Matrix e a caverna de imagens
Ricardo Melani
Estranhamento. Sensação de angústia e um certo mal-estar. Assim é retratado o sentimento da personagem central de "Matrix", Neo[1] , no início do filme. Ele busca algo, sem saber o que é. Há um desacerto, um equívoco em sua vida, como se Neo estivesse às portas de sua consciência ou do conhecimento de uma verdade, mas ainda vagasse no sem-sentido. Sentimento errante, confuso e disseminado pelo seu corpo, que provoca um certo desespero contido e muita infelicidade.
Tais características se ajustam bem às categorias utilizadas por Kierkegaard para definir os possíveis estágios de desenvolvimento do ser humano. A angústia e o desespero tomam conta da vida de Neo, e o deixam em um estado de impotência. Mas não são as categorias existencialistas do ideário kierkegaardiano que predominam na trajetória do protagonista de "Matrix". A obra é entrecortada por referências de diversos matizes teóricos; no entanto, há clara preeminência da concepção platônica, mais especificamente da Teoria das Idéias.
"Wake up, Neo..." ("Acorde, Neo..."), com esse aviso recebido pelo seu computador, o protagonista entra pela primeira vez em cena. Neo, que dormira em frente ao computador sobre a mesa, ainda absorto, sonolento, abre os olhos e tenta compreender a mensagem. Em seguida, vem a segunda frase: "Matrix o encontrou"; e a terceira: "Siga o coelho branco". Em poucos segundos, os irmãos Wachowski, que escreveram a história e dirigiram o filme, aludem à fantasia e à teoria. Da fantasia, a fazem referência a Lewis Caroll e seu livro Alice no País das Maravilhas. Nessa obra, Alice adormece e sonha com o País das Maravilhas. A entrada para esse mundo imaginário é a toca de um coelho branco que foi perseguido por Alice. Assim, Lewis Caroll instiga o leitor a refletir sobre os limites entre sonho e realidade.
Neo pergunta: "Você já se sentiu como se não soubesse se está acordado ou se está sonhando?" A demarcação pouco nítida entre sonho e realidade também é muito referida em teses filosóficas. Delas, a mais conhecida é a de Descartes. Nas Meditações, ao descrever o seu método da dúvida como processo para atingir o que é verdadeiro - segundo esse método, deve-se duvidar de todas as coisas que não são concebidas de maneira clara e distinta -, Descartes utiliza o argumento do sonho. Se às vezes sonhamos com situações e ações que parecem reais, qual critério pode ser utilizado para sabermos se o que chamamos de situação real não passa de um sonho ?[2]
"Suponhamos, pois, agora, que estamos adormecidos e que todas essas particularidades, a saber, que abrimos os olhos, que mexemos a cabeça, que estendemos as mãos, e coisas semelhantes, não passam de falsas ilusões..." (Meditações, p. 259) Uma ilusão é um engano dos sentidos ou da mente que faz com que se tome uma coisa por outra; que se interprete erroneamente um acontecimento ou uma situação. Não é à toa que o protagonista da película, além de ser programador de uma empresa de software, tem uma atividade ilegal: ele é hacker e vende programas de simulação virtual que têm o poder de proporcionar alucinações e bem-estar ao seu usuário. Ele guarda esses programas em uma caixa-livro intitulada Simulacro & Simulações.
Dois mundos; duas pilúlas
A cena em que Neo é despertado por uma mensagem de computador é uma analogia em relação a sua própria vida. É uma espécie de marco que sinaliza o início de uma transformação: o despertar de um sonho, o abandono da ilusão de vida, e a compreensão da vida como ela é. A refência a Platão é quase explícita. O filósofo, na República, ao explicar a Idéia de Bem para Gláucon pelas palavras da personagem Sócrates, faz uma analogia com o Sol. Assim como o Sol é o responsável pelo que vemos, pois sua luz intermedeia a relação entre a nossa capacidade de ver e a coisa visível; a Idéia de Bem é responsável pela cognição, pois é ela que permite a relação entre a inteligência e o inteligível.
- Podes, portanto, dizer que é o Sol, que eu considero filho do bem, que o bem gerou à sua semelhança, o qual bem é, no mundo inteligível, em relação à inteligência e ao inteligível, o mesmo que o Sol no mundo visível em relação à vista e ao visível. (República, 508c)
Na concepção platônica, há, portanto, dois mundos: o visível e o inteligível. Na República, esses mundos são explicitados pela Alegoria da Linha (Livro VI) e pelo Mito da Caverna (Livro VII). Na Alegoria da Linha, Platão busca uma representação gráfica para facilitar a compreensão de sua teoria.
Supõe então uma linha cortada em duas partes desiguais; corta novamente cada um dos segmentos segundo a mesma proporção, o da espécie visível e o da inteligível... (idem, 509e)
Na seqüência do escrito platônico, as seções têm seus conteúdos discriminados. No mundo visível, a primeira seção é a das imagens, das sombras, das cópias, dos reflexos; a segunda seção é composta pelos seres vivos, as plantas e os objetos produzidos pelos homens, ou seja, pelas coisas materiais que dão origem às sombras, às cópias, aos reflexos. No mundo inteligível, a primeira seção é a das hipóteses, das ciências, entre elas, a matemática - é o estágio do entendimento. Na segunda seção, encontram-se as idéias, e a intelecção dos princípios ou da verdade é direta - é o estágio da inteligência.
No filme, a existência de dois mundos é explicitada na primeira conversa entre Morfeu e Neo. Morfeu define Matrix como "o mundo que foi colocado diante de seus olhos, para que você não visse a verdade." Há, pois, um mundo da aparência e um outro, escamoteado pela Matrix. Segundo Morfeu, esse mundo da imagem está presente em todo lugar: na vista da janela, na televisão, no trabalho, na igreja, quando se pagam os impostos etc. A ilusão está presente em todo lugar e ela não deixa ver a verdade.
"Que verdade?", pergunta Neo. "Que você é um escravo", responde Morfeu. Neo, como todos os demais, teria nascido sem saber em um cativeiro, em uma prisão que não consegue sentir ou tocar. Uma prisão para a sua mente. Como se trata de uma prisão mental, só o próprio indivíduo pode se libertar, ninguém o pode fazer por ele. Morfeu oferece uma escolha a Neo. Ele oferece duas pílulas. Se tomar a pílula azul, Neo retorna a sua condição anterior à conversa. Acordaria em sua cama com as crenças que possuía até então. Se tomar a pílula vermelha, conhecerá a verdade. Morfeu ainda chama a atenção de Neo, explicando que sua escolha é definitiva. Ele não poderia mudar a sua decisão. Neo escolhe a busca da verdade.
Caverna de imagens
A idéia de que o indivíduo tem uma vida de prisioneiro sem o saber está presente de maneira central no Mito da Caverna, que pode ser sumariamente descrito desta maneira:
Há prisioneiros desde a infância em uma gruta. Eles têm as pernas e os pescoços algemados, estão voltados para o fundo da caverna e são incapazes de virar a cabeça. Entre eles e a saída da caverna, há uma fogueira e um pequeno muro por onde pessoas passam conversando e transportando objetos e animais. Por causa do fogo, os objetos e essas pessoas têm suas sombras projetadas no fundo da caverna. Tal situação levaria aos prisioneiros a julgar as sombras como se fossem os próprios objetos.
...não te parece que eles julgariam estar a nomear objetos reais, quando designavam o que viam?
- É forçoso.
- E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
(...) pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objetos (515b-c).
No filme, são as imagens geradas pelo programa Matrix que são tomadas pelos objetos em si. É nesse sentido que há o escamoteamento da verdade.
Só as pessoas que se libertam dos grilhões podem conhecer a verdade. Para isso, um primeiro passo de um liberto é explorar a caverna. Compreender que o que ele entendia pelo objeto em si era apenas seu reflexo, sua sombra. Em relação à Alegoria da Linha, as sombras do Mito da Caverna equivalem à primeira seção do mundo visível; e os objetos, à segunda. As duas seções do mundo inteligível só podem ser atingidas saindo da caverna e entrando em contato com o Sol. Assim, para atingir o estágio da inteligência, Platão prescreve um processo dialético de autoconhecimento.
Quando Neo toma a pílula vermelha, tem início esse processo. Neo terá de aprender ou reaprender a utilizar suas capacidades para compreender o mundo.
Neo e a segunda navegação
Platão, ao verificar que as investigações dos primeiros filósofos[3] , baseadas nos sentidos e nas sensações, não atingiam a verdade, pois esssa verdade só poderia ser atingida no campo do inteligível, porque ela é supra-sensível, empreendeu o que ele chamou de Segunda Navegação, numa analogia à linguagem de marinheiros. Assim como os marinheiros, quando não há vento, têm de navegar ultilizando os remos (navegação mais cansativa e exigente); a investigação que busca as causas primeiras, a verdade, tem de abdicar dos ventos das sensações e tomar os remos dos raciocínios e dos postulados. É sobre eles, os raciocínios e os postulados, que é fundado o novo método de investigação.
...já cansado de considerar as coisas, houve que era preciso precatar-me para não acontecer comigo o que se dá com as pessoas que observam e contemplam o Sol quando há eclipse: por vezes perdem a vista, senão olham apenas para a imagem dele na água ou nalgum meio semelhante. Pensei nessa possibilidade e receei ficar com a alama inteiramente cega, se fixasse os olhos nas coisas e procurasse alcançá-las por meio dos sentidos. Pareceu-me aconselhável acolher-me ao pensamento, para nele contemplar a verdadeira natureza das coisas (Fédon, 99e-100a).
Sob a tutela de Morfeu, Neo inicia seu novo aprendizado. Ele vai passar por dores e sofrimentos até reaprender a utilizar suas habilidades intelectuais. No início desse processo, há um total estranhamento.
Neo tem sua musculatura atrofiada e seu olhos doem. Não se trata todavia da musculatura e dos olhos físicos. Neo, por ter vivido muito tempo na caverna, entre as sombras, desaprendeu a utilizar seu espírito, sua inteligência. Se a realidade visível se atinge com os olhos físicos, a realidade inteligível se atinge com os olhos do espírito, com o pensamento.
-Estou morto? - pergunta Neo.
-Longe disso - responde Morfeu.
Neo está mais perto das coisas como elas realmente são, começa a viver a vida como ela é. Mas, até completar o seu aprendizado, muita coisa vai acontecer, a começar pela problematização de seu conceito de realidade.
- Isso é real? Pergunta Neo.
- O que é "real"? responde Morfeu e continua: Como você define o "real"? Se está falando do que consegue sentir, do que pode cheirar, provar, ver, então, "real" são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo cérebro.
(Conversa mantida por Neo e Morfeu, dentro de um programa de computador, utilizado para treinamento)
A realidade, na sua essência, não pode ser captada pelas sensações, pelo que se percebe sensorialmente. A apreensão da aparência como realidade última nos faz viver em um mundo dos sonhos. Esse é o papel da Matrix: passar por realidade o que não é, escamoteando a situação real dos seres humanos. Morfeu apresenta a Neo o "mundo que existe hoje". Um mundo desértico, escuro, sombrio, formado por rochas, nuvens cinzas e trovões. Muito diferente do que o apresentado pelo programa Matrix.
Como o planeta Terra e a humanidade teriam chegado a essa situação? Segundo Morfeu, o homem em guerra com a sua própria criação, a Inteligência Artificial, teria queimado o céu, para evitar que a luz solar fosse fonte de energia para as máquinas. Por isso, acreditava-se que elas não sobreviveriam. Porém, elas conseguiram sua energia cultivando campos de fetos humanos. O ser humano teria se transformado em nada mais do que uma fonte de energia para máquinas. A produção de imagens do programa Matrix tem o propósito de controlar os seres humanos e distanciá-los da verdade.
Sem luz solar, o mundo inteiro se tornou uma grande caverna. E as imagens de Matrix fazem as vezes das sombras do Mito da Caverna.
O mito er e a teoria da Reminisência
Neo, ao tomar conhecimento do mundo real, ficou confuso e incrédulo. Para ele, não era possível aceitar a verdadeira condição humana. No Mito da Caverna, o homem que, depois de tantos anos de escuridão, deixou de ser prisioneiro, ao sair da caverna, teve sua visão ofuscada pela claridade do Sol. Neo também teve sua visão espiritual turvada. Ele teve de passar por um processo de adaptação e de conhecimento crescentes.
Diante das dificuldades, Neo, já sabendo qual seria a resposta, pergunta a Morfeu se poderia voltar. Não era possível, porque, quando uma pessoa descobre a verdade, desfaz-se a ilusão provocada pelas imagens ou pelas sombras. Dito de outra maneira, quem chegou ao conhecimento de que as sombras são projeções de coisas, nunca tratará essas projeções como as coisas em si. O conhecimento da verdade é irreversível. Ele só pode ser obscurecido pelo esquecimento.
Mas por que Neo passou por esse processo? Por que ele, e não outro? Os irmãos Wachowski novamente apoiam-se em obras platônicas para desenvolver seu enredo. Agora fazem menção ao Mito do Er e à Apologia a Sócrates.
No Mito de Er, as almas livres, depois da morte do corpo, passam por um processo de purificação e escolhem o tipo de vida que gostariam de ter. Antes de reencarnarem, bebem das águas do Rio Ameles. As almas a "quem a reflexão não salvaguarda bebem mais do que a medida. Enquanto se bebe, esquece-se de tudo" (621a-b). Ou seja, as almas de pouca reflexão escolhem uma nova vida corporal à pressa e bebem mais das águas do esquecimento, esquecendo de tudo quando incorporam. Os que bebem pouco têm mais chance de lembrar a verdade e, portanto, de estranhar que as cópias (imagens e sombras) sejam compreendidas como a verdadeira realidade. É possível que o estranhamento de Neo tenha relação com a insatisfação de sua alma. Sem saber o porquê, Neo se sentia angustiado. Algo lhe dizia, talvez uma lembrança confusa, que o mundo da aparência não é o único, nem o mais importante em relação ao conhecimento e à verdade.
...antes de começarmos a ver, a ouvir ou a empregar os demais sentidos, já devemos ter adquirido em alguma parte o conhecimento do que seja a igualdade em si, para ficarmos em condições de relacionar com ela as igualdades que os sentidos nos dão a conhecer e afirmar que estas se esforçam por alcançá-las, porém lhe são inferiores (Fedão, 75b-c).
...conhecemos antes do nascimento e ao nascer tanto o igual, o maioe e o menor, como as demais noções da mesma natureza. Pois tanto é válido nosso argumento para a igualdade como para o belo em si mesmo e o bem em si mesmo, a justiça, a peidade e tudo o mais... A esse modo, adquirimos necessariamente antes de nascer o conhecimento de tudo isso (Idem, 75d).
Segundo a Teoria da Reminiscência de Platão, aprender fundamentalmente é recuperar o conhecimento por meio da lembrança. Estão mais aptos ao conhecimento verdadeiro, aqueles que pouco beberam das águas do esquecimento e que dedicam a sua vida à reflexão.
O escolhido
Há ainda um outro fato que faz de Neo uma pessoa diferente. Trata-se de um vaticínio de um oráculo. Ele teria profetizado o retorno de uma pessoa que salvaria a humanidade e destruiria Matrix, libertando todo o povo. Neo seria o escolhido para essa façanha. Tal predição causou certa perplexidade em Neo, que até então acreditava ser uma pessoa normal, como qualquer outra.
Novamente a referência a Platão é quase explícita. Desta vez, a obra em questão é a Apologia de Sócrates. A defesa de Sócrates tem como centro a predição do Oráculo de Delfos. Pítia, a sacerdotisa do templo de Delfos, teria profetizado a Querefonte que não havia alguém mais sábio do que Sócrates. Tal testemunho teria influenciado toda a conduta de Sócrates e o seu método de investigação. Desde então, Sócrates passou a inquirir aos sábios, na tentativa de, por um lado, rebater a afirmação divina, e por outro, de acatá-la.
...certa vez, indo a Delfos, (Querofonte) arriscou esta consulta ao oráculo... ele perguntou se havia alguém mais sábio que eu; respondeu a Pítia que não havia ninguém mais sábio (Defesa de Sócrates, p. 8).
Suas investigações vão confirmando o vaticínio. Os "sábios" acreditam saber algo que realmente não sabem, enquanto Sócrates é consciente de sua ignorância. O que o faz mais sábio do que os outros.
No oráculo do filme, uma cozinha, também há a mesma inscrição do oráculo de Delfos: "Conhece-te a ti mesmo". Era missão de Sócrates dedicar-se, e exortar que os outros se dedicassem, ao conhecimento e, antes de tudo, ao conhecimento de si próprio. Assim como a missão de Neo é retirar os humanos do jugo dos antróides, que utilizam o programa Matrix para escamotear a sua dominação.
A predição se mostrou acertada. Depois de muitas lutas contra antróides, permeadas de efeitos especiais típicos dos filmes hollywoodianos, Neo confirmou ser o escolhido.
O homem e a tecnologia
Outro grande tema abordado no filme, que permeia todo o enredo, é a relação entre o homem e a tecnologia. Trecho especial em relação a esse aspecto é o discurso que o andróide Smith faz para Morfeu sobre a civilização humana.
- Já olhou para tudo isso de cima? Maravilhado com sua beleza... sua genialidade? Bilhões de pessoas vivendo suas vidas distraídas. Você sabia que a primeira Matrix foi criada para ser o mundo humano perfeito, onde ninguém sofreria, onde todos seriam felizes? Foi um desastre. Ninguém aceitou o programa. Perdemos safras inteiras. Alguns acham que não tínhamos a linguagem de programação para descrever seu mundo perfeito. Mas eu acho que como espécie os seres humanos definem a realidade através da desgraça e do sofrimento. Então o mundo perfeito é um sonho do qual o cérebro primitivo de vocês tentava acordar. E por isso Matrix foi recriada assim: o ápice da sua civilização. Eu digo "sua civilização", porque, quando começamos a pensar por vocês, tornou-se nossa civilização o que, claro, é a razão disto tudo. Evolução, Morfeu. Evolução. Como o dinossauro. Olhe pela janela. Vocês tiveram o seu tempo. O futuro é o nosso mundo, Morfeu. O futuro é o nosso tempo.
Nesse trecho, há inúmeras idéias e referências. Fiquemos com três. A primeira é a idéia que estava presente no programa do Iluminismo: o homem atingiria a felicidade por meio do desenvolvimento da ciência e do conhecimento. Tal bandeira foi tomada pelo positivismo e levada até suas últimas conseqüências. A razão científica foi compreendida como a única via de conhecimento da verdade. A linguagem matemática foi guindada a modelo de entendimento da realidade. Tudo o que é significativo da realidade humana poderia ser mensurado ou quantificado. Só tem valor de verdade o que pode ser verificado. A aplicação dos princípios matemáticos e científicos permitiria entender a realidade e amoldá-la às necessidades do ser humano. Conseqüentemente, chegaríamos a um estágio de felicidade.
A segunda idéia do discurso de Smith que será destacada é que tal projeto, o da felicidade iluminista, fracassou. Neste aspecto, não há como deixar de mencionar a Escola de Frankfurt, mais especificamente Adorno e Horkheimer. Em sua obra Dialética do esclarecimento, escrita em 1947, esses pensadores denunciavam o fracasso do ideário do Século das Luzes e punham-se a investigar os fundamentos da barbárie de então. Seu livro é uma reflexão a partir da seguinte indagação: "por que a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de barbárie?" (Adorno & Horkheimer, p. 11).
Dito de outra maneira, por que, apesar do enorme desenvolvimento econômico e científico dos séculos XVII, XVIII e XIX, do avanço da indústria e da tecnologia sem precedentes, o homem se depara com guerras, destruições e mortes[4] ? Por que, em vez de felicidade, há cada vez mais miséria e opressão? A resposta a essas questões é complexa e, por isso mesmo, pouco precisa. Mas esses autores, seguindo trilhas deixadas por Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger e Freud, vão investigar aspectos sombrios da razão iluminista e determinar como foco central de sua análise características imanentes da razão utilitarista, que, para eles, já estavam presentes no Mito, e que foram potencializadas com o desenvolvimento do sistema capitalista. A razão utilitarista e tecnicista afastou o homem de uma de suas principais características, a reflexão; e o levou a agir quase como autômato, ser subjugado pela lógica da dominação.
Para Adorno e Horkheimer, a alternativa a essa lógica do egoísmo cego e da dominação está na lógica do amor generoso e na busca da verdade. O amor ao outro pode ser fonte de redenção da humanidade. Neste aspecto, é interessante a passagem do filme na qual a personagem Trinity, por meio de seu amor, ressuscita Neo, que havia sido morto pelas máquinas. As máquinas tinham vencido a única possibilidade de vitória humana, a única possibilidade de redenção do homem frente a elas. Mas a lógica do amor inverte a situação e faz Neo renascer. Junto com ele, renascem as esperanças de um mundo diferente.
Fortalecido por essa nova lógica, Neo novamente combate os agentes da Matrix e vence. Assim, pode-se inaugurar um novo mundo: "sem regras e controle, sem limites e fronteiras. Um mundo onde tudo é possível." Na cena final do filme, Neo sai de uma cabine telefônica e olha para os raios de Sol, anunciando a saída da caverna.
Notas
1 Interpretado por Keanu Reeves.
2 "Todavia, devo aqui considerar que sou um homem e, por conseguinte, que tenho o costume de dormir e de representar, em meus sonhos, as mesmas coisas, ou algumas vezes menos verossímeis, que esses insensatos em vigília. Quantas vezes ocorreu-me sonhar, durante a noite, que estava neste lugar, que estava vestido, que estava junto ao fogo, embora estivesse interiramente nu dentro de meu leito? Parece-me agora que não é com olhos adormecidos que contemplo este papel; que esta cabeça que eu mexo não está dormente; que é com desígnio e propósito deliberado que estnedo esta mão e que a sinto: o que ocorre no sono não parece ser tão claro nem tão distinto quanto tudo isso. Mas, pensando cuidadosamente nisso, lembro-me de ter sido muitas vezes enganado, quando dormia, por semelhantes ilusões. E, detendo-me neste pensamento, vejo tão manifestamente que não há quaisquer indícios concludentes, nem marcas assaz certas por onde se possa distinguir nitidamente a vigília do sono, que me sinto interiramente
3 Os filósofos naturalistas ou pré-socráticos.
4 Acontecimentos que confirmam o estado de barbárie da humanidade: as Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a ascenção do nazismo, do fascismo e do stalinismo, acontecimentos que causaram a morte de milhões de pessoas.
Bibliografia
Adorno & Horkheimer. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro, Zahar, 1997.
Descartes. Meditações. In: Os pensadores. São Paulo, Nova Cultural, 1996.
Matos, Olegária. A Escola de Frankfurt. São paulo, Moderna, 2001.
Platão. Fedão. In: Platão; diálogos. Trad. Carlos Alberto Nunes. Belém, UFPA, 2002.
_____. A República.7ª ed. Lisboa, Fundação Calouse Gulbenkian, 1993.
_____. Defesa de Sócrates. In: Os pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1980.
Reale, Giovanni. História da Filosofia Antiga. V.II. Trad. Henrique Cláudio de Lima Vaz e Marcelo Perine. São Paulo, Loyola, 1994.
Rovighi, Sofia Vanni. História da Filosofia Contemporânea; do século XIX à neoescolástica. Trad. Ana Pareschi Capovilla. São Paulo, Loyola, 1999.
Ricardo Melani Professor da Faculdade de Educação da PUC-SP
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