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Home >> Revista Cultura Crítica >> 04, cinema, 2º semestre de 2006 >> Terra e Liberdade- O silenciado testemunho de George Orwell

Terra e Liberdade- O silenciado testemunho de George Orwell

APROPUC-SP 04.03.09

Ivan Rodrigues Martin

Iniciada a Guerra Civil Espanhola, em 1936, além de muitos operários e estudantes, também intelectuais de várias partes do mundo se dirigiram à Espanha para lutar contra o avanço do fascismo. Da experiência vivida por defensores da liberdade de diferentes nacionalidades que, principalmente através das Brigadas Internacionais, foram lutar ao lado dos republicanos espanhóis, surgiram algumas narrativas que tentaram reconstruir, através da palavra escrita, os ideais de liberdade esfacelados pelos vencedores do conflito.
O fato de diversos intelectuais terem participado da Guerra Civil Espanhola na condição de testemunha ocular resultou na produção de diversos textos sobre esse acontecimento histórico, muitos deles escritos e publicados antes mesmo do fim da Guerra. No campo da literatura documentário, merecem destaque: For whom the bell tolls[1], do escritor estadunidense Ernest Hemingway (1898-1961), que contou com tradução ao português de Monteiro Lobato;  El corto verano de la anarquía - vida y muerte de Durruti, de Hans Magnus Enzensberger; Um brasileiro na Guerra Civil Espanhola, do tenente  José Gay da Cunha, que após ser expulso do exército brasileiro e exilar-se em Buenos Aires, dirige-se à Espanha para lutar ao lado dos republicanos e Homenaje a Cataluña, de George Orwell, que comentaremos a seguir.
No campo da historiografia, ainda nos anos da Guerra não foram poucos os textos sobre o conflito espanhol, muitos deles criticados ou resenhados pelo próprio Orwell nos jornais ingleses Time and Tide, New English Weekly, New Leader e The Adelphi, entre os anos de 1937 e 1940[2] : The Spanish Cockpit [El reñidero español], do sociólogo comunista Franz Borkenau que foi à Espanha para fazer trabalho de campo; Volunteer in Spain, do brigadista John Sommerfield, qualificado por Orwell como "basura sensiblera"; Red Spanish Notebook [Cuaderno Rojo de Barcelona], dos trotskistas Mary Low e Juan Brea que lutaram nas fileiras do POUM (Partido Obrero de Unificación Marxista, de orientação trotskista); Storm over Spain, da autora irlandesa Mairin Mitchell; Spanish Rehearsal, do franquista Arnold Lunn; The tree of Gernika, de G. L. Steer; Spanish Testament, do romancista húngaro Arthur Koestler; Spain's Ordeal, do também franquista Robert Sencourt, que, segundo Orwell, utiliza o termo anarquia apenas no sentido burguês de desordem; Franco's Rule, de autor anônimo, cujo subtítulo é "Retorno a la Edad Media", o que, para Orwell, representa uma injustiça contra a Idade Média pois "en aquella época no había ametralladoras y la Inquisición era una cuadrilla de aficionados. Al fin y al cabo, Torquemada sólo quemó a dos mil personas en diez años. En la Rusia o la Alemania de estos tiempos dirían que no se lo tomó en serio" [3]. 
Dentre as obras de caráter literário citadas anteriormente, é fundamental para a nossa perspectiva analítica sobre a Guerra Civil Espanhola, enfatizar a representação artística das tensões ideológicas realizada pelo escritor anglo-indiano George Orwell na obra Homenagem à Catalunha[4] , publicada em 1938, na Inglaterra. Primeiramente porque esse relato, produzido no calor dos combates bélicos e ideológicos, é um dos principais documentos que descreve a perspectiva revolucionária norteadora da ação dos combatentes anarquistas e trotskistas nos primeiros meses da Guerra, em contraposição à perspectiva do governo republicano, orientado pelo PC soviético. Em segundo lugar porque, antes mesmo do fim dos combates e da lamentável derrota sofrida pelos republicanos, Orwell antecipa em seu texto o perigo iminente que representam as disputas entre os vários grupos ideológicos que compunham o bando republicano. E finalmente porque pode-se depreender do relato de Orwell a ambiência revolucionária da Catalunha, onde se concentrava o maior número de militantes anarquistas.   
Essa fascinante narrativa, em que se pode reconhecer marcas de vários gêneros textuais, como o jornalístico, o missivista e também o literário, é fruto da experiência militante de um escritor estrangeiro que encontra em terras espanholas um chamado inadiável para a luta em favor da liberdade. George Orwell chega à Espanha em dezembro de 1936 para atuar como correspondente de guerra. No entanto, deixa-se contaminar pelo ideal libertário quando se depara com a atmosfera revolucionária de Barcelona, onde anarquistas e trotskistas levavam a cabo uma Revolução: coletivizavam as terras, as fábricas, as lojas e restaurantes. O entusiasmo do jornalista inglês com o processo revolucionário que se operava na Catalunha será o motor que modificará sua condição na Guerra (de jornalista a miliciano) e também seu texto sobre o conflito (de reportagem à literatura) e pode ser traduzido em uma de suas contundentes afirmações sobre a Espanha em guerra: "era la primera vez en mi vida que estaba en una ciudad donde la clase trabajadora tenía el mando" [5]
creve-se em uma milícia do POUM e segue para a linha de frente, na companhia de outros estrangeiros brigadistas internacionais, para lutar contra o fascismo. É dessa experiência direta com os combates bélicos e os ideológicos que resulta a obra Homenagem à Catalunha, um dos primeiros relatos de um participante da Revolução Espanhola.
Mas a que categoria narrativa pertence a história escrita por Orwell? Embora a princípio seja possível pensar que Homenagem à Catalunha seja um texto  eminentemente o jornalístico, tal classificação não se sustenta por, pelo menos, dois motivos.
O primeiro deles situa-se no campo biográfico. Ao inscrever-se nas milícias e abandonar sua função de jornalista, Orwell passa a observar o conflito "de dentro", movido por desejos e paixões. O segundo motivo, decorrente do primeiro, deve-se ao fato de ele mesclar narrativas objetivas - treinamento e organização das milícias, estratégias de combate, o cotidiano nas frentes de batalha - e suas impressões pessoais sobre o fenômeno revolucionário em curso naquela Espanha dos anos 30. Dessa mescla resulta o caráter literário de Homenagem à Catalunha: ao construir a narrativa dos combates a partir de sua experiência como combatente libertário, o autor/narrador extrapola a função referencial em seu texto e, como resultado, constrói um relato poético capaz de evidenciar o caráter revolucionário daquele conflito.
Por isso, esse texto, produto de sua apaixonada e traumática experiência pessoal, consegue traduzir, no plano da linguagem literária, seu desejo de preservação do ideal de liberdade que, talvez, só quem o tenha experimentado de fato, pode enunciar:

"Nadie que estuviera en España durante los meses en que la gente aún creía en la revolución olvidará nunca aquella extraña y conmovedora experiencia. Há dejado una huella que ninguna dictadura, ni siquiera la franquista, podría borrar."[6]

Anti-imperilista, antifascista e anti-estalinista, Homenagem à Catalunha denuncia ao mundo o massacre às idéias libertárias perpetrado na Espanha, tanto pelas forças nazi-fascitas que estiveram ao lado de Franco, como pelas forças soviéticas que supostamente estariam apoiando os republicanos naquela luta. Nos doze capítulos que compõem a obra, Orwell trata de descrever sua experiência naquele país, desde sua chegada até junho de 1937, quando consegue fugir em direção à Inglaterra com os estalinistas ao seu encalço.
Não fortuitamente, a obra foi boicotada na Europa, tanto pelos intelectuais liberais de direita como pelos marxistas envolvidos com o Partido Comunista. Apenas para que se tenha uma idéia do efetivo boicote ao texto, sua primeira edição, de 1938, com tiragem de 1500 exemplares, ainda não havia sido esgotada na década de 50 quando foi publicada na Inglaterra uma segunda edição revisada pelo autor. Mais assustador ainda é que apenas em 2003, portanto quase trinta anos após o fim da ditadura franquista, o já sexagenário Homenagem à Catalunha é publicado integralmente pela primeira vez na Espanha, conforme comenta Miguel Berga no prólogo da obra completa dos textos de Orwell sobre sua experiência na Guerra Civil, publicada em comemoração ao centenário de seu nascimento:

"(...) Orwell en España supone la aparición de una obra central en el canon orwelliano, Homenaje a Cataluña, publicado ahora por primera vez en España sin las supresiones y cambios impuestos por la censura franquista (inoperante, por supuesto, con el antiestalinismo de Orwell, pero muy efectiva con su antifranquismo). Que para conseguirlo hayan tenido que pasar 65 años desde la primera edición inglesa de Homenage to Catalonia y 28 años de la muerte del general Franco provoca cierto rubor con relación al mundo editorial peninsular. "[7]

Esses fatos objetivos são reveladores do sistemático massacre a que têm sido submetidos os ideais libertários no século XX. No caso da iminente Revolução Espanhola, os detentores do poder hegemônico tanto em terras européias quanto na antiga União Soviética tinham a consciência de que, além de interditar o processo revolucionário espanhol, eliminando das fileiras republicanas os anarquistas e os poumistas, seria necessário também fazer desaparecer os relatos prenhes de liberdade sobre aquela tentativa revolucionária.
Não foi apenas a intenção deliberada de apagamento do processo revolucionário espanhol pelos poderosos que escamoteou a importância desse evento histórico. A II Guerra, iniciada em 1939, graças às suas proporções globais e a toda barbárie que a caracterizou, ocupou o centro das atenções dos estudos sociológicos e historiográficos sobre o século XX, contribuindo para o não aprofundamento das discussões sobre a revolução intencionada na Espanha.
Mas o que há de tão "perigoso" na narrativa de Orwell para que ela tenha sido submetida a esse processo deliberado de silenciamento? O manifesto "COMBATE POR LA HISTORIA", assinado por intelectuais espanhóis e estrangeiros em Barcelona, em junho de 1999, se não responde diretamente a essa questão, ao menos chama a atenção para o perigo que representa para a classe trabalhadora o apagamento da memória histórica de suas lutas. Ao roubar dos trabalhadores seu protagonismo naquele conflito, reafirma-se uma perspectiva histórica conservadora, que nada mais é do que a história de classe da burguesia. Além disso, segundo o documento, a geração de historiadores revisionistas nega a força decisiva de um movimento revolucionário, majoritariamente anarquista, na zona republicana. Na esteira dessa perspectiva negacionista do movimento revolucionário que se configurou durante a Guerra Civil Espanhola está o boicote ao texto de Orwell e também ao filme "Terra e Liberdade"[8] , de que trataremos posteriormente:

Lamentan que Orwell escribiera un "maldito" libro que jamás debió leerse, y Loach filmara una "horrorosa" película que jamás debió verse. [9]
   
De fato, Homenagem a Catalunha, assim como outros dois conhecidos textos de Orwell - Revolução dos Bichos[10]  e 1984[11]  - representam uma ameaça à manutenção das estruturas de Estado, sejam elas comunistas ou liberais. Pelo mesmo motivo, após a vitória de Franco e das forças reacionárias que o apoiaram, buscou-se apagar da história literária e da memória dos espanhóis que sobreviveram, os valores éticos libertários divulgados pelos quase seiscentos pequenos romances, escritos e editados pelos anarquistas espanhóis naqueles anos de intenso debate ideológico. Desse assunto, trataremos na segunda parte desta tese. Antes disso, no entanto, observaremos como os valores morais que compõem a ética anarquista, que encontrou nas páginas da literatura de massas um eficiente veículo de propaganda ideológica, manifestam-se também em outros materiais de divulgação ideológica produzidos no calor dos combates que se travaram na Espanha nos anos de 1930: as canções cantadas pelos combatentes nas trincheiras e nos quartéis e os cartazes que, através de recursos próprios de expressão, como a associação de imagens impactantes e frases de efeito, divulgavam o debate ideológico travado entre as forças políticas que compunham aquele contexto revolucionário.


Notas


Ivan Rodrigues Martins Professor do Depatamento de Linguítica da PUC-SP

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