Na porta a placa: Osman Lins Professor de Literatura Brasileira
Osman? Osmar? De onde tinha vindo esse nome estranho? Seria possível que lá pros lados de Vitória de Santo Antão, teria o cartorário, como tantos por esses lugarezinhos do Brasil, trocado r por n? Não me lembro se algum dia comentou sobre isso. Esses estudantes do segundo ano do curso de Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marilia, instituto isolado da USP, entre os quais me incluía, não conheciam Osman, nem Nove novena, nem O fiel e a pedra, nem a Guerra do cansa cavalo, nem nada.
Chegou, assim, apresentado na sala por Nely Novaes Coelho, professora de Teoria Literária. Seus olhos azuis (ou verdes) inquietos olhavam a sala. Era o auditório da Faculdade, transformado em sala para abrigar 80 alunos no curso diurno. A faculdade aumentara o número de vagas em 1969, por exigência da reforma universitária de 68, por um lado, por outro, para aliviar a pressão dos alunos chamados excedentes, uma categoria desaparecida de estudantes. O aluno excedente teria sido aprovado no vestibular, mas sem vagas para ocupar. A ampliação das vagas aliviara um pouco a gritaria dos alunos, mas não trouxe com ela professores e espaços físicos. Osman veio para ensinar Literatura Brasileira em 1970 para 80 alunos nas tardes quentes e úmidas de verão, e nas tardes secas de vento sul agressivo, em Marília. Ali, naquele primeiro dia, ao lado de Nely, olhou para aquela multidão com muita preocupação. Confessaria depois que ficara nervoso, porque sabia escrever, ser escritor no espaço solitário de seu escritório. Sabia também lidar com papéis, pela experiência como funcionário do Banco do Brasil, mas nunca ensinara, não sabia ser professor, muito menos para 80 de uma vez. Poderia ensinar a escrever, como nos ensinou, ao mostrar, passo a passo o planejamento do Retábulo de Santa Joana Carolina, que escrevia naqueles e comentar Novena novena, escrito anos antes.
Tinha dificuldades em escolher o que ensinar e como ensinar. Sabia, dizia, escrever, mas ser professor causava-lhe angústias semanais, dores e suadouros. Escolheu, para começar o curso, um dos primeiros e principais escritores em Língua Portuguesa no Brasil: o português Padre Vieira. Por seus sermões, caminhamos juntos observando a beleza da linguagem, as construções literárias e os costumes do Brasil.
Osman usava o clássico avental docente, branco, até abaixo dos joelhos. Seus cabelos brancos, ralos, permaneciam delicada e obedientemente repousados sobre a sua cabeça, contornada por óculos finos, diferentes das armações negras, meio largas, usadas na época. Andava inquietamente de um lado para o outro, sobre o palco do auditório, fichas na mão, com as aulas cuidadosamente preparadas. Falava, consultava, falava, esforçando-se para tornar-se professor. Os alunos, entretanto, entendiam que faltava a ele o jogo de sala, o perfil típico de um professor universitário.
E por quais razões decidira dar aulas? Explicava, com certa indignação que vivera, e muito bem, como funcionário do Banco do Brasil, mas se cansara da burocracia que limitava sua criação e não se harmonizava com o seu ofício de escritor. Em Guerra sem testemunhas, lido por mim naqueles tempos, bradava contra o tipo de trabalho que não o permitia viver intensamente a sua vida com as palavras e contra os editores que pagavam míseros 10% sobre as vendas dos seus livros. A decisão em deixar o banco do Brasil, aposentado, assentara-se sobre o desejo de liberdade, mas não conseguia entender como o editor poderia ganhar muito, mas muito mais que o escritor. Guerra sem Testemunhas é o seu testemunho e seu legado contra essa situação.
Em uma das aulas, anunciou que precisava de um aluno que o ajudasse na organização de seus papéis, de suas publicações, de suas aulas. Necessitava de um monitor, que fosse voluntário, porque não havia bolsa para isso. Ávido leitor de escritores mortos, e amante da literatura, vi a oportunidade de conviver com um escritor brasileiro, além das paredes da sala de aula, no universo físico minúsculo de um cubículo, sua sala, com uma mesa pequena, e uma menor ainda, sobre a qual pulava, quando acionada pelas pontas de meus dedos, uma velha máquina de escrever Lexicon 80, forte, poderosa, resistente. A rapidez de meus dedos, treinados em outra Lexicon, no cartório em que trabalhava, encavalava as teclas que repicavam sobre o stêncil para reprodução à tinta das sínteses didáticas elaboradas por Osman. Ainda hoje, na minha sala da UNESP em Marília, tenho uma mesinha como aquela, e sobre ela, em absoluto repouso pela longevidade e pela falta de função, uma Lexikon semelhante. Sempre me pergunto, se não seria a mesma. Olho para ela, meio desconfiado, querendo acreditar na sua fidelidade a mim e a Osman.
Ali, na sala, entre as idas e vindas semanais para sua casa, em São Paulo, Osman confessava suas angústias diante dos alunos. Dagoberto, dizia, no diurno eu ensaio a aula, mas é no noturno que eu dou melhor a aula. Os alunos do diurno são minhas cobaias. Quando ensino pela primeira vez o assunto, vejo que a aula não sai bem. Depois, avalio, penso, repenso. Arrumo tudo o que estava desarrumado para as aulas da noite. Aí, sim, as aulas são melhores. Eu estou gostando de ser professor, mas o que sou mesmo é escritor. Embora assim dissesse, em Guerra sem testemunhas, edição de 1969, p.195 ,pergunta: Profissão? Será realmente o escritor, mesmo exercendo atividade subsidiária, um profissional? Que exprime ao certo esse termo corrente, reivindicado por uns, menosprezado por tantos? O conceito de profissão, hoje, liga-se à idéia de subsistência".
No final do ano, em 1970, Osman juntou os alunos, foi para a escadaria diante do prédio e posou para uma foto, talvez a única com alunos. Queria documentar sua experiência. Parecia mesmo um homem alegre querendo guardar as lembranças de seus pupilos, como um fã diante de seu ídolo. Por onde andam as cópias dessa foto?
O seu sotaque pernambucano de Vitória de Santo Antão dava à sua fala certo ar de inocência, de ingenuidade, de aprendiz de professor. Mas, paradoxalmente, suas palavras traziam sempre a indignação contra situações consideradas por ele injustificáveis. Esse tom de indignação acompanhava seus comentários sobre os feitos e os fatos da ditadura dos generais, embora não descuidasse de sua segurança ao escolher o interlocutor e o local: sua pequena sala e seu jovenzinho ajudante. Ruborizava-se, indignado, pela situação do país e pela falta de liberdade intelectual. Seus olhos verdes (ou azuis?) tomavam, nesses momentos, um brilho faiscante de setas e dardos, mas quando falava de Vieira, de Lima Barreto e de suas construções literárias, o brilho era outro: era do seduzido diante da palavra sedutora, agora como leitor e não como escritor, porque para ele, em Guerra sem testemunhas, p. 187, edição de 1969, o leitor, fruto da inteligência, da sensibilidade, do caráter, da concepção que tem o escritor do ofício e do mundo, é contemporâneo da gestação da obra; não nomeado, nela está presente, participa de sua natureza.
Não podia falar, nem podia escrever o que pensava. Na sua sala, os olhos azuis brilhavam coléricos quando comentava os acontecimentos políticos. Aqueles olhos azuis revelavam a ingenuidade do escrito e a rebeldia contra os poderosos da vida e das artes. Em Guerra sem testemunhas, denunciava a escravidão do autor nas garras do editor. Ganho 10%, Dagoberto, quando me pagam. Isso é roubo, bradava.
Minha memória me rouba o nome de uma de suas peças, lida dramaticamente em 1971, por um grupo de estudantes, entre os quais me incluía. Os diálogos permitiam que incluíssemos, improvisadamente, algumas frases dúbias, que poderiam ser compreendidas como críticas aos generais. O ano era perigoso, talvez o mais duro da era Médici. Em setembro desse ano, a diretoria tentara enquadrar duas classes de alunos de Letras no famigerado decreto 477. Na leitura da peça estavam professores e Osman. Ele não se importou pelos exageros cometidos pelos estudantes, porque não foram muitos, mas o clima ficou tenso, porque, supostamente, todos os diálogos seriam da peça de Osman. Mas não eram. Algumas frases ambíguas traziam apenas o desejo imenso de gritar contra as notícias das torturas e das mortes simuladas nos cruzamentos das ruas das capitais do país. E para isso, a peça de Osman foi usada. Mal qual foi a peça? Mistério das figuras de barro? Quero que a minha memória a devolva, mas não consigo recuperá-la..
Osman preocupava-se com os documentos que poderiam organizar sua memória. Dava-me uns trocados para recortar comentários sobre e suas fotos publicadas em jornais, revistas, no Suplemento Literário do Estadão, para depois colar em um álbum de folhas negras. Mal e mal, porque não tinha jeito para lidar com esse trabalho delicado, organizava, cronologicamente esse material. Onde estariam guardados? Creio ser, para os pesquisadores da vida de Osman, uma boa fonte de dados. Na Lexikon 80 datilografava artigos e peças teatrais. Tento me lembrar de uma peça que datilografei para reproduzir em carbono, mais cópias. Seria Romance dos soldados de Herodes? Ou Mistério das figuras de barro? Ou ainda a trilogia Santa, automóvel e soldado? Seu nome se esconde nos fios sombrios de minha memória.
Fomos com Osman a um jornal de Marília, tentar criar um suplemento literário local, à semelhança do Estadão. Sonhava em disseminar livros, resenhas, literatura e arte. Não deu. O editor sabia que não venderia nada, exceto para dois ou três estudantes sonhadores e para um professor-escritor obstinado.
Osman era rigoroso com sua escrita e com a correção dos textos dos alunos. Aprendi com ele a olhar e a reolhar as construções, embora não tenha até hoje, olhos para ver a língua com o rigor necessário que Osman exigia. Planejava seus escritos com rigoroso arranjo de palavras. Incentivava-me a escrever. Acreditava que eu poderia vir a escrever, mas eu não sabia de onde tirava essa idéia. Sua dedicatória a mim, em Fiel e a Pedra, dado por ele, em um almoço em sua casa, com Julieta, na rua
Pamplona, em São Paulo, no final de 1971, me estimulava. Meu exemplar amarelado de Guerra sem Testemunhas traz uma outra dedicatória. Em Avalovara, primeira edição de 73, não solicitei dedicatória. Não me perdôo por isso. Nem imaginava que 1978, um câncer rápido o levaria em poucos meses.
Em 73 ou 74 Osman deixaria a faculdade porque não gostara de lecionar, nem de lidar com as discussões de vanguarda do formalismo russo, do estruturalismo,da semiologia francesa ou do new criticism americano. Nunca me esqueci dele, de seus olhos e de sua indignação. Nunca me esqueci da atenção que dedicava a mim, embora soubesse das minhas leituras acadêmicas entusiasmadas com os livros da Perspectiva, de Haroldo, de Décio, de Eco, os gurus dos anos iniciais da década de 50. E nunca me esqueci de sua afirmativa categórica: Meu ofício é escrever, dizia. E escreveu, até que o câncer silenciosamente o silenciou.
Dagoberto Buim Arena Professor do Departamento de Didática e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UNESP, em Marília
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