Antítese, paradoxo e Cecília Meireles: simbiose narrativa.
A narrativa, na história do Ocidente, remonta há milhares de anos antes de Cristo. Vem por meio das parábolas hebraicas, das fábulas gregas (mediterrâneas) e dos contos fantásticos da Europa setentrional. Todos esses gêneros narrativos surgiram com um mesmo propósito, trazer uma lição de vida, uma lição de moral.
A característica básica para a construção da narrativa se deu pelo estabelecimento do perfil da personagem central, apresentada como mártir ou como guerreira. Na Ilíada, tem-se Heitor, herói troiano que se sacrificou para evitar um embate sangrento de seu povo; na Odisséia, Ulisses luta, com artimanha, contra as seduções da viagem e contra as astúcias dos pretendentes de Penélope.
A configuração da personagem como base para a construção narrativa fez com que várias teorias a respeito fossem desenvolvidas. Uma das mais significativas é a de Propp (1978), que estabelece a identificação da personagem não pelas ações praticadas, mas pela função exercida.
Esse estudo embasou as considerações de Greimas que apresenta quatro funções, para a configuração de um percurso narrativo, quais sejam: um sujeito que estabelece um percurso narrativo em busca de um objeto de valor, tem apoio de um auxiliar e impedimento de um opositor. Esquematicamente, o percurso narrativo assim se configura:
sujeito → auxiliar → objeto de valor
opositor
A presença do opositor provoca uma interceptação no percurso narrativo e altera a expansão semântica do texto. Essa interceptação pode ou não provocar a alteração aludida. Se sim, identifica-se como conflito, característica básica da narrativa; se não, identifica-se como um problema, não se tendo, no caso, uma narrativa e sim um relato.
A história está repleta de relatos e de narrativas. Quando Cabral se depara com uma calmaria, na costa oeste da África, e traça um novo plano de navegação para que a tripulação das treze caravelas de sua esquadra não morresse à míngua, provocou uma alteração em seu percurso narrativo, qual seja, rumar para a Índia, e veio bater na costa leste do Brasil, tomando, para Portugal, posse da terra descoberta do Novo Mundo. Cabral tornou-se, portanto, na história do Brasil e de Portugal, um herói guerreiro.
Anchieta subiu a Serra do Mar e, no Planalto de Piratininga, com a ajuda dos índios chefiados por Tibiriçá e Caiubi, erigiu uma capela, uma escola e deu início a uma povoação da qual se originou a cidade de São Paulo. Anchieta entrou para a história do Brasil como um grande pacificador com espírito empreendedor, mas não como um herói, pois não vivenciou uma narrativa e sim um relato.
De relatos e narrativas surgiram gêneros diferentes: notícias, crônicas, contos, romances, novelas. A notícia é um relato de um fato em um domínio discursivo jornalístico, nesse mesmo ambiente surge a crônica, abordagem mais subjetiva do fato, o conto já traz características narrativas, como o romance e a novela, mas se diferencia destes por apresentar, segundo Gotlib (1985: 15), situação e proposição temática resumidas.
Assim será entendido conto neste artigo. Para sua análise, serão consideradas a constituição da superestrutura textual e a configuração do percurso narrativo. O percurso narrativo já foi apresentado. Cabe, agora, explorar a superestrutura que se desenvolve em torno de um conflito. Nem tudo que, narrativamente, é apresentado como conflito, tem, obrigatoriamente uma característica de conflito, independente de um contexto circunstancializador.
Divórcio pode ou não ser um conflito, o que vai assim determiná-lo será uma situação inicial estabelecida, que circunstancializa o acontecido. Numa situação quotidiana de um relacionamento estável, em que o marido se desdobra em atenção pela esposa, fazendo-lhe e trazendo-lhe múltiplos agrados. Um dia ele arruma as malas, parte para viver um outro amor, o que provoca um choque na cônjuge, e se lhe apresenta como um conflito, pois traz uma alteração em seu percurso narrativo de vida. Já, numa outra situação, em que o marido, que não trabalha, que vive explorando e espancando a esposa e os filhos, resolve abandonar a família, isso será uma solução para os problemas.
Todo conflito desencadeia uma reação que procura encontrar, para ele, uma solução, tendo por respaldo uma personagem auxiliar que pode ou não ter um potencial maior de força que a opositora, para derrotá-la. Se sim, o conflito se resolve e a narrativa tem um desfecho de sucesso; se não, o desfecho é de fracasso. A configuração do desfecho possibilita, explícita ou implicitamente, o estabelecimento de uma lição de vida, de uma lição de moral.
A superestrutura textual da narrativa atualiza-se por meio de um investimento lingüístico que revela, por características fonológicas, morfossintáticas, sintáticas e semânticas, um estilo do domínio discursivo em que circula ou circulará, do movimento literário a que pertence e/ou do autor. As marcas lingüísticas constituem a instância por meio da qual se torna possível a construção de uma identidade textual e o estabelecimento de percursos de leitura.
A autora selecionada como objeto de estudo neste trabalho é Cecília Meireles. De seu universo de produção literária, foi escolhido um conto que, como todos os outros textos produzidos pela autora, traz uma das marcas típicas de sua produção em prosa ou em versos, qual seja: a antítese.
Essa característica é encontrada em crônicas, como em A saia plissada, em que a cronista não só explora a inconstância da moda, mas também a resistência do plissado da saia que comprou: Mas a moda dos plissados vai e vem [...] Menos daqui os sonhos, Maria, duram os plissados e as rosas... (1998; 317); ou em Cidade louca: Uma coisa, porém, são as gravuras, e outra, bem diferente, a realidade atual (... é doce mirar as gravuras antigas [...] É certo que a população se multiplicou, e a cidade teria de crescer.) (id.:329).
Também, em poemas tem-se a presença deste jogo antitético, como Motivo: Não sou alegre nem sou triste [...] Atravesso noites e dias [...] Se desmorono ou se edifico ... (1987: 81); ou em Ou isto ou aquilo: Ou se tem chuva ou se tem sol / ou se tem sol e não se tem chuva!... (id.: 734).
Os contos, da mesma forma, trazem essa característica, como em Natal no jardim: O carteiro também me disse: "Aquela gata foi morta a pedrada." [...] Disse-me isso, entregando-me cartões de Boas Festas. Mas estava um pouco triste, como eu. (Estes cumprimentos de Natal. Estes votos. Estes sinos na igreja. Estes presentes. Estas árvores. Estes brinquedos. Consoadas. Nozes, castanhas, figos, passas. Uma gata morta a pedrada. Por que, meu Deus, por quê?) (1998: 340)
O conto que será analisado organiza-se em torno de um eixo antitético construído pela passagem do verbo estar, do presente para o pretérito imperfeito do indicativo: Está, não - estava. A transformação do tempo verbal transporta Mariazinha do presente, condição de viva, para o passado, condição de morta. Este é o momento da instauração do conflito.
Convém destacar o tratamento gramatical presente no conto em relação à transposição do tempo verbal. Antes do trecho supra citado, todos os verbos aparecem no presente do indicativo: A escola fica [..] Mariazinha faz [...] Mariazinha é [...] Mariazinha recebe [...] os seus estão velhos [...] A professora gosta [...] Ela tem [...] e está mudando [...] o que a torna [...] Os pais de Mariazinha também gostam [...] e está na lista ...
Os verbos, por assim se apresentarem, indicam modalidade categórica, de onde decorre a afirmação de que Mariazinha está na lista dos que vão ser alfabetizados este ano. Além disso, a semântica dos verbos configura um ambiente empreendedor: fica, faz, é, recebe, tem, está mudando, torna, está na lista; e afetuoso: estão velhos, gosta, também gostam.
Segundo Benveniste (1976), essa é a instância do discurso, ou, no dizer de Weinrich (apud Fávero & Koch, 1983), do mundo comentado, em que o sujeito enunciador se implica no dizer, criando com ele uma relação de tensão. Tem-se o texto apresentado como um exercício de redação, em que um sujeito se predispõe a elaborar uma narrativa para contar a história de uma menina chamada Mariazinha, de lindos olhos castanhos, cabelos crespos e dentes em fase de mudança, com um único defeito: ser muito pobre (isso é defeito, professora?). A pergunta destaca a presença do sujeito na e pela constituição discursiva.
Quando da mudança de uso temporal do verbo estar para o pretérito imperfeito, o tempo passado passa a predominar: aconteceu, veio, fez, incomodava, disse, sorriu, saiu, abaixou-se, consertava etc. A modalidade presente é a objetiva, ou seja, um ponto de intersecção entre o discurso e as representações sociais. Mariazinha é vítima da pobreza, da exclusão, do descaso. É mais fácil receber cinqüenta cruzeiros de flores do que trinta reais para um par de sapatos.
Para Benveniste (id.), essa é a instância da história, ou, para Weinrich (id.), do mundo narrado, em que o sujeito enunciador se retira de cena e deixa a trama se desenrolar, sem interferências explícitas. É claro que a organização, a seqüenciação, o desenrolar dos fatos seguem um planejamento que tem por finalidade cumprir uma certa intencionalidade. Mas essa intencionalidade ganhará aceitabilidade por parte do leitor se ele se sentir responsável pelo percurso de construção dos efeitos de sentido o discurso. O leitor passa a ser o sujeito do discurso, e o mundo comentado, assim, passa a lhe pertencer. Isso faz com que seja-lhe imputada a elaboração da lição de vida ou da lição de moral que a narrativa traz.
Essas considerações iniciais servem para estabelecer os procedimentos de análise adotados, para melhor se apreciarem as peculiaridades lingüísticas e narrativas do conto que segue.
Exercício de redação
Maria fez sete anos e foi matriculada na escola.
A escola fica bastante longe de casa, e Mariazinha faz uma longa caminhada, todas as manhãs, carregando uma ardósia, um lápis, uma cartilha e um caderno.
O único defeito de Mariazinha é ser muito pobre (Isso é defeito, professora?).
Por ser muito pobre, a Mariazinha recebe merenda e uniforme da escola. Se a escola pudesse, dava-lhe um par de sapatos, porque os seus estão muito velhos.
A professora gosta muito de Mariazinha. Ela tem lindos olhos castanhos, cabelos crespos, e está mudando os dentes, o que a torna muito engraçada. Os pais de Mariazinha também gostam muito da escola, porque, além de ganhar uniforme e merenda, a menina aprendeu várias letras em três meses e está na lista dos que vão ser alfabetizados este ano.
Está, não - estava: porque aconteceu uma coisa muito triste.
Ontem, Mariazinha veio para a escola, como de costume, acompanhada por uma vizinha que traz, todos os dias, várias crianças.
Mariazinha estava muito animada. Fez um exercício muito caprichado.
Apenas uma coisa a incomodava: é que a presilha do sapato estava descosida e o sapato saía do pé.
A professora ainda disse: "Você vai ganhar um par de sapatos, Mariazinha". E ela sorriu, encantada, (um par de sapatos custa trinta cruzeiros).
Quando Mariazinha saia da escola, as outras crianças, suas companheiras, foram andando com o portador; mas, como o sapato saia do pé, Mariazinha baixou-se à porta da escola para ver se consertava ainda a presilha.
Foi quando o policial apitou. O automóvel não pôde parar, deu uma volta pela rua, apanhou Mariazinha, jogou-lhe para longe a ardósia, o lápis, o caderno e a cartilha. Mariazinha morreu no hospital.
O motorista disse que a culpa foi do guarda, que apitou quando o automóvel já vinha perto demais.
O guarda disse que a culpa foi do motorista, porque vinha com excesso e velocidade.
Os vizinhos disseram que a culpa foi da rua, porque não tem sinal de parada, que se aviste de longe.
As outras crianças disseram que a culpa foi de Mariazinha, porque ficou sentada na pedra, em lugar de ir logo para casa.
Os pais de Mariazinha não disseram nada, porque ficaram como loucos, sem entender como é que a menina podia estar morta.
A professora de Mariazinha achou que a culpa foi da presilha do sapato, que estava descosida, e não a deixava andar. E dizia, inconsolável: "Por que não lhe dei logo um par de sapatos? Por que não consertei aquela presilha? Por que não temos uma agulha grossa, para dar um ponto no sapato? Por que não acreditamos que as pequenas coisas podem ter grandes efeitos?"
Mas houve outras pessoas que acharam que o que tem de acontecer tem muita força, e que o sapato tinha de estar descosido, para Mariazinha morrer daquela maneira.
A escola é muito pobre. Não pode distribuir calçado.
As crianças levaram flores para Mariazinha morta. Custaram cinqüenta cruzeiros.
(São Paulo, Folha da Manhã, 08 de fevereiro de 1951)
Maria é uma personagem que fez sete anos e, inicialmente, por estar nessa faixa etária, passa a ser identificada como Mariazinha. A menina, por estar em idade escolar, é matriculada na escola que fica bastante longe de casa, mas isso não lhe causa problema, pois ela faz uma longa caminhada todas as manhãs, carregando uma ardósia, um lápis, uma cartilha e um caderno, condição e materiais necessários para ser alfabetizada. Em contrapartida, a escola lhe oferece merenda, uniforme e várias letras para aprender. Esta é a situação inicial, assim esquematizada:
aux.: a escola fornecer merenda,
uniforme e várias letras
Mariazinha para aprender ir à escola e ser alfabetizada
Associada a isso está a condição sócio-econômica da menina que lhe traça as características necessárias para a criação do conflito. A designação no diminutivo, Mariazinha, também apresenta, para a menina, uma condição de vida que inspira cuidados e preocupação, por ser muito pobre, morar muito longe da escola e fazer todo o percurso com sapatos velhos com presilha descosida. Esta é o motivo de toda a tragédia que marca o conflito narrativo. Apenas uma coisa a incomodava: é que a presilha do sapato estava descosida e o sapato saía do pé. [...] (um par de sapatos custa trinta cruzeiros) e Mariazinha é muito pobre. O percurso narrativo com o opositor que provoca o conflito fica assim esquematizado:
aux.: a escola fornecer merenda,
uniforme e várias letras
Mariazinha para aprender ir à escola e ser alfabetizada
opos.: a presilha descosida que
não prendia o sapato e dificultava
a caminhada para a escola
A menina tenta solucionar o problema: Mariazinha abaixou-se à porta da escola para ver se consertava ainda uma vez a presilha. Essa tentativa de resolver o que causava o conflito, traz-lhe um fim trágico: O automóvel não pôde parar, deu uma volta pela rua, apanhou Mariazinha, jogou-lhe para longe a ardósia, o lápis, o caderno e a cartilha. Mariazinha morreu no hospital. O ocorrido separa Mariazinha do material escolar necessário para a alfabetização, por isso, a menina não está mais na lista dos que vão ser alfabetizados, e sim estava.
Uma tragédia não provoca só a comoção geral, traz também um senso coletivo de julgamento e decisão, principalmente sobre o responsável, para que todos possam se eximir de qualquer culpa. Por meio da isenção, a narrativa vai se encaminhando para o desfecho, cada um se preservando como pode, até o fechamento em que o acontecido é atribuído à própria força do destino: ... o que tem de acontecer tem muita força, e que o sapato tinha de estar descosido, para Mariazinha morrer daquela maneira.
Interessante é notar a observação de que a escola é muito pobre e não pode distribuir calçado que coincide com a condição de Mariazinha que também é muito pobre e não tem calçado (um par de sapatos custa trinta cruzeiros), o que se torna bastante paradoxal, considerando-se que As crianças levaram flores para Mariazinha morta. Custaram cinqüenta cruzeiros.
Essas considerações vêm bem ao encontro das indagações da professora, principalmente a que destaca que as pequenas coisas podem ter grandes efeitos. A presilha descosida, o sapato saindo do pé, trinta cruzeiros - o preço de um par de sapatos (bem mais barato que flores que são bastante efêmeras). Tem-se, portanto, a conformação de uma situação e de uma proposição temática resumidas, centralizadas na Mariazinha e na presilha descosida.
Chega-se, assim, a um desfecho de fracasso, uma vez que só as grandes coisas merecem especial deferência, não uma presilha descosida de um sapato velho de uma criança muito pobre que, morta ou viva, não faz a menor diferença, por ser filha do descaso e da exclusão. Só aqueles que lhe tiveram amor mensuram a grandeza do acontecimento: os pais que ficaram feitos loucos sem entender, e a professora que ficou inconsolável. As crianças... levaram flores que custaram cinqüenta cruzeiros.
Bibliografia
BENVENISTE, E. Problemas de lingüística geral. São Paulo: Nacional, 1976.
FÁVERO, L. & KOCH, I. Lingüística textual: introdução. São Paulo: Cortez, 1983.
GOTLIB, N. Teoria do conto.São Paulo: Ática, 1985.
GREIMAS, A. Semântica estrutural. São Paulo: Cultrix, 1976.
MEIRELES, C. Obra em prosa - volume 1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.
____________ Obra poética - volume único.Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987.
PROPP, V. Morfologia do conto. Lisboa: Veja, 1978.
SAYEG-SIQUEIRA, J.Organização textual da narrativa. 3 ed. São Paulo: Selinunte, 1992
João Hilton Sayeg de Siqueira Professor Doutor do Programa de Estudos Pós-graduados em Língua Portuguesa da PUCSP
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