solidariza-se com Horácio. É como se ela e Gabriela se entreolhassem, como ocorreu em uma das cenas iniciais do conto, e, apesar das diferenças, uma mulher se visse na outra e mutuamente tornassem próprios os dramas alheios. Dona Laura se esquece, por alguns instantes, do preconceito e coloca-se no lugar de Gabriela. Afinal, o filho da Gabriela, também, é seu, pronome possessivo que não mais indica a posse de caráter mercantilista sobre um objeto, mas uma relação humana, de afetividade entre mãe e filho.
No clímax da narrativa, a morte de Horácio é presumível, porém o desfecho drama ocorre de modo surpreendente. ( Barreto,1986,p.34):
Daí em diante a prostração tomou-o inteiramente. As últimas palavras não saíam perfeitamente articuladas. Pareceu sossegar. O médico entrou, tomou a temperatura, examinou-o e disse com a máxima segurança:
__Não se assuste, minha senhora. Dê-lhe o purgante, depois as cápsulas, que, em breve, estará bom.
Ao distanciar-se da pieguice romântica e folhetinesca, dos desfechos felizes, dos clichês e fórmulas prontas, o narrador sarcástico e irônico, no melhor estilo moderno, surpreende o leitor com o efeito de estranhamento, frustrando-lhes as expectativas: Horácio sobrevive e o médico, de modo inopinado, receita-lhe purgante.
Indubitavelmente, o conto em questão nos revela toda a genialidade de Lima Barreto, contista, por muito tempo, esquecido, anônimo como o filho da Gabriela.
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Pedro Santos da Silva É mestre em literatura e crítica literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professor da rede pública e advogado.
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