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Home >> Revista Cultura Crítica >> 04, cinema, 2º semestre de 2006 >> O legado do mestre do suspense

O legado do mestre do suspense

APROPUC-SP 05.03.09

Gustavo Tortelli


Alfred Joseph Hitchcock , nascido em Leytonstone, Londres, no dia 13 de Agosto de 1899, filho caçula de vendedores de galinhas e hortaliças, tinha um casal de irmãos mais velhos, o que talvez tenha sido a causa de uma infância marcada pela solidão e pela severidade do pai. Seus pais, Emma e William Hitchcock, eram católicos praticantes, e pertenciam à baixa burguesia, o que explica sua educação pelos padres jesuítas do Saint Ignacius College, onde estudou, como aluno interno, durante sua infância. Com o falecimento de seu pai, em 1914, foi freqüentar o curso de Engenharia na Escola de Engenharia e Navegação. Após três anos, começou a trabalhar numa companhia telegráfica, enquanto aprendia a desenhar no curso de Belas-Artes da Universidade de Londres.
Aos vinte anos, ofereceu-se para trabalhar como desenhista nos estúdios da  norte-americana Famous Players-Lasky, em Londres, começando ali sua trajetória cinematográfica. Dois anos depois, a Famous Players alugaria seus estúdios para a recém-criada Gainsborough Pictures, onde Hitchcock desempenharia várias funções:   assistente de direção, argumentista, decorador e, por fim, diretor. Conheceu Alma Reville em 1923, quando ela trabalhava como anotadora e montadora no filme "Woman to Woman", de Graham Cutts. Os dois ficaram noivos um ano depois.
Seu primeiro filme foi "O Jardim das Delícias" (1925), no qual Alma Reville trabalhou como assistente de direção. Sua estréia não poderia ser melhor. O sucesso de crítica e público foi suficiente para dar continuidade a novos trabalhos, entre eles, "The Lodger" (1927), considerado pelo próprio diretor como "o primeiro filme hitchockiano". Hitchcock casou-se com Alma em dezembro de 1926, e a única filha do casal, Patricia, nasceria em 7 de julho de 1928.
No ano seguinte, os talkies chegaram aos estúdios ingleses, o que tornou o décimo filme do autor, "Chantagem", um dos primeiros filmes ingleses falados. Em 1934, alcança o reconhecimento mundial com "O Homem que Sabia Demais", êxito que conseguiu superar com o seu filme seguinte, "Os 39 Degraus" (1935), estrelado por Robert Donat, Madeleine Carroll, Lucie Mannheim, Godfrey Tearle, Peggy Ashcroft, John Laurie e Helen Haye. Esse filme é considerado o melhor trabalho de sua fase britânica.
Em 1938, com o sucesso nos Estados Unidos de "A Desaparecida", Hitchcock foi contratado pelo produtor norte-americano David O'Selznick, mudando-se com a família para Hollywood em 1939.
Seu primeiro filme da fase americana foi "Rebecca" (1940), premiado com o Oscar de Melhor Filme. Posteriormente, nas décadas de 1950 e 60, quando os filmes passaram a ser coloridos, surgiram os seus maiores clássicos - "A Mulher que Viveu Duas Vezes", "Intriga Internacional", "Psicose" e "Os Pássaros". Seu último filme foi realizado nos anos de 1970 - "Intriga em Família" (1976).
Sabemos que, em seus filmes, o papel principal cabe às mulheres. Essas, sempre misteriosas, com algo a esconder e com a sensualidade à flor da pele. Sempre lindas e loiras, foram várias as atrizes que fizeram parte da vida e filmografia do diretor. Desde Madaleine Carrol até Tipi Hedren, passando pelas inevitáveis Ingrid Bergman, Grace Kelly, Kim Novak ou Janet Leigh. As mulheres eram a sua perdição e a dos seus personagens principais, mas eram também objetos que o diretor manipulava habilidosamente. Como chegou a dizer, para ele o interessante nas mulheres era que se podiam "comportar como senhoras, mas depois serem umas verdadeiras putas quando a porta se fechava". O próprio Hitchcock chegou a dizer que atrizes como Marilyn Monroe e Brigitte Bardot não lhe interessavam porque tinham o "sexo na cara".
No ano de 1979, foi conferido a Alfred Hitchcock o Life Achievement Award, do American Film Institute, tornando-se o quarto diretor a receber o prêmio. Ele dedicou o prêmio a sua esposa, Alma Reville, a qual foi sua companheira durante cinqüenta e três anos.
Por mais de cinqüenta anos, o Mestre do Suspense revolucionou a história do cinema com seu estilo sofisticado e elegante, que combina grandes planos dramáticos dos protagonistas com suas sutis aparições. A influência do expressionismo alemão nos primeiros filmes, os temas e fetiches de Hitchcock (como a culpa, a homossexualidade implícita, a figura materna, a identidade, o voyeurismo), a criação do suspense, a representação da mulher vertiginosa (encarnada por protagonistas belas, louras e gélidas) e a regra MacGuffin - o engodo para a narrativa -, todos esses fatores distinguiam seus filmes dos demais filmes de suspense. São algumas das suas marcas pessoais, que permitiram à frase "parece um Hitchcock" e ao termo "hitchcockiano" entrarem no vocabulário comum a partir de meados dos anos de 1930.
Hitchcock esforçava-se para sublinhar a distinção entre a surpresa e o suspense. Em entrevista ao diretor francês François Truffaut, explicou que, "na forma vulgar do suspense, é indispensável que o público esteja perfeitamente informado de todos os elementos em causa". Ou seja, a principal diferença em relação à surpresa é que o público sabe algo que as personagens desconhecem. Durante a entrevista, ele acrescentou ainda que existem muitas situações em que "o suspense não está ligado ao medo", mas sim à emoção.
Outra característica de seus filmes é a de sempre comportar uma  certa dose de ironia, um pouco do humor negro britânico e um peculiar gênero de humor. Aliás, várias vezes ele passeia livremente entre as personagens de seus filmes, mas em certas ocasiões, é apenas um vulto ou uma sombra.
Hitchcock é um cineasta de sucesso, com uma imagem pública inconfundível e com uma extrema capacidade criativa de seus filmes, a qual contribuiu para a valorização do papel do diretor, que anteriormente se restringia ao segundo plano. Ele se tornou o mentor de uma nova geração de diretores, que continuam, ainda hoje, a rememorar cenas famosas dos seus filmes.
Alfred Joseph Hitchcock morreu em Los Angeles no dia 29 de abril de 1980 com 80 anos, uma das maiores perdas do cinema mundial. Nenhum diretor conseguiu fazer o público sofrer tanto, de forma quase masoquista, e ser consagrado de sucesso, tanto econômico quanto cinematográfico.

Filmografia
Filmes mudos
1. The Pleasure Garden (1925)
2. The Mountain Eagle (1926)
3. The Lodger (1926)
4. A Story of the London Fog (1926)
5. Downhill (1927)
6. Easy Virtue (1927)
7. The Ring (O Anel, 1927)
8. The Farmer's Wife (A Mulher do Fazendeiro, 1928)
9. Champagne (idem, 1928)
10. The Manxman (O Ilhéu, 1929).

Filmes sonoros
1. Blackmail (Chantagem e Confissão, 1929)
2. Juno and the Paycock (1929)
3. Murder (Assassinato, 1929)
4. The Skin Game (1931)
5. Rich and Strange (1932)
6. Number Seventeen (O Mistério no 17°, 1932)
7. Waltzes from Vienna (1933)
8. The Man who Knew Too Much (O Homem que Sabia
Demais, 1934)
9. The 39 Steps (Os 39 Degraus, 1935)
10. The Secret Agent (O Agente Secreto, 1936)
11. Sabotage (O Marido Era o Culpado, 1936)
12. Young and Innocent (1937)
13. The Lady Vanishes (A Dama Oculta, 1938)
14. Jamaica Inn (A Estalagem Maldita, 1939)
15. Rebecca (Rebeca, a Mulher Inesquecível, 1940)
16. Foreign Correspondent (Correspondente Estrangeiro, 1940)
17. Mr. and Mrs. Smith (Um Casal do Barulho, 1941)
18. Suspicion (Suspeita, 1941 )
19. Saboteur (Sabotador, 1942)
20. Shadow of a Doubt (A Sombra de uma Dúvida, 1943)
21. Lifeboat (Um Barco e Nove Destinos, 1943)
22. Spellbound (Quando Fala o Coração, 1945)
23. Notorious (Interlúdio, 1946)
24. The Paradine Case (Agonia de Amor, 1947)
25. Rope (Festim Diabólico, 1948)
26. Under Capricorn (Sob o Signo de Capricórnio, 1949)
27. Stage Fright (Pavor nos Bastidores, 1950)
28. Strangers on a Train (Pacto Sinistro, 1951 )
29. I Confess (A Tortura do Silêncio, 1952)
30. Dial M for Murder (Disque M para Matar, 1954)
31. Rear Window (Janela Indiscreta, 1954)
32. To Catch a Thief (Ladrão de Casaca, 1955)
33. The Trouble with Harry (O Terceiro Tiro, 1956)
34. The Man Who Knew Too Much (O Homem Que Sabia Demais, 1956)
35. The Wrong Man (O Homem Errado, 1958)
36. Vertigo (Um Corpo que Cai, 1958)
37. North by Northwest (Intriga Internacional, 1959)
38. Psycho (Psicose, 1960)
39. The Birds (Os Pássaros, 1963)
40. Marnie (Marnie, Confissões de Uma Ladra, 1964)
41. Torn Curtain (Cortina Rasgada, 1966)
42. Topaz (Topázio, 1969)
43. Frenzy (Frenesi, 1972)
44. Family Plot (Trama Diabólica, 1976).


 Gustavo Godoy Jornalista e graduando de filosofia

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