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O novo senhor Hollywood

APROPUC-SP 05.03.09

Renata Primavera

Diretores clássicos conseguem criar cenas famosas que definem a sétima arte. Elas fazem parte do imaginário público e nele permanecem por anos a fio. Alfred Hitchcock filmou o assassinato de Janet Leigh no chuveiro em "Psicose" (1960). A bicicleta voadora do filme "E.T." (1982) foi criada por Steven Spielberg. Alex e sua dolorosa transformação de marginal para bom moço em "Laranja Mecanica" (1969), de Stanley Kubrick.
 "Eu vejo pessoas mortas". Com essa frase, M. Night Shyamalan conseguiu ingressar neste seleto grupo de diretores com seu primeiro filme. "O Sexto Sentido" (1999), com Bruce Willis e o pequeno e talentoso Haley Joel Osment, foi um sucesso de crítica e bilheteria, e permanece até hoje como um marco da nova safra de suspense, gênero esquecido durante muito anos, graças ao terror trash que reinava no cinema desde a década de 1980.
 Nada mal para o diretor indiano, que logo cedo mudou-se para a Filadelfia, palco de todos os seus filmes. Após o sucesso inesperado de "O Sexto Sentido", que dirigiu e escreveu, Shyamalan virou queridinho de Hollywood e grande aposta da sua distribuidora, a Walt Disney Pictures. Porém, graças a uma campanha de marketing errônea (que anunciava um novo filme, no mesmo estilo do anterior), seu filme seguinte, "Corpo Fechado" (2000), não foi o sucesso de bilheteria esperado. Falando sobre super-heróis de um jeito totalmente diferenciado e novamente estrelado por Bruce Willis, o filme, no entanto, agradou críticos e conseguiu sua grande leva de fãs com as vendas em DVDs.
 "Sinais" (2002), seu projeto seguinte, começou com o pé esquerdo: foi o primeiro filme a ser rodado depois dos atentados de 11 de setembro. Em Hollywood, o clima ainda estava pesado, quando as filmagens começaram, poucos dias depois dos atentados. Mesmo assim, o filme estrelado por Mel Gibson sobre a crise religiosa de um padre em meio a invasões alienígenas conquistou público e crítica.
 Foi então que Shyamalan resolveu aumentar a crítica à sociedade atual, que se manifestava de forma sutil nos filmes anteriores. "A Vila" (2004), seu último filme antes de "A Dama na Água", faz uma crítica pesada ao isolacionismo da sociedade por causa da violência, por meio da estória de uma pequena vila do século XVII, que é isolada pela presença de monstros.
 Com essa pequena filmografia de cinco películas, o diretor conseguiu consagrar as características que o tornaram famoso: o caráter transformador da água, a presença da cor vermelha como prenúncio de momentos importantes, e aparições do próprio diretor, a la Hitchcock.
 Nem sempre Shyamalan foi unanimidade. "A Dama na Água" (vide box abaixo) marcou seu rompimento com sua distribuidora de longa data, a Walt Disney Pictures. "Eles não gostaram da estória do filme logo em uma das nossas primeiras reuniões. Queriam algo mais parecido com . Então resolvi ir para um lugar onde não me censurassem", conta o cineasta. Esse lugar seria a Warner Bros, que amou a idéia dos narfs e bancou o filme, sem nenhuma mudança. Essa briga foi um choque em Hollywood, e virou inclusive um livro, "O Homem que Ouvia Vozes ou como M. Night Shyamalan Arriscou Sua Carreira com um Conto de Fadas", escrito por Michael Bamberger.

 

            "A Dama na Água", novo filme de M. Night Shyamalan, tem uma estória simples. Talvez no meio do longa o espectador fique um pouco confuso com a quantidade de informações sobre a lenda dos narfs, seres aquáticos que aparecem para os seres humanos como fontes de inspiração. Mas logo tudo se assenta e a narrativa segue seu fluxo linear, com começo, meio e fim bem definidos.

            Indo na contramão do cinema do século XXI, que é baseado na agilidade da edição dos videoclipes, essa maneira de contar estórias é o grande trunfo do novo projeto de Shyamalan. Inspirado por cineastas como D.W. Griffith e Alfred Hitchcock, o diretor ainda crê no poder ilusionista da sétima arte. Por meio de um argumento original (algo raro na Hollywood de seqüências e adaptações cinematográficas), o filme passa sua mensagem sobre a situação política norte-americana.

            Isto não significa que eu seja contra a agilidade do novo cinema e esteja apoiando cegamente a narrativa linear. Cinema inovador é o que traz algo novo visualmente, independente do molde utilizado. E o filme tem isso. Buscando sempre ângulos inusitados, mas inteligentes, o longa é um deleite para os olhos.

 

 


  Renata Primavera
Graduanda de Jornalismo pela PUC-SP
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