Imagens de “Stalker”
Gabriel Rath Kolyniak
A abordagem de uma obra de arte pode se dar por inúmeros meios, tão variados quanto diversas são as finalidades de quem busca, na atividade da crítica, um motor. A validade desses meios não está em causa e nem pode ser encontrada na essência de cada um, uma vez que eles se definem pelos níveis de interpretação que afirmam, assim como por aqueles que negam.
Neste texto, procuro abordar o filme "Stalker" (1979), de Andrey Tarkovsky. Trata-se de uma obra peculiar, que narra uma história tipificante do procedimento do "stalker". Esse procedimento é o que explica a sua atividade. Objetivamente, ele é um especialista em adentrar uma perigosa terra, misteriosa, à qual as personagens do filme nomeiam "a Zona". Em algum ponto subterrâneo da Zona, há uma sala cujo piso está aberto. Ali, vê-se um espelho d'água, talvez mais - um pequeno poço -, onde se pode encontrar aquilo que se deseja. O desejo encontra sua resposta num acontecimento vazio e impregnante: quando vão embora da Zona, os homens encontram o que querem, num sentido particular de "encontrar".
O filme se desenvolve, em sua maior parte, pela tematização de uma expedição à Zona. O "stalker" encaminha os aspirantes à sala por rumos que parecem arbitrários, cambiantes de acordo com uma regra que não parece se objetivar fora do delírio do "stalker". Ele afirma que a Zona muda o tempo todo, que um caminho não pode se repetir; tem de se haver com a fadiga, a irritação e a mesquinharia dos visitantes. A história, a intriga que se move no filme é obscuramente revelada, muitas vezes por longas tomadas de um estado de afetação de uma personagem por aquilo que a rodeia, de forma a sintetizar as relações entre as personagens e os processos que os envolvem em acontecimentos não-subjetivos, mas radicais de animosidade: a chuva repentina, o sol, o azul da manhã, o vapor ou a textura do fundo de um fio d'água onde repousam as armas esquecidas.
A prudência, virtude que parece ser a marca principal do "stalker", é a base da construção de uma ética da precariedade que, para revelar sua potência maior, deve ser, a um tempo, aproximada e diferenciada de um problema de classes sociais. A distinção entre o "stalker" e os outros tende a relegá-lo ao âmbito do "piolho", uma espécie de aproveitador sem classe definida, pelo menos aos olhos dos cavalheiros que lhe pagam para que ele lhes guie. Talvez seja cabível dizer que ele se inscreve numa diferenciação de classe do saber, das práticas, das forças produtivas e da sua produção, tal como se inscreve no mundo. É importante não confundir essa questão com a das posses ou da classe social segmentada de acordo com o critério da riqueza.
Importa-me mais, mesmo que isso exija uma radical mudança de direção deste texto, fazer um prisma das imagens de "Stalker", com o qual procurarei insinuar idéias que escapam ao âmbito do próprio filme, mas que se oferecem no texto. Elas estão sob as palavras, numa superfície que, para ser compreendida, precisa ser lida de acordo com operações de intuição simbólica. Uso esse termo com um certo temor, uma vez que ele se aplica a conhecimentos hoje menosprezados, por razões históricas ligadas à instituição do Saber, e que precisam de um abrangente esforço de ponderação para se formularem para além do misticismo ou do culto à superstição. A intuição se efetua em qualquer linguagem, e as linguagens hoje relegadas ao misticismo podem ser consideradas (mas isso apenas até um certo ponto) como formas de sistematizar um incessante diálogo que os homens mantêm, ininterruptamente desde seu início, sobre os rumos, os caminhos e descaminhos da vida. Porém, qualquer conjunto de sinais pode ser submetido à atividade da intuição; paranóia e hermenêutica, eis os dois falsos horizontes de um saber que se desenvolve à margem dos desígnios.
É uma manhã lúcida esta; é dizer - uma conquista. Que sorte de lamentação haverá em tiste conquista revelar? Bendito sonho, vermelha sua natureza mutável - permanecer.
Quando vem a ser stalker, um homem privilegia-se como condutor de uma força, embora o fim que explica sua tendência seja um passo em falso - passo à esquerda. Ele encaminha os homens até um quarto escondido atrás das armas, das ciladas da Zona, dos métodos de lentidão e desvio que a sua mutabilidade exige dos homens. Os métodos é que preenchem de sentido o vazio que retorna no fim: quanto mais próximos da sala última, mais os homens verão os inúmeros meios pelos quais a morte vem. Não era todavia a morte que os esperava, mas sim a água.
A mulher do stalker se responsabiliza por dois cuidados, duas potências que notabilizam a prática de seu homem[2] : o acesso de cólera em face do retorno à Zona; a repetição da própria atividade do stalker - o cuidado de si e seu ensino - para além das fronteiras e das armas da Zona, em qualquer parte: a mulher repete a Zona em toda parte, lua negra. Como a utilizamos como a imagem da sensibilidade fundamental e desnuda, portanto mais como Lilith do que como Eva, o leitor poderá inferir sua "própria" sombra também guarda a potência de transformar seu corpo em superfície colérica, logo expressiva, logo biológica e dançarina e profundamente transgressora: ponte.
A filha do stalker é telepata.
Uma modalidade refinada de conhecimento emana da Zona. A faculdade que extrai dos vários estados da Zona o centro obscuro e inexistente (confusa idéia, mas a formulação do conhecimento da Zona não suportaria as conseqüências da contração da força que o agita) é a intuição.
Disposição de si ao dano é a exigência para tornar-se stalker. Toda escolha, todo gesto pelo qual um homem se torna um atuante de uma força em especial, a qual ganha forma diversas em diversos âmbitos políticos, isto é, em vários domínios discursivos, todo gesto de força pede pela abertura do olho à vertigem, como olhar para a Sala das Águas, órgão da Zona: para lá vai o stalker, como cada homem lúcido. Peixe, caranguejo e ferrão, se inventa como meio para imaginar moldar a superfície do fundo obscuro - que não tem superfície, mas se imagina densamente -, aquoso barro às portas do fundo do homem. Não deixará de ser uma imagem de clínica, ao modo de Deleuze e Guattari. Devir-escorpião e águas.
Um discurso intransigente, uma radicalidade do imperceptível que se erige para coerrar na Zona. Essa terra permanece em sensações que formam uma vaga imagem da aspiração pelas águas como um centro, o que, certamente, é a falsidade da Zona, o seu Deus portanto, uma narrativa abstrata que permite propriamente a sua invenção - sua constante obtenção - como uma terra mágica, um terreiro, a promissão como uma farsa que pode perder e salvar um homem enlouquecido ou, menos falsamente, com sede dessas águas.
As fronteiras da terra de poder são as casas das armas e das metralhadoras - passadas armas, sua ilusão se estende como sono em vigília. Assim, buscar as águas.
O problema mais aberto dessa busca: haverá revelação? O mundo, o conhecimento, o real, a dissolução, a perversão, o raciocínio, a sabedoria - todos esses modos de conhecimento poderiam, em algum mundo, conceber univocamente a Sensação?
O indigno na Zona tem precisamente a formação de vícios que amesquinham a vida em qualquer parte. A mesquinharia é a vicissitude que cega um homem na Zona. Esse tipo de cego melhor caminharia de joelhos; não é o sem olhos, tampouco o cego grego, o vidente. É precisamente aquele que, com a possibilidade e a força de reordenar os agenciamentos de enunciação, pode transfigurar o mundo, mas o faz de acordo com um princípio fraco, inexistente, flor seca, e não raiz movente. Cego fugitivo, e não nadador, jamais peixe. Esses, os atrapalhados visitantes da Zona que dela duvidam, da mesma forma que ainda suspeitam, hoje, da arte vivente.
A Zona é misteriosa e armada. Não se vêem mortos, mas a morte sempre permanece: ela atua, como se pode sentir assistindo ao filme, pelo som do vento enquanto vemos as plantas a ele se dobrarem, pela chuva grossa, o aqueduto, o Coração das Águas... assim a morte se declina - e não só em "Stalker". O sentido e o propósito dessa abordagem da morte talvez se formulasse com um fragmento do poema "Os primeiros encontros", de Arseny Tarkovsky, o pai do diretor de "Stalker":
Íamos, sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o vôo,
E no rio os peixes à procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.
Porque o destino seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.
Notas
1 Lembremos que, como todas as dimensões que integram essa apologia do stalker são correspondentes a fatores que agem de maneira diversa e múltipla nos homens, "a mulher do stalker" é tomada como uma imagem arquetípica de uma dimensão sensível que, em última análise, é preservada por um conjunto de potências que evidentemente não está ligado à separação dos gêneros. Seria como o simbolismo da imagem da lua, uma dimensão que é, atualmente, ligada à fragilidade, o que, é claro, é uma contingência da cultura.
Gabriel Rath Kolyniak Aluno do curso de Letras, com habilitação em português, da Faculdade de Comunicação e Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
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