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Home >> Revista Cultura Crítica >> 04, cinema, 2º semestre de 2006 >> Uma reflexão sobre o filme Cidade de Deus

Uma reflexão sobre o filme Cidade de Deus

APROPUC-SP 02.03.09

Paulo Faro

"Cidade de Deus" não retrata nem denuncia uma realidade. Em primeiro lugar, trata-se da adaptação de um livro, ou seja, toma como referente primeiro não a realidade, mas sim o livro. O livro transforma a realidade e conta uma história utilizando-se da linguagem literária. O filme traduz essa linguagem, transformando-a em discurso cinematográfico. A estética escolhida é a vigente no cinema contemporâneo, iniciado em meados dos anos de 1990, que dialoga com a publicidade e o videoclipe. Usa elementos próprios do cinema para narrar uma história (várias, neste filme) passada dentro de um contexto específico: o de uma favela no Rio de Janeiro onde a atividade predominante é o narcotráfico.
Assim como diversos outros filmes sobre o mundo do crime e das drogas, o filme de Fernando Meirelles tira o máximo de proveito de elementos formadores desse meio para fazer com que a história avance, caracterizando os personagens e o espaço onde eles se deslocam. A violência seria um dos principais elementos caracterizadores deste lugar e de seus habitantes (tanto é assim que os personagens estão separados no filme por serem menos ou mais violentos, menos ou mais criminosos). A violência é um elemento da ação do filme, necessária para o desenvolvimento da história.
A crítica que vem sendo feita em relação a esse filme reside no fato de mostrar ou "usar" a violência e as desgraças da vida deste lugar para fazer um filme comercial para o grande público. Utilizando-se de uma linguagem moderna, que estiliza esses elementos,  glamourizando-os sem considerações éticas e morais.
A arte em geral sempre se utilizou de uma determinada realidade com a finalidade de transformá-la em discurso estético. A pintura (Portinari), a literatura (Vinhas da Ira, de John Steinbeck), a música (o reggae ou o rap) e o cinema ("Ladrões de Bicicleta", de Vitório De Sica) estão repletos de exemplos de obras que tomam uma determinada realidade, inserida em problemas éticos, morais, políticos, sociologicamente problemáticos, para fazer arte.
Platão e Aristóteles já discutiam isso e apresentavam cada um visões diferentes sobre os valores morais e éticos da obra de arte. Platão acreditava que a arte (menos a música) devia ser excluída da sociedade, porque faz com que o ser humano se afaste do "mundo das idéias" (ideal de realidade para Platão). Para Aristóteles, a arte, principalmente a tragédia, faria o contrário do que dizia Platão. Em sua Poética, o filósofo trata desse assunto colocando que a forma ideal da tragédia seria justamente aquela que tomava os valores e as ações dos homens transformando-os em discurso estético. Na sociedade grega, a tragédia (a poesia, a arte), era fundamental porque colocava questões éticas e morais que faziam com que o homem grego refletisse sobre suas ações e com que a sociedade, ao contrário do que dizia Platão, nos aproximasse do "mundo das idéias". Essas são questões discutidas há muito e apresentam-se tão complexas que é difícil chegar a uma conclusão. A problemática apresentada pelo filme "Cidade de Deus" recai sobre essas questões. No entanto, o que se critica no filme não é o que se mostra - uma realidade com problemas sociológicos profundos (como o fez o livro, aclamado pela crítica) -, e sim a forma como o faz.
Durante o desenvolvimento da linguagem cinematográfica, houve grandes mudanças, principalmente em duas ocasiões até os dias de hoje. Uma, logo no início, quando Griffith e outros cineastas estabeleceram os códigos "clássicos" do discurso cinematográfico. Outra, durante e, principalmente, depois da Segunda Guerra Mundial, quando as diversas cinematografias no mundo começaram a romper com o discurso clássico, apresentando outras formas de narrativa, que viriam a estabelecer a linguagem do cinema moderno.
Já passadas mais de cinco décadas desde o início dessas inovações e renovações, o cinema encontra-se, novamente, com a necessidade mundial de mudança. Essas transformações estão relacionadas com diversos aspectos da sociedade: as mudanças sócio-econômicas, culturais e, principalmente, a importância que outros meios de comunicação, como a televisão e a internet, passaram a ter, exercendo alterações na percepção audiovisual dos indivíduos.
Até os anos de 1960, já haviam sido iniciadas diversas rupturas nas cinematografias européias (neo-realismo italiano, Nouvelle Vague francesa, novo Cinema alemão) e na norte-americana (primeiramente Orson Welles, Cassavetes, e posteriormente Morrisey, Spielberg, Lucas, Coppola), quando começaram a chegar na América Latina essas influências. O cinema novo brasileiro foi um dos mais influenciados e desenvolvidos a partir daquelas outras correntes.
Já com alguns anos, o cinema norte-americano e europeu vêm desenvolvendo essa nova linguagem (diretamente influenciada pela televisão, e mais recentemente, pela internet), que agora começa a apresentar-se entre as novas realizações brasileiras (os três filmes de Beto Brant). A questão não está na problemática das necessidades das diversas cinematografias nacionais, e sim na necessidade de se formularem novas formas de narrativa para que a linguagem não fique estagnada. O cinema necessita transformar-se porque ele próprio foi um grande transformador, o que é uma de suas principais características (a capacidade de mudar planos, pontos de vista através da montagem e de ângulos e posições de câmera).
A proposta do filme "Cidade de Deus" é a de renovar a narrativa dentro do cinema brasileiro. A história é contada através de um roteiro bem acabado (diferentemente, a meu ver, do filme "O Invasor"), terminando nessa nova forma estética, que aparece agora e valida-se no panorama do cinema contemporâneo mundial. A "estilização" ou "glamourização" estão presentes no filme, mas não com o intuito de ridicularizar ou menosprezar a história que está sendo contada. São elementos que fazem parte desta nova linguagem e adquirem esses nomes em virtude de uma crítica pejorativa, baseada em teorias que já não cabem (porque foram feitas em outras circunstâncias, dirigidas a outros filmes) na perspectiva de uma análise mais profunda do que está sendo desenvolvido no cinema hoje.
Em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", Glauber Rocha trabalha uma temática também de cunho sociológico, que transforma uma determinada realidade por meio de elementos cinematográficos que servem a esta arte. Neste filme, Glauber Rocha utiliza elementos do western, da Nouvelle Vague, da vanguarda soviética (principalmente Eisenstein), e os adapta para que lhe sirvam melhor. Em uma cena, Corisco (Othon Bastos) e Maria (Yoná Magalhães) se encontram e se beijam. Neste momento, a câmera começa um movimento circular em volta dos dois, acompanhados por uma peça de Villa-Lobos. Podemos ver que, a essa altura, a história, o momento, a cena e a ação das personagens, também sofrem uma "estilização" que serve à estética usada por Glauber Rocha. Esses elementos fazem parte da grande ruptura estabelecida pelo diretor, e foram de grande importância para o cinema brasileiro. O mesmo acontece em "Cidade de Deus": o diretor escolhe a melhor forma para contar uma história, submetendo a estética à história, para que exista coerência com o todo. Existem elementos extradiegéticos que fazem parte do filme, assim como estão presentes elementos semelhantes em "Deus e o Diabo na Terra do Sol". Posições de câmera, planos ou cortes podem estar presentes também por uma escolha estética pessoal, mas sempre tendo em vista a história que está sendo contada.
Os problemas de índole ideológica estão presentes tanto em "Deus e o Diabo na Terra do Sol" como em "Cidade de Deus". Mas, no caso de se colocar a estética cinematográfica em primeiro plano, as formas dos dois filmes são de extrema importância. Estando de acordo com o seu conteúdo, pertencente a duas propostas diferentes, provocam uma ruptura necessária para o desenvolvimento da linguagem cinematográfica.


Paulo Faro Pós - graduanda em Comunicação e semiótica pela PUC-SP

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