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O telefilme em questão

APROPUC-SP 05.03.09

Anselmo Vasconcellos


Na América, durante os anos pós-guerra, o cinema enfrentava uma grave crise. Os filmes eram levados a um esgotamento com causas complexas e externas à indústria. Discutia-se, nos meios produtores, até a duração do espetáculo. Há quem afirme que a longa metragem tenha se fixado nessa circunstância histórica, visto que, anteriormente, os shorts movies movimentavam os estúdios em larga escala.

No mesmo cenário, a televisão tinha sua ascensão. Os aparelhos tornavam-se mais populares e acessíveis, e as emissoras apostavam na programação. Nascia a idéia de um cinema pensado para a televisão: o Teleplay.

Não foi preciso muito tempo para que alguns realizadores visionários percebessem as possibilidades do veículo em afirmação. Alfred Hitchcock foi um deles, e sua maestria na construção de espetáculos fortaleceu a idéia crescente dos telefilmes.

A produção disparou e o modelo migrou para um barateamento de temas e produções.

Em seu auge, nos anos de 1980, ele reinava absoluto. "Centenas foram produzidos e exibidos por ano pela ABC, NBC e CBS durante um longo tempo. Na maioria das semanas, as redes mostravam dois, às vezes três telefilmes. Eles documentavam cada doença, cada cenário de abuso matrimonial, todo ato criminal imaginável (tanto ficcional quanto baseado em fatos reais)".

Hoje, entretanto, fala-se muito na agonia do gênero.

"No "Hollywood reporter", Ray Richmond analisa a longa e lenta decadência do telefilme. É um fenômeno americano, mas que afeta o mundo todo, já que esses enlatados eram amplamente consumidos em diversos países, incluindo o Brasil.

O jornalista enumera argumentos para sua tese: pela primeira vez, em trinta e cinco anos, a ABC não irá exibir nenhum telefilme nessa temporada; o mesmo ocorrerá com a NBC e a CBS, outras duas grandes redes; na TV a cabo, o Showtime, que chegou a fazer de quarenta e cinco a cinqüenta telefilmes por ano, não realizou nenhum no ano passado; e a HBO, famosa pela excelência nesse formato, reduziu o número de produções para os dedos de uma mão.

Depois, Richmond dá algumas possíveis razões para o fenômeno: a abundância de telefilmes no passado saturou o mercado; a relação custo-benefício tornou-se desfavorável; as oportunidades de co-producão internacional diminuíram.

"Eu incluiria no pacote a preferência do público por outros formatos, principalmente as séries e os reality shows. Ou seja, o telefilme está morrendo nos EUA sem ter chegado a florescer em países como o Brasil. E eles sempre me pareceram uma ótima chance de animar o mercado audiovisual do país."

Será? O jornalista se refere à profusão de um tipo de produção, de uma hegemonia cultural. A questão, porém, não se encerra em suas afirmações fatalísticas.

No Brasil dos anos de 1970, Ziembisky e Paulo José ativaram um núcleo na TV Globo que produziu os "Casos Especiais". A linguagem era a dos telefilmes. Um deles, "Ciranda Cirandinha", dirigido por Paulo José, viria a inspirar Daniel Filho a implementar o projeto das Séries Brasileiras em estúdios alugados à Herbert Richers, tradicional produtora cinematográfica. Nasceram: "Plantão de Polícia", "Carga Pesada", "Malu Mulher", "Ciranda Cirandinha". A idéia do telefilme progredia nesses modelos de realização. Renovava-se a televisão em amplos aspectos. Sobretudo um background social realista-humanista, verde e amarelo, surgia nas telinhas. Daniel Filho nunca desistiu dessa idéia, e uma de suas ultimas realizações na Globo, já nos anos de 1990, foi a série "A justiceira" que usava equipamento e equipe de cinema. Intencionalmente, foi filmado em película.

Ao fim dos anos de 1970, a Embrafilme fomentava a realização de pilotos para TV, outra tentativa de expandir, testar e viabilizar o telefilme. Os que foram realizados não chegaram à televisão, mas viraram longas e alguns ganharam modestíssima exibição em salas de cinema. Lembro apenas de "Escolhido de Yemanjá", dirigido por Jorge Duran, com produção da Magnus Filmes, do Jece Valadão, e "O Amigo do Super Homem", de Denoy de Oliveira. Trabalhei como ator nas duas produções e em alguns episódios das séries citadas.

Na atualidade, o cinema, mais do que nunca, passou a ser um negócio de massas. A transformação do espetáculo cinematográfico é enorme. O nível de exigência e de conteúdo decaiu para níveis mínimos. A ironia chega a lembrar que filmes dos anos de 1980 são considerados cults... Tal consideração não se verificava na época de seus lançamentos.

O cinema independente, hoje, está desenvolto nas TVs pagas e nos DVDs. Quem quer ver um cinema não comercial tem esses meios, nos quais vemos produtos de farto interesse e especialmente produzidos, pensados para a televisão. São os telefilmes revigorados, que agora invertem a antiga premissa de que a qualidade estava nos cinemas.

Estão na TV séries consagradas (pensadas para a televisão) e de impacto como: "Roma", "Los Sopranos", as nacionais "Mandrake" e "Filhos do Carnaval". Também lá estão telefilmes como "Vida e Morte de Peter Sellers", "Elizabeth I" (globo de ouro), e "High School Musical", mais recentemente.

Devemos relembrar igualmente de "O Dia Seguinte", maior sucesso de audiência da TV americana, além de "Encurralado" de Steven Spielberg, então estreante, que era um telefilme originalmente. A belíssima produção da TV sueca "Cenas de um Casamento", de Ingmar Bergman, que muito ampliou o conceito. Um exemplo de categoria.

Em 2005, foi lançada uma premiação pela Academia Brasileira de Cinema, O Premio TAM. No regulamento, um quesito em especial:

"Concorrerão, a cada ano, ao Grande Prêmio TAM do Cinema Brasileiro obras audiovisuais, no formato Telefilme - exibidas em quaisquer canais de televisão transmitidos para o território brasileiro.
- Entende-se por Telefilme obra encerrada em si mesma exibida de forma não fragmentada em capítulos, documental ou ficcional, com duração de no mínimo 70 minutos."

Jovens realizadores, com quem tenho trabalhado, me ouvem gentilmente expor esses fatos e discurso. Tento persuadi-los a encaminhar seus ambicionados projetos cinematográficos para essa vertente. Para isso, exibo, onde posso, o telefilme "Último Páreo", que protagonizo. Escrevi seu argumento e co-produzi, junto a Emiliano Ribeiro, Alexandre Moreira Leite e Gilberto Loureiro. Sua origem de fomento foi um concurso público nacional do Ministério da Cultura em 2000, Concurso para Telefilmes. Foram contemplados dez projetos com prêmio à produção de R$200.000,00 (duzentos mil reais).

O baixíssimo orçamento, somado ao pequeno apoio da Petrobrás e mais investimentos pessoais, tornou possível a realização do roteiro de Gilberto Loureiro, elaborado em cinco atos de doze minutos com breaks para publicidade.

O telefilme "Último Páreo" é uma dramaturgia inspirada no cinema noir. Privilegia a interpretação como o elemento maior da narrativa e do espetáculo. Uma metragem propositalmente concisa, que aperfeiçoa a produção possível, ou seja, dimensiona a captação de recursos numa escala viável para pequenos patrocinadores, desenvolve autores, revela diretores e privilegia a elaboração da interpretação dos atores.

Pensar esse histórico estimula as seguintes questões:

Uma difusão inteligente desses produtos poderia alcançar boa visibilidade num sistema viciado e saturado de filmes repetitivos que compramos nas TVs pagas?

Caberia uma proposta de conciliação do cinema independente com as TVs abertas que ainda resistem como produtoras?

Se teledramaturgia brasileira tem um potencial positivo nas vendas internacionais, nesse vácuo as produções independentes de telefilmes nacionais poderiam encontrar a distribuição?

Se antes o telefilme era uma representação da hegemonia cultural, sobretudo a americana, hoje ele poderia representar, para nós brasileiros, um eficiente instrumento de contracultura?

Sendo assim: "Pegue a onda".


Anselmo Vasconcellos Ator, diretor, roteirista e produtor

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