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Home >> Revista Cultura Crítica >> 04, cinema, 2º semestre de 2006 >> “A sua missão é revelar a minha missão” Entre a narrativa documental e o filme de ficção

“A sua missão é revelar a minha missão” Entre a narrativa documental e o filme de ficção

APROPUC-SP 02.03.09

Paula Faro 

Marcos Prado iniciou seu projeto fotográfico no Jardim Gramacho em 1994. O projeto rendeu-lhe dois caminhos, os quais foram por ele percorridos ao longo de quase dez anos. O primeiro, um ensaio fotográfico, transformou-se no livro que leva o nome do lugar. Imagens que documentam o lugar e as pessoas que ali vivem. O segundo transformou-se no filme chamado "Estamira". O filme teve início quando Marcos Prado encontrou Estamira no Jardim Gramacho, enquanto fazia seu ensaio fotográfico. Nesse encontro, ela lhe perguntou se ele sabia qual era sua missão. O fotografo disse que não. Ela mesma respondeu: "A sua missão é revelar a minha missão." A partir deste momento, Marcos Prado iniciou um processo que duraria quase cinco anos: fazer um filme sobre Estamira. O filme, com seu discurso estético, já não mais serve como documentação, como o livro, mas sim como uma representação ou revelação de uma personagem que habita entre dois mundos.
O filme "Estamira", considerado um documentário, propõe, a partir de sua narrativa e estética, um modo diverso do fazer documentário como habitualmente conhecemos. O diretor faz uso de elementos próprios da construção da linguagem audiovisual para mostrar ao espectador um personagem e sua missão. Estamira, ao longo do filme, se transforma numa espécie de anti-herói, levando o espectador a identificar-se com ela e sua missão. Marcos Prado inverte, assim, a índole do gênero documental, construindo com elementos próprios do filme de ficção uma narrativa dramática.
O documentário, considerado hoje um gênero audiovisual, vem ganhando ao longo dos últimos anos relevância no âmbito da produção brasileira. Muitos diretores optam, hoje, por fazer documentários, tanto por sua praticidade técnica quanto por sua viabilidade econômica. Um dos maiores festivais que atualmente acontecem no país é o "It´s All True ou É Tudo Verdade". O documentário, porém, não pode mais ser considerado como tal, já que tem dialogado fortemente com o filme de ficção a partir de sua composição narrativa. O documentário ganhou uma nova forma a partir do hodierno choque com a narrativa ficcional e vice-versa.
Ficção e documentário, no desenvolvimento da história do cinema, criaram um diálogo de intercâmbio permanente entre elementos ligados diretamente com uma questão intrínseca à essência cinematográfica: seu fator de veracidade. Verdadeiro ou falso, documentário ou ficção? Um filme pode ser um e outro, de acordo com a vontade do narrador e o que este pretende com sua narração. As novas estéticas, influenciadas pelo neorealismo e outros movimentos (como o cine-olho de Vertov), desenvolvidas na década de 1960, questionaram esse tema, criando uma convergência estética do documentário no filme de ficção, não para tornar este mais verdadeiro (ou verossímil), mas para evidenciar sua falsidade.
Do meu ponto de vista, o diretor traz essa proposta com o filme. Desde seu início, constrói cuidadosamente, com belíssimas imagens e sons, a missão de sua personagem. As formas expressivas ganham um valor narrativo que, se não fossem utilizadas, provavelmente o diretor nos daria apenas um retrato de Estamira. Com o auxílio de elementos próprios de uma linguagem audiovisual, simbólica e metafórica, Marcos Prado constrói seu filme. A música, o enquadramento, a montagem, a relação entre som e imagem, a planificação e a própria ordem que foi escolhida para o filme cumprem este papel.
Vemos as primeiras imagens em branco e preto, originalmente captadas em super-8, traçando o longo trajeto de Estamira, que sai de sua casa e vai até o Jardim Gramacho. Este é o percurso entre dois mundos. Duas personagens. Duas relações com o mundo. Constituem as duas partes do filme no plano da narração. Os dois mundos habitados por Estamira, aos quais o diretor se remete para construir o personagem. As imagens em preto e branco, em super-8, são cinematográficas, têm perspectiva, grão, muito céu ou muito chão, e também poderiam ser fotografias em movimento. O diretor do filme é fotógrafo, e tem a formação de seu olhar no âmbito dessa linguagem. O uso que ele faz dessas imagens para sua construção contrastam com as outras imagens coloridas e feitas com câmera digital. O super-8 também lembra a película, do cinema, do mundo que, ao longo da história, foi construído por esta arte que é a ficção. O vídeo, o digital e a cor trazem a realidade. Como se o vídeo fosse documentário, e a película, ficção.
Inúmeros documentários são feitos em vídeo, formato que permite que essa produção cresça devido ao baixo custo que proporciona e à sua liberdade técnica. Através dessas distinções, poderíamos dizer que o diretor escolhe dois momentos para o percurso narrativo do filme. Assim como escolhe o vídeo, a película, a linguagem cinematográfica e a fotografia, como ferramentas que estabelecem um jogo de elementos que transitam entre um e outro se misturando. Também vemos os dois lugares da personagem se misturarem, e assim a própria narrativa do filme. Esses momentos não estão delimitados pela escolha de um determinado formato, apenas nos remetem a estas questões. Esses elementos cumprem, no filme, uma função narrativa que serve à estética escolhida pelo diretor para inverter o jogo estabelecido entre os dois mundos apresentados. Ao longo do filme, esses formatos se misturam. Assim como os dois mundos: Jardim Gramacho e a realidade fora dele. São elementos inseridos no âmbito de escolhas estéticas que o diretor faz servindo a sua proposta narrativa.
Na primeira parte, seguimos Estamira, que nos revela sua missão, seu mundo, o Jardim Gramacho. O diretor, Marcos Prado, por meio das imagens, música e voz em off revela a missão de Estamira. As combinações que se fazem por meio da montagem com esses elementos narrativos constroem um personagem. Estamira, no discurso místico-metafísico apresentado pelo filme, poderia ser ficção. O mundo construído por ela dentro do lixão é outro, fora da sua casa, de sua realidade, de sua relação com seus filhos, com seu passado e com as instituições. Jardim Gramacho é o mundo onde ela escolhe habitar. Ele nos é revelado pelas imagens de Marcos Prado, em preto e branco, coloridas, metafóricas, que trazem elementos míticos e constroem seu olhar e o olhar de Estamira sobre o mundo. Mas não apenas a construção das imagens, neste filme, adquirem uma importância fundamental. Também a música, essencialmente narrativa e dramática, os sons do lugar, e a voz em off de Estamira possuem esse estatuto. É por esse aspecto que se pode marcar a desconstrução do discurso instaurado pelo gênero documentário. O diretor inverte, pela montagem de sons e imagens, a construção narrativa, misturando esses elementos para criar assim o mundo da personagem e sua visão. As imagens em preto e branco do início vêm acompanhadas da música (composição original para o filme), que cria outro significado. Imagem e som têm um valor narrativo, e não apenas o sentido de um retrato ou documento.
Vemos uma introdução. Esta composição nos leva pelo filme durante muito tempo, até que outro sentido seja instaurado, invertendo a lógica que a narrativa construía para a personagem. O diretor também constrói um sentido e um significado para o filme e sua personagem, por meio das imagens e da voz em off de Estamira. O que vemos não está diretamente relacionado com o que escutamos, e vice-versa. Diferente será o que veremos na segunda parte do filme. Imagens dos urubus que se misturam com o lixo voando, o fogo, a nuvem carregada de chuva, Estamira no meio de tudo isso, sem necessariamente terem relação direta, a não ser pelo plano narrativo construído pelo diretor, que tece um discurso metafórico que serve à visão de Estamira e ao mundo construído por ela. O lixão do Jardim Gramacho não é o lixão, o submundo, a destruição; tudo isso adquire outro valor, que serve tanto à estética do filme como à linguagem construída por um diretor que revela a missão de sua personagem: Estamira.


Paula Faro Pós - graduanda em Comunicação e semiótica pela PUC-SP

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