O realismo mágico de Ignácio de Loyola Brandão:
"Empurrou a porta e encontrou o bicho
comendo o menino mais velho, de três anos e meio".
Introdução
"O homem que viu o lagarto comer seu filho" é o título do conto de onde se origina a epígrafe. Publicado em Cadeiras Proibidas (1976), este conto de Ignácio de Loyola Brandão é um representante legítimo da contística desse autor, a cuja obra têm sido atribuídas fortes marcas do chamado realismo mágico ou realismo fantástico.
Característico na literatura latino-americana da segunda metade do século XX, o realismo mágico pode ser considerado, grosso modo, como uma atitude diante da realidade. É o próprio Ignácio de Loyola Brandão quem escreve a propósito de Cadeiras Proibidas:
Nos anos setenta, a situação brasileira me parecia bastante irreal. Ainda parece, hoje. No entanto, era diferente naquela época, com o regime ditatorial, a censura, o amordaçamento geral. Eu via os jornais contemplando uma realidade e estampando outra. Como jornalista, era testemunha de fatos que não podia imprimir. Portanto, observava a realidade sendo distorcida e uma outra realidade sendo fabricada, impingida. A percepção desta situação me levou à descoberta (óbvia) de que as coisas eram, mas não eram. E, desta maneira, na observação do dia-a-dia, foram surgindo as histórias que compõem Cadeiras Proibidas. (BRANDÃO, 1987 Apêndice)
Uma certa visão da realidade como naturalmente absurda ou insólita fica estampada nas obras desse gênero tipicamente latino-americano. Ao que parece, a proposta do realismo mágico não consiste em deformar o real ou mostrá-lo na sua transfiguração, mas em forjar, por meio da ficção, a condição do humano como algo naturalmente absurdo e, desta forma, propor um olhar de transcendência em relação ao real. Nesse caso, um dos aspectos da realidade referida diz respeito à presença aterrorizadora das ditaduras políticas em países da América Latina, na segunda metade do século XX.
Os grandes temas sociais e políticos estão presentes nas obras do realismo mágico, mas seria equivocado considerá-lo apenas como um impulso à denúncia. É inegável que o gênero marcou uma significativa expansão da literatura latino-americana e que a levou ao reconhecimento internacional.
Voltemos ao conto de Loyola Brandão, "O homem que viu o lagarto comer seu filho", motivo de nossa leitura no presente trabalho. Conforme afirmou o próprio autor, este conto, juntamente com outros que compõem o livro Cadeiras Proibidas (1976), tem sua origem na observação do dia-a-dia. Num primeiro momento, podemos nos perguntar: como a observação do dia-a-dia pode levar alguém a configurar a cena de um homem que vê um lagarto enorme devorando seu filho? Uma forma de se chegar às respostas poderia ser a associação direta e simplória do animal ao regime militar (em plena vigência no Brasil da década de 70) e da criança (ou do próprio pai) à condição franzina dos dominados. O conto em questão vai muito além. Um olhar mais atento à forma como o autor compõe a narrativa permite observar que a fusão da realidade com elementos fantásticos transcende o âmbito do puramente ideológico. É o que pretendemos mostrar com uma rápida consideração sobre o papel do narrador como elemento mediador da relação texto-leitor (como efeito narrativo) nesse conto de Ignácio de Loyola Brandão.
Um lagarto que come-não-come: uma história que é-não-é
Numa madrugada quente, não conseguindo dormir, um homem se levanta para beber água. Ao passar pelo quarto dos filhos, resolve entrar. Empurra a porta e vê um lagarto devorando o filho mais velho. O animal já tinha metade da criança boca adentro. A visão horrenda desencadeia uma seqüência de pensamentos; e a atitude que o personagem toma diante da cena é voltar ao seu quarto, sem nada fazer quanto ao menino que está sendo devorado. Acorda, horas depois, ele mesmo já metade dentro da boca do bicho.
Em linhas gerais, é essa a história de "O homem que viu o lagarto comer seu filho". O título do conto é marcado pela presença do artigo definido ("O homem", "o lagarto"). De certo modo, o título anuncia uma situação que, embora violenta e inverossímil (o conhecimento de mundo do leitor empírico não prevê a possibilidade desse acontecimento pelas proporções dos sujeitos envolvidos - "lagarto", "filho"), apresenta uma cena já composta e pretérita ("viu") contra a qual o leitor não tem muito a fazer. Entra no conto "desconfiado", mas sem "margem de manobra", o que também não o torna imune às oscilações que tomarão conta do ato da leitura ou da leitura como ato.
Narrativa curta, o contar (telling) prevalece por meio da atuação de um narrador não dramatizado, que não passa a palavra diretamente aos personagens. Aparentemente "senhor de si" e da situação narrativa, o narrador, nesse conto, ao contrário de favorecer uma sensação de certeza ao leitor quanto ao lugar que deve ocupar, parece ser o elemento responsável pela inscrição do paradoxo em que se vê instalado o leitor. Diante de um narrador firme e aparentemente imparcial, vai-se erguendo um leitor dividido entre o ser-não-ser da história - ela mesma expressão natural do insólito.
Era uma noite de terça-feira e eles viam televisão deitados na cama. Quase uma da manhã, estava quente. Ele levantou-se para tomar água. (...) Ao passar pelo quarto das crianças, resolveu entrar. Empurrou a porta e encontrou o bicho comendo o menino mais velho, de três anos e meio. Era semelhante a um lagarto e, na penumbra, pareceu verde. (BRANDÃO, 1993 p. 117)
Iniciada a narrativa, o leitor se vê, quase que de imediato, numa situação de profunda estranheza diante da absoluta inoperância de um pai face à visão de seu filho sendo devorado por um bicho terrível. O contato com o estranho, entretanto, não define (no sentido de tornar definitivo) o lugar do leitor no texto. Ou, se preferirmos, este parece ser o seu lugar - um território móvel, porque corresponde a uma experiência dupla e simultânea: a de estar diante de algo inverossímil, inaceitável segundo os parâmetros da realidade objetiva, ao mesmo tempo em que tudo é apresentado como natural e cotidiano pelo narrador, o que torna a sensação de estranheza (esta, sim) insólita. Este movimento em que se vê inserido o leitor é conduzido pelo narrador que, ao contar a história sem demonstrar nenhum estranhamento, contribui para a concretização do efeito exercido pelo conto - a vivência do insólito e do absurdo como algo corriqueiro, cotidiano.
O emprego do artigo definido ("... e encontrou o bicho comendo...") e o tom de naturalidade adotado para a descrição do animal ilustram bem a posição desse narrador que não hesita. Não hesita, mas conta algumas passagens da história a partir do ponto de vista de um passado imperfeito, não concluído, supostamente em continuidade, ou do futuro do pretérito, que pode expressar a dúvida, incerteza ou circunstância de condição.
"Franzino funcionário" dos correios, o personagem, tal como o leitor, também se encontra em posição de dupla experiência - a visão terrível e os pensamentos, as elucubrações que passam a ocupar sua mente. O narrador não assume, nesses momentos, o controle total da narrativa, deixando intervir o discurso indireto livre num movimento de fusão entre o discurso interior do personagem e o seu próprio discurso.
Bem que ele avisava a mulher para trancar as portas. Ela esquecia, nunca usava o pega ladrão. (p.117)
Qualquer dia, em vez de um bicho, haveria um homem roubando tudo, a televisão colorida, o liquidificador, as coleções de livros com capas douradas, os abajures feitos com asas de borboletas, tão preciosos. (p. 117)
Queria ver a cara do cunhado quando contasse. (p. 117)
Devia ser uma visão alucinada qualquer. Não era. O bicho mastigava o que lhe pareceu um bracinho (...). (p. 118)
Uma faca de cozinha poderia ser útil? (p. 118)
Preferia não ter visto o lagarto, encontrar a cama vazia, as roupas manchadas de sangue. (p. 118)
Ao assumir, em princípio, uma posição de quem está fora da história, o narrador procura atuar com extrema isenção quanto ao que conta. Intercala dois movimentos ao contar: um que apresenta aderência à realidade e outro que se afasta drasticamente dela. O narrador passa de uma informação passível de verossimilhança externa a outra completamente desconectada do mundo exterior. Mas ambas as informações recebem o mesmo grau de naturalidade, a mesma ênfase, o mesmo tom o que as funde numa mesma natureza embora sejam antagônicas.
Se acendesse a luz do corredor, poderia verificar melhor que tipo de animal era. Mas não se tratava de identificar a raça e sim de salvar o menino. Ele tinha a impressão de que as duas pernas já tinham sido comidas, porque os lençóis estavam empapados de sangue. E a calça do pijama estava estraçalhada sob as garras horrendas do bicho repulsivo. (BRANDÃO, 1993 p.117)
A atitude (ou a falta de atitude) do personagem é acompanhada pelo leitor real num misto de curiosidade e hesitação entre aceitar a história como uma proposta de mergulho no absurdo ou sair dela e ignorá-la completamente. Não cabe aqui discorrer sobre os resultados de uma ou de outra escolha pelo leitor empírico. O que nos parece relevante é que o conto chega ao fim e o leitor implícito permanece numa espécie de vivência ambígua. Esta também é a vivência do personagem. Assim que ele vê o filho sendo devorado pelo lagarto, fica imerso numa seqüência de pensamentos que vão do real ao fantástico com extrema naturalidade. As incertezas do personagem são de natureza diversa das do leitor, mas parece evidente que a forma de narrar instala a situação paradoxal tanto no personagem quanto no leitor porque, dentre outros fatores, para o narrador tudo é encarado como acontecimento comum.
A naturalidade do narrador é causadora do efeito de estranheza no leitor. Ao não se mostrar assustado com a hesitação do personagem (salvar ou não o filho das garras e da boca do lagarto gigante), deixa o leitor em dúvida quanto ao julgamento dos fatos e de sua pertinência. E é esse o sentimento que define os limites do leitor no conto.
Podemos aqui retomar parte do depoimento de Loyola Brandão, citado no início deste trabalho, para considerar o próprio autor como um leitor de sua realidade, localizado na fronteira entre o crer e o não crer naquilo que ocorria no Brasil dos anos 70, tempo difícil da ditadura militar. Leitor que se faz escritor criativo, Brandão consegue, contudo, transcender a condição histórica imediata que lhe motiva o conto. Não fala de uma situação insólita para denunciá-la como tal. Seu texto não se reduz a um alerta sobre a situação política. O texto feito forma, materializa o insólito, presentifica-o, fazendo-o, frente ao leitor, sua única alternativa de permanência no conto. Dessa maneira, o leitor performatiza em si, por meio da leitura, a situação real a que o conto se liga historicamente. O texto de Brandão não fala sobre, mas antes ele é aquilo de que quer falar.
Ao representar uma realidade passível de flexibilização (o leitor migra de um universo real a outro fantástico e vice-versa), o texto torna relativo o que é dado como estabelecido. A condição humana, inexoravelmente definida pelos contornos de uma lógica realista, ganha, assim, uma dimensão maior de possibilidades pelo simples gesto de tornar-se duvidosa.
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Bibliografia
BRANDÃO, I. de L. Os melhores contos de Ignácio de Loyola Brandão. Seleção Deonísio da Silva. São Paulo: Global, 1993.
______. O homem do furo na mão e outras histórias. São Paulo, Ática, 1987.
CIPRO NETO, P. e INFANTE, U. Gramática da língua portuguesa. São Paulo: Scipione, 2003.
TODOROV, T. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2004.
TURCHI, M. Z. As fronteiras do conto de José J. Veiga. In: Ciências e letras n. 34, p. 93-104, jul/dez, 2003.
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Juliana Loyola Professora Doutoura do Programa de Pós-Graduação em Crítica Literária da PUC - SP
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