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Home >> Revista Cultura Crítica >> 05, contos, 1º semestre de 2007 >> A página-palco de Entrevista, em Contos Reunidos de Rubem Fonseca

A página-palco de Entrevista, em Contos Reunidos de Rubem Fonseca

APROPUC-SP 04.02.09

 

                Cada escritor, em seu tempo, tem os próprios modos de relatar histórias e fatos no trabalho de ficção, desde que, em perspectiva, os testemunhe  observar, investigar e testemunhar. Estes atos têm marcado também o papel do narrador desde tempos imemoriais. Se o ato de narrar findou-se com a perda da aura, categoria central da obra de arte, agora, a experiência toma-lhe o lugar e dele se apossa, eliminando as distâncias pela troca de dimensões novas dadas ao tempo e espaço. Será o narrador do futuro aquele a contribuir para que a experiência ficcional rompa as fronteiras entre o passado e o presente, na superfície de uma obra de arte, a pôr em ruína o que ela tem sido através da própria história, e mostrar o que deveria ter sido: "Neste processo de mostrar o outro do fator de divergência descobre-se a força da censura e o grito do censurado". (BENJAMIN, 1976, p. 35)

 

            Da página escrita, a leitura se aproxima para recolher as diferenças da forma, como um centro de conhecimento entregue à reflexão dinamizada pela observação do autor, em reiterada estruturação e desestruturação. Uma nova relação entre a literatura e a crítica instaura-se e é entregue ao investigador, pretensamente científico, em busca de um outro ideal a ser levantado da objetividade analítica da obra. O que se procura é o resgate ilusório da totalização da obra, porém, sempre adiada pela leitura crítica. Todavia, ambas se nutrem entre si, nos descaminhos do método, à luz dos processos ficcionais, nos quais a tecnologia dos tempos hipermodernos passa a exercer um papel análogo ao do narrador: desfazer as dicotomias entre o vivido, o sonhado e o imaginado, tomado como um sujeito mergulhado na multiplicidade dos códigos e das linguagens em migração na superfície do texto contemporâneo. Um desfazer de utopias do passado literário e da arte.

 

            Estamos apresentando o conto Entrevista (1975), que se integra aos Contos Reunidos de Rubem Fonseca (2000), na forma de uma revisão estética de superfície-página conto  a página-palco. Rubem Fonseca revela um modelo inventivo de fazer contos, no contraponto do literário e não-literário, da realidade à ficção, um outro modo de olhar a sua realidade, nas fissuras existentes entre autor e narrador,  em que funções são trocadas nas dobraduras do corpo textual recortado. "No caso dos contos, a prevalência da primeira pessoa afirma sempre a condição do olhar humano, coloca em evidência esse olhar que recorta o real. O sentido resulta do recorte, nasce do impacto operado pelo gesto de recortar". (FIGUEIREDO, 2003, p. 29)

 

            A cena narrativa, no complexo sistema literário do conto Entrevista, denota a co-existência de linguagens entre-vistas, assim como de várias enunciações discursivas, a conferirem as ilusões da arte da imitação à história relatada.  Sua meta é alcançar a institucional literariedade da narrativa, porém, não mais pela opacidade da linguagem, porém, pelo exercício da subversão das assimetrias dramáticas virtuais da dialogia em trabalho ficcional, então privada da outridade. Essa inversão se deve à estranheza resultante do hibridismo presente nos diálogos entrelaçados aos Eus dos suportes tecnológicos, pelos quais a narrativa visa a preencher o espaço subjetivo do corpo textual, para torná-lo memorável na interação de um outro destino a ser remodelado pela gramática do conto contemporâneo.

 

            Entretanto, se no corpo textual a alteridade é reclamada,  no intertextual, novas concordâncias são efetivadas pela ausência que se faz presença, experimentalmente, de modo multidimensional, com misturas de linguagem, textos, imagens, ruídos e vozes digitais peculiares à multimídia. Arquiteturas hipertextuais ocupam o espaço e o recortam pelo discurso citado, pela paródia, estilizações feitas de fragmentos de vozes condutoras de uma estética plurílinguística ou arquitetural. Tudo culmina em coexistência na contemporaneidade, para Pierre Lévy:

 

"Esta coexistência é geradora de tensão, pois configurações subjetivas novas são exigidas num contexto, no qual antigas formas de conhecer subsistem. Há uma fricção entre os estratos históricos e os devires, entre os regimes constituídos e as exigências impostas pelos novos fluxos". (LÉVY, 2000, p. 44).

 

            Em Entrevista, múltiplos narradores (Eus) fingem no desdobramento do discurso: mostram o que relatam (showing); narram as falas ao desfazer o tempo linear no corpo do relato plural. Na simulação da pesquisa de opinião, a entrevista jornalística sobrepõe planos discursivos (monólogos e diálogos) sob a tensão das personagens cifradas (H-M), no cenário da página-palco: se o homem (H) inicia o diálogo, a mulher (M) se submete, e vice versa, tendo por condutor, o ausente entrevistador. A pergunta e a resposta recebem funções regenciais distintas como palavra, que, por restrição, agora tem o direito de ser resposta simplesmente ou elo discursivo. Como conseqüência, projeta-se a neutralização do par comum narração-descrição pela reprogramação dada pelos códigos oral, visual, verbal, virtual à prática metalingüística da escritura. Se a história relatada dissimula sua intenção, a voz passa a compor a gramática da língua literária nas marcas da literariedade, em dupla cena teatral e jornalística - uma radiografia de espaços operativos em discursividades a ser aprendida.

           

Todavia, na percepção de tais aspectos finos e variados, há uma aprendizagem poética, cheia de matéria fluida e sem representação de signos externos. Isso ocorre por táticas locais do autor, em função de um refinamento sensorial, não por regras gerais. Tudo deve ser reinventado. "Há uma combinação de necessidade e incerteza no processo de decisão e escolha dos caminhos a serem percorridos". (LÉVY, 2000, p. 47)

 

Em Entrevista, o telefone concretiza o corpo da voz, pela via perceptiva e sensorial, à distância, em um outro entorno ecológico do Eu. Corpo e voz problematizam o sentido da página-cena do conto por meio de recursos e suportes eletrônicos, estranhas estruturas híbridas, sensoriais e alineares do texto em grafismos dialógicos e letras corporificadas. Configurações hipermidiáticas assomam por interfaces um tempo-espaço virtual: dilatam-no, rompem-no, rearticulam-no à memória na exterioridade com outro corpo Ser. A narrativa é relato citado desdobrado pela mediação do recortado diálogo e pela ausência de um narrador, agora destituído de sua autoridade discursiva. Surgimento de um outro modo de narrar e ler a realidade de um cenário entre o claro e o escuro, o presente e o ausente - elos de um corpo-espaço-tempo social, plurilingüismo de Eus.

 

H - Sei continua.

H - Você fugiu gritando por socorro. Continue.

H - Continue. (p. 445)

                          

            O diálogo passa a sedimentar, em Entrevista, uma estrutura entregue à decifração e às diagramações de um narrar suspenso, em tempo efêmero, pela atitude de um espectador, cuja ação se espetaculariza sob a assistência do narrador, sua mera testemunha. É o dialogo que dá o efeito de verdade e realidade ao conto, e o cenário apenas promove a integração passado-presente-futuro, em presentidade intemporal.  Que atitude poética é essa que se faz  arquiteXtura significante em que a voz se perde na escritura? O que está em jogo é a autoria, no afirmar de Figueiredo:

"... Winner/Landers dirá:´se tivermos que julgar um homem por um único ato, e se pudéssemos escolher esse ato, deveríamos olhar a maneira como ele se olha no espelho´, p. 168, apud FIGUEIREDO, 2003, p. 68). O sentido aniquilador do tempo atinge o código literário e também possíveis autorias, em favor do jornalístico análogo à manchete dramática. O olhar observador reportado assume a autoria poética do drama:

 

M - Eu me tranquei dentro do quarto, enquanto meu marido quebrava todos os móveis da casa. Depois ele arrombou a porta do quarto e me jogou no chão e foi me arrastando pelo chão enquanto me dava pontapés na barriga. Ficou uma mancha de sangue no chão, do sangue que saiu da minha barriga. Perdi nosso filho" (p. 445)

 

 O relato da entrevista faz-se de falas hesitantes, vagas, metafóricas, ilusórias. No telefone, o espaço conversa; o tempo fala, em interação e interdisciplinaridade, num discurso que se presta à documentação de uma citação da entrevista em assimetria: uma condição dada ao conto sob a ação das formas técnicas de um contexto semiótico do código escrito e oral adotadas pelo autor Rubem Fonseca. A entrevista pode ser considerada um dispositivo que se desdobra em muitos outros e em muitas proporções, no dizer de Bueno (2002, p. 127) A assimetria é mais que condição estrutural:

 

Na assimetria, está implícita uma negação, negação de simetria, que no grego quer dizer ´proporção justa´. Há um par atividade/passividade que fica indicado na terminalidade dos vocábulos entrevista-dor e entrevista-do. Um inicia o movimento, desencadeia o processo ao qual o outro, em princípio, se submete". (BUENO, 2002, p. 22)

 

São estas formas de reprodução subjetiva do discurso, que dependem das formas de modos de produção, no dizer de Kristeva, 1974, p. 64 (apud KOTHE, 1976, p. 25): "Todo texto se constrói, como um mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto". Absorção e transformação do texto que se multiplica e se modifica ao mesclar-se com outros processos de signos da era contemporânea da linguagem da virtualidade: telefone, gravador, softwares, manchetes, telejornais, hipertextos, oferecendo novos estatutos de registro e variantes de leitura para o texto escrito. Cada código atua por seu próprio jogo de diferenças, seu próprio método, reclamando do leitor- performer, outras habilidades perceptivas, sensoriais e cognitivas, ao produzir novos efeitos e respostas sobre ele, não mais como leitor contemplativo, dirigido e passivo, mas como leitor movente e dinâmico: sai da leitura cumulativa para a leitura dos espaços da virtualidade.  Leitura de interpretações sígnicas de sistemas de linguagem em representação recriada.

 

Efeitos e formas interdependem no contexto da entrevista, na página-palco, entre diálogos que testemunham personagens cifradas, anônimas, assimétricas, fora de cena. A recorrência do entrevistador-narrador é feita para reforçar as conexões internas do discurso de regência (Genette, 1985, p. 254), por meio de marcadores textuais e pelo contato ratificado pelas funções fática ou conativa; entre o dever da resposta solicitada e a pergunta; não há afrouxamento entre uma ação e outra. Há marcas da intensidade do efeito pretendido e a duração, que, segundo Poe, "em certo grau é exigido, absolutamente, para a produção de qualquer efeito" (POE, 1981, p. 104).

 

O tom do relato é um performer também, ora tende para o dramático, ora para o risível, em Entrevista. A ironia do performer tensiona a ação desestabilizada pelo discurso lacunar, em cortes entre-vistos da metanarrativa. O riso passa de conceito a um mero marcador conversacional performático e mesmo um configurador de metalinguagens. O risível tem a função de atribuir coesão e coerência ao relato falado, distorcido pela imagem das máscaras. Entre a arte da oralidade e a teatral, rompem-se as fronteiras da linguagem narrativa e poética; o espectador é um outro leitor implícito, um performer.

 

Em Entrevista, uma sobreposição de três planos temporais, presente, passado e futuro, é adiada por partículas frasais  "depois eu digo", "continue", "demorei muito", "cheguei", "parece que", "aqui e ai"; nelas a presentidade confere a perspectiva semântica do tempo ao texto. Ela destrói a duração temporal, torna o tempo irreversível, deseja a mudança do literário para o cotidiano e da massificação pelo código performático (GLUSBERG, 2003, p. 111): "o performer mede seu próprio tempo, seu tempo consciente, através da sensitividade do corpo humano. Por meio desse tempo da consciência pode alcançar o outro". Ao mostrar o relato, segundo Glusberg, o performer integra o tempo à história. Aniquila o tempo sensível para o tempo do simulacro, do devir, mais em tempo de barbárie, ameaçado entre presenças de personagens de sombra e luz, entre a memória e o esquecimento de um texto movente: "Toda presença é precária, ameaçada. Minha própria presença para mim é tão ameaçada como a presença do mundo em mim, e minha presença no mundo". (ZUMTHOR, 2000, p. 74).

 

O conto Entrevista de Rubem Fonseca é um fazer de espaços criados que tanto recua, quanto avança historicamente, quanto significativamente, modificando ritmos e rumos em busca de complementação e harmonia, um necessita do outro; transitam entre si, objetos em cenas e, nestas, a nova experiência de relatar pela inserção de tempos no mesmo lapso de tempo dos relógios. É o espaço movimento que permite a compreensão do futuro a partir do presente carnavalizado pela multidisciplinaridade e pelo cruzamento dos meios e modos diferenciados de arquitetarem narrativas. Tanto o tempo quanto o espaço são constitutivos de um real além de um horizonte construído por aproximações sucessivas, no afirmar de Sawaia: "Assim tanto o espaço temporalizado como o tempo espacializado, isolados, contêm, cada um, apenas a referência à verdade em contínua transição. É do cruzamento de ambos que se pode avançar mais na aproximação dessa prática da realidade" (SAWAIA, 1986, p. 102, apud SANTOS, Milton, 1986).

 

O conto de Rubem Fonseca é fonte de subversão axiológica da ficção, anamorfoses em página-espetáculo de oralidades, alteridades, vozes virtuais dialogando no corpo textual cifrado e remodelado pela ilusão do estável, como uma arte da ficção performática. Nela o tempo se retrai em favor do movimento do espaço, que interpreta o espaço temporalizado. O tempo da mídia é, portanto, reinventado, tempo interventor que gera cortes no espaço movimento, alterando e modificando ritmos e rumos de uma leitura performática da página-palco. São estes rumos alineares e atemporais que promovem novas configurações e corporificações do Eu pela relação continuidade/descontinuidade, simetrias/assimetrias  elaboram uma outra lógica do sentido dado ao conto literário, pondo em cena uma "gramática dos objetos" em substituição à gramática textual  é a prova da relativização de um tempo único ou de um efeito único do conto poeano no conto contemporâneo de Rubem Fonseca.  


Bibliografia

BUENO, Cleuza Maria de Oliveira. Entrevista: espaço de construção subjetiva. Porto Alegre: PUCRS, 2002.

COHEN, Renato. Performance como linguagem: criação de um tempo-espaço de experimentação. São Paulo: Perspectiva/Edusp, 1989.

FIGUEIREDO, Vera Follain de. Os Crimes do texto. Belo Horizonte: UFMG, 2003.

FONSECA, Rubem, Contos Reunidos. (Org. Bóris Schnaiderman). São Paulo: Companhia  Das  Letras, 2000.

GENETTE, Gerard. Discurso da narrativa. Tradução de Fernando Cabral Martins. 3º edição. Lisboa:Veja, 1995.

GOTLIB, Nádia. Teoria do Conto. São Paulo: Ática, 2003.

GLUSBERG, Jorge. A Arte da Performance. São Paulo: Perspectiva, 2003.

KOTHE, Flávio R. Para Ler Benjamin. Rio de Janeiro:  F. Alves, 1976.

LÉVY, Pierre. Ciberespaço: um hipertexto com Pierre Lévy. (Orgs. PELLANDA, Nize Maria e PELLANDA, Eduardo Campos). Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000.

PIGLIA, Ricardo. Formas Breves. São Paulo: Companhia  Das Letras, 2004.

POE, Edgar Allan. Filosofia da Composição. Rio de Janeiro: Aguilar, 1981.

POESANTAELLA, Lucia. Navegar no Ciberespaço. São Paulo: Paulus, 2004.

SANTOS, Milton e SOUZA, Maria Adélia A. de Souza (Coords.). O Espaço Interdisciplinar. São Paulo: Nobel, 1986.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. Tradução de Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. São Paulo: Educ, 2000.


Maria José Palo Departamento de Arte PUC-SP

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