Do recente milagre dos passáros: Um conto de Jorge Amado
Toda a natureza está cheia de milagres. Não nos assombramos com eles, porque estamos habituados a vê-los; sua repetição nos apaga aos nossos olhos calejados. É por isto que Deus nos reserva milagres inesperados, além dos que se operam no curso da natureza, para que eles nos espantem pela surpresa".
Santo Agostinho
Para Jorge Amado escrever era transmitir vida. "Nenhum crítico ensina ninguém a escrever", dizia ele com convicção. Transmitir vida significava, sem dúvida, a possibilidade de pôr o mundo de cabeça para baixo, tornando-o mais humano e mais alegre.
Motivado sempre pela idéia de uma espécie de utopia humana, onde as hierarquias fossem abolidas e os contrários convivessem harmonicamente num cenário idealizado, Jorge Amado, a meu ver, ultrapassa a proposta dos chamados romancistas de 30, cuja meta era produzir ficção a partir da observação crítica dos diferentes aspectos da realidade regional, cada autor focalizando sua específica região, produzindo romances carregados de simpatia pelos oprimidos e de denúncia contra as estruturas opressoras. Jorge Amado também inscreveu sua obra no regionalismo, recriando em seus livros a paisagem humana e social da Bahia, com seus múltiplos e multifacetados personagens, desde as pessoas humildes das ruas de Salvador até os coronéis das fazendas de cacau. Num diálogo franco e sementeiro com a vasta tradição popular - seus mitos e seu diversificado elenco de personagens -, o escritor projetou-se no amplo painel do regionalismo brasileiro, fazendo uso da rica e variada simbologia da cultura baiana, conferindo a sua terra o estatuto de microcosmo do universo.
Jorge Amado nunca esteve realmente preocupado com grandes inovações formais. Sua meta era antes o uso de uma linguagem marcada pela oralidade, em que o coloquial se torna o grande traço de distinção, capaz de recuperar as diferentes nuances da fala do povo. Surge, em decorrência disto, uma literatura mais próxima das camadas populares.
O homem e as várias dimensões e facetas do humano - a própria "carnadura do mundo" - compõem a preocupação constante desse escritor que, a meu ver, tem um projeto consciente e consistente de produção literária. A obra de Amado é, sem dúvida, uma obra programática de pesquisa e reflexão sobre os fundamentos culturais de sua terra, integrando-os como estrutura criativa sempre aberta, com a finalidade de intervir na realidade, representando-a de forma ao mesmo tempo recriadora e conscientizadora.
Na obra amadiana, portanto, se evidencia, claramente, uma proposta de renovação da linguagem literária, espaço onde se fazem ouvir as falas articuladas de um vasto painel individual e social.
O grande tema da literatura amadiana é a liberdade, entendida aqui no seu sentido mais amplo, uma espécie de palavra-chave que se insinua todo o tempo nas linhas e entrelinhas da obra do referido autor, atravessando-a. Não é por acaso que seus personagens buscam incessantemente esse espaço, - o da liberdade -, palco de alegorias e ousadas utopias. Não teve Quincas Berro D'Água misteriosas mortes? Não continuou D. Flor, viúva, a ter ardentes encontros amorosos com seu Vadinho já morto? Não atendeu Guma ao chamado de Yemanjá? No texto amadiano, a liberdade é concebida tanto no plano individual como no plano social. Esgarçado no texto de Amado, o traço que distingue o real do irreal como que se anula, instaurando-se uma nova verdade, crível, verossímel, ideal, que nada tem a ver com a verdades históricas.
A função simbolizadora da imaginação não pretende uma verdade científica, mas uma verdade contida nas percepções. O imaginário, espaço que abriga a imaginação, delineia, em oposição a uma verdade científica, uma verdade de ordem perceptual, que não deixa de ser uma verdade também. O envolvente palco caleidoscópico do imaginário, onde se encena em variados matizes a história coletiva ou individual, corresponde à consciência imaginante, ou seja, àquela que imagina e que é capaz sempre, no caso de Amado, de transmutar em ficção tudo aquilo que toca. Deste modo, o escritor baiano, com seus ocelos de pavão, direcionou seus múltiplos olhares para espaços de reflexão e recriação iluminadoras: as narrativas curtas ou longas.
Transgressor às avessas, lá nos escondidos de proibidos territórios, iniciado nos mistérios ritualísticos, - por isso Ogan -, Amado andarilhava da vida à ficção, farejando todas as coisas "miúdas e grandes". Ao pôr tudo em narrativa, ia construindo também a memória do seu povo, fazendo história, mas não aquela história de simples suporte documental que sobrecarrega o texto com o peso das certezas, e sim aquela originada de um discurso livre e leve, todo feito de incertezas possíveis e insights certeiros.
Também nesse gênero conciso, o do conto, em que cada fragmento é tocado, apalpado, sentido, e exala sopro de vida/ação por sobre a narrativa, Jorge Amado se instalou, senhor de histórias contadas e recontadas, andarilho de espaços diversos, mesmo que as narrativas curtas não constituissem espaços de "vastos horizontes", ou seja, domínios mais habitualmente freqüentados por sua obra ficcional. No jogo de esconde-esconde, entre os dados do real concreto e aqueles pertencentes aos campos do imaginário, estabelece, a seu modo, um diálogo fecundo que envolve aspectos circunstanciais e rotineiros da vida, e as imagens fantasiosas e iluminadoras gestadas pela ficção.
Amado de mil olhos, em sua caleidoscópica mirada, não foi somente o habilíssimo captador da alma humana, mas o antenado militante e pensador, atento às potencialidades significativas das pequenas proezas do homem comum. Sim, esse pescador de essências teve a narrativa como um veículo de difusão de suas idéias, e exerceu essa função de narrador, utilizando-se de textos longos e curtos, com o intuito de tecer a história do homem de seu tempo e de sua região. Textos que, mesmo assumindo fatos e feitos corriqueiros e de pequena monta, acabam por ultrapassar os limites acanhados da história e da vida humanas, por força do poder transfigurador da ficção. E Amado é assim: revoluciona e transforma a realidade, ao transformar a vida e a história em espaços de encantamento, revelação e libertação.
Como exemplo de um exercício feliz de exaltação da liberdade na e pela ficção, parece-me oportuno revisitar o pequeno conto O milagre dos pássaros ou ... do recente milagre dos pássaros acontecido em terras de Alagoas, nas ribanceiras do rio São Francisco (Rio de Janeiro: Record, 1997), que veio à lume em requintada edição, com capa e sobre-capa forradas de tecido de cor vermelha, em formato pequeno, ostentando bela ilustração de Floriano Teixeira.
Bem humorado desde o início, esse texto de Amado trata, em tom de blague, da história de Ubaldo Capadócio, um literato de cordel, trovador popular, nômade, andante de feira em feira, de viola e maleta cheia de folhetos, sedutor inveterado e incorrigível, com três famílias constituídas em diferentes lugares, de palavra fácil e convincente - "a voz rouquenha lavada no gole da cachaça" (AMADO: 1997, 16) -, que acabou sendo salvo da morte por um inesperado e risível milagre.
Após inúmeras e habituais investidas amorosas em lar alheio, celebradas em prosa e verso pelo sertão afora, Ubaldo Capadócio é flagrado, dessa vez, em companhia de Sabô, espécie de demônio de saias, solto em Piranhas, - "o andar de dança, a bunda em despropósito, um abismo, as covas das faces, os lábios ..." (Idem,27) e esposa de Ezequiel, capitão/pistoleiro.
Surpreendida em flagrante de tórrida paixão com a chegada repentina do marido, Sabô ri de mansinho e se justifica, pois sabia das desculpas, já que se fazia sempre de inocente "pomba sem fel", casta esposa seduzida, vítima freqüente de tentativas de sedução e estupro, a exigir vingança de sua inocência ultrajada. Ubaldo, por sua vez, julga-se perdido e é dado mesmo como morto por antecipação, considerada a pontaria certeira de Ezequiel, pistoleiro afamado nos sertões nordestinos. Só cabe ao poeta, cultor de trovas e mulheres, fugir do marido matador, também hábil artista, mas no manuseio de pistolas e armas brancas. E então:
no meio do caminho, a feira dos pássaros, quantidade de gaiolas umas sobre as outras, fechava a passagem. Na velocidade e no medo, não pôde Ubaldo desviar-se, bateu-se contra o muro de gaiolas e viram-se os pássaros, dezenas e dezenas, libertados, em revoada. Juntaram-se todos, incontáveis, das pombas-rolas aos sabiás, dos sofrês aos cardeais, dos canários às cuiúbas, e pela leve camisola suspenderam no ar Ubaldo Capadócio, levando-o pelos céus. À frente do bando iam doze araras abrindo caminho através das nuvens, conduzindo o trovador, leve como a poesia (Idem, 35/36).
Na fuga, Ubaldo Capadócio aporta em terreno sagrado: os pássaros o conduzem, sobrevoando as Alagoas e cruzando Sergipe, para depositá-lo num convento de freiras "que o acolheram com cortesia e não lhe fizeram perguntas" (Idem,37). Protegido desse modo por musas passarinheiras, álacres e leves, Ubaldo Capadócio, poeta/contador/cantador, experimenta, no milagre de sua salvação, a magia transfiguradora da poesia. Magia que celebra a utopia da liberdade; milagre que vence a morte. O poeta alado, sonhador e movente, salvo pelas asas da imaginação e da paixão, modifica a ordem amordaçante do mundo, e é recebido como deus/herói pícaro, numa espécie de olimpo conventual, que lembra veladamente a ilha dos amores camoniana, por ninfas/freiras benévolas. O matador, por sua vez, estático, imóvel, sem asas, permanece preso à terra, como espantalho/guardião de uma ordem desumana, negadora da poesia, do sonho, da vida, da liberdade e do deslimite fecundo das incertezas, reduzido apenas, a partir de suas galhadas, a produtor infecundo de souvenirs:
Lindolfo Ezequiel ficou ali plantado em meio à feira, onde se encontra até hoje, convertido em magnífico pé de chifres, chifrizeiro mais frondoso do Nordeste. Fornece aos artesãos matéria-prima para pentes, anéis objetos variados, copos de chifre para cachaça. (Idem,16)
Quanto a Sabô, Vênus sensual e sem poesia, passou, de imediato, para a proteção do coronel Jarde Ramalho, novo dono de sua fingida inocência, que a tudo assistira maravilhado: briga e milagre.
O pequeno conto, palco de todas estas peripécias, é um discurso que faz minar a sisudez da realidade, desconstruindo certezas já prontas.. E o leitor fica perplexo diante das mirabolantes artimanhas desse hábil criador/contador de histórias, que conjuga arte/vida, para pôr em xeque, com um piparote, as verdades codificadas.
Na história de Capadócio, o deus Eros é semente e sopro de vida. O erotismo se propõe como uma confusão de sentidos e faz vir à tona as vozes abafadas do corpo, obscurecidas pelo discurso socializado da mente. O corpo escreve e se inscreve nesse pequeno conto de linguagem incontinente. O enredo estimula, deixa o leitor intrigado, incomoda-o, pois o erótico inquieta e fascina, submete e exalta, cega e ilumina.
O erotismo é exclusivo do ser humano; é sexualidade socializada e transfigurada pela imaginação e vontade dos homens. A copulação frente a frente, na qual os dois participantes se olham nos olhos, é invenção humana e não é praticada por qualquer um dos outros mamíferos. Em sua raiz, o erotismo é sexo, natureza, e se levarmos em conta suas funções na sociedade, poderemos entendê-lo também como cultura. Uma das finalidades do erotismo é a de domar o sexo e inseri-lo na sociedade. Sem sexo não há procriação e não há sociedade, embora o sexo também seja uma ameaça ao equilíbrio social. Como o deus Pã (deus sexual de cascos de bode, que ao correr faz tremer o bosque e cujo hálito sacode as folhagens e provoca o delírio das fêmeas), é criação e destruição. É instinto: tremor, pânico, explosão vital. E é explosão vulcânica, capaz de sufocar a sociedade numa erupção de sangue e sêmen. O sexo é subversivo: ignora as classes e hierarquias, as artes e as ciências, o dia e a noite; dorme e só acorda para fornicar e voltar a dormir. Inventam-se regras para proteger a sociedade dos excessos sexuais. Regras essas que servem simultaneamente à sociedade (cultura) e à reprodução (natureza). Sem elas a família se desintegraria, e com ela toda a sociedade. Portanto, o amor se apresenta, quase sempre, como violação da ordem social: é um desafio aos costumes e às instituições da comunidade. O erotismo propicia ao mesmo tempo vida e morte, e tem por base uma ambigüidade desestabilizadora e anárquica: repressão/ permissão, sublimação/perversão.
Hábil malabarista da criação de histórias, Jorge Amado, jocosamente, com um sorriso irônico e aparentemente descompromissado, desvela ao leitor, no caso deste conto, seus sonhos inconfessados de anarquista e utopista.
E para reforçar ainda mais seu falso descompromisso, esperando deste modo seduzir o leitor e conquistar-lhe a adesão alegre e condescendente, procura, como de hábito, num jogo negaceante e visivelmente trapaceiro, invocar como testemunhas oculares dos eventos fantasiosos que engendra, pessoas reais, pertencentes a seu círculo de amigos e conhecidos. Neste conto, por exemplo, D. Heloisa Ramos, viúva do romancista Graciliano Ramos, aparece como personagem para dar veracidade à trama lúdica do milagre dos pássaros:
Assistido por uma visita ilustre, recebida com festas na cidade,
Dona Heloísa Ramos, viúva do mestre romancista. Não sendo
ela, como é público e notório, dada a mentiras, seu testemunho
por si só assegura a veracidade do caso (1997, 10).
Também o poeta Florisvaldo Matos e o artista plástico Calazans Neto são aqui citados, mas como testemunhas das habilidades de Ubaldo Capadócio, grande contador de casos, capaz de, com sua fala sedutora, dar vida até a um morto.
A linguagem do conto é de grande plasticidade. E tinha razão Glauber Rocha em considerar Jorge Amado um verdadeiro metteur-em-scène:
Quando Jorge Amado diz que é um contador de histórias e que o sucesso do seu trabalho nasce do povo, discordo dele. O sucesso nasce de sua capacidade de reinventar e girar seus personagens. Se eu falasse de um romancista "metteur-en-scène" ... (ROCHA: 1960, 1)
Preocupado com a fragilização da arte de narrar, Benjamin afirmava ser necessário, para qualquer contador de histórias, o dom e o domínio da arte de contar. (BENJAMIN: 1994, 200-1). Pleno de experiências de vida e de escrita, Jorge Amado deixou rastros e trilhas, seguindo os ensinamentos benjaminianos. Foi um mestre da arte do narrar, criador de personagens que escapam dos livros e ganham as ruas.
Para Jorge Amado, o personagem segue adiante de seu criador:
Há uma parte de seu ser que jamais se entrega, que persiste misterioso, desconhecido mesmo para o romancista. Há sempre um momento em que o personagem escapa das mãos e do comando do seu criador e vai sozinho em frente, fazendo o que bem quer e decide - seja homem, seja mulher. Aliás, para mim, a melhor prova de que o romance [o conto] se põe de pé é exatamente essa - quando o personagem torna-se independente do autor, anda com seus próprios pés, constrói ele próprio seu destino. (AMADO:2003,s/n).
E Ubaldo Capadócio é mais um exemplo desses personagens amadianas, livres e independentes da tirania de seu criador. O território de Ubaldo, poeta malandro e namorador, é o território do ar. No ar se purifica e no ar se redime de possíveis culpas; ao ar entrega seu corpo em busca de liberdade. Liberto, repousa em espaço sagrado, deixando para trás, definitivamente, um mundo de máscaras, repressão e conveniências. E renasce, ao saborear a Ambrósia libertadora do amor e da poesia.
Bibliografia
AMADO, Jorge. Do recente milagre dos pássaros. Rio de Janeiro: Record, 1997.
_____________. Carta a uma leitora sobre romance e personagem. Salvador: Casa de Palavras/FCJA, 2003.
BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
ROCHA, Glauber. Cravo e Canela (ou Jorge Amado diretor de cena). In: Diário de Notícias. Salvador: Suplemento do DN, 08/09 de maio de 1960.
Edilene Dias Matos Professora Doutora do departamento de Artes da PUC-SP
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