Os banqueiros são os ditadores do Ocidente
O Premier da Irlanda disse a seu povo que eles não eram responsáveis pela crise. Mas ele não disse
quem eram os culpados. Já não é hora de que ele e seus colegas o digam? E os jornalistas também?
Escrevendo na região que produz mais clichês por metro quadrado que qual- quer outra 'história'- o Oriente Médio -, eu deveria
talvez fazer uma pausa antes de dizer que nunca li tanto lixo, tanta porcaria como tenho lido a respeito
da crise financeira mundial.
Me parece que o jornalismo sobre este colapso do capitalismo chegou a um novo subsolo que nem mesmo o Oriente Médio é capaz
de alcançar, em termos de obediência intocada e completa às próprias instituições e "especialistas" de Harvard que ajudaram a pro-
vocar o desastre criminoso.
Comecemos com a "Primavera Árabe" e com os paralelos falaciosos com os protestos sociais nas capitais ocidentais. Fomos
inundados com jornalismo que afirma que os pobres ou os desfavorecidos no Ocidente tiraram uma "página" do livro da "primave-
ra árabe", que os manifestantes nos EUA, Canadá, Grã-Bretanha, Espanha e Grécia foram "inspirados" pelas enormes manifesta-
ções que derrubaram os regimes do Egito, da Tunísia e - até certo ponto - da Líbia. Isso é nonsense.
A comparação real escapou aos jornalistas ocidentais, para sugerir que elas estão apenas adotando a úl-
tima moda do mundo árabe. A verdade é um pouco diferente. O que levou os árabes às ruas das capitais do Oriente Médio foi a
exigência de dignidade e a recusa a aceitar que os ditadores locais, de um grupo de famílias, fossem dos donos dos países. Os Muba
raks, os Ben Alis, os Gaddafis, os reis e os emires do Golfo (e da Jordânia) e os Assads acreditavam que tinham direitos de
propriedade sobre a totalidade de suas nações. O Egito pertencia à Mubarak Inc., a Tunísia à Ben Ali Inc. (e à família Traboulsi), a
Líbia à Gaddafi Inc. E assim por diante. Os mártires árabes contra as ditaduras morreram para provar que seus países perten-
ciam a seus próprios povos.
E esse é o verdadeiro paralelo com o Ocidente. Os movimentos de protes to são, deveras, contra os grandes negócios - uma causa
perfeitamente justificada - e contra os "governos". O que eles realmente perceberam, ainda que tardiamen
te, é que durante décadas se iludiram com uma democracia fraudulenta: votam civicamente em partidos políticos, que então
entregam seus mandatos democráticos e o poder do povo aos bancos, aos seus negociadores derivados e às suas agências de
classificação de risco, todos eles sustentados pela corja preguiçosa e desonesta dos "especialistas" dos "think tanks" e das prin-
cipais universidades estadunidenses, que mantêm a ficção de que esta é uma crise da globalização, e não um massivo engano
financeiro imposto aos eleitores.
Os bancos e as agências de classificação de risco se tornaram os ditadores do Ocidente. Como os Mubaraks e os Ben Alis, os bancos
acreditaram - e ainda acreditam - que são os donos de seus países. As elei- ções que lhes conferem o
poder se tornaram - pelo conluio e falta de vergonha dos governos - tão falsas como as urnas às quais os árabes eram obrigados a
marchar década após década para ungir os seus próprios donos da propriedade nacional. Goldman Sachs e o Banco Real da Escócia
se tornaram os Mubaraks e Ben Alis dos EUA e do Reino Unido, cada um deles engolindo as riquezas de seu povo em recompensas
e bônus de araque para seus patrões viciosos, numa escala infinitamente mais voraz que as gananciosas famílias de ditadores árabes
jamais poderiam imaginar.
Eu não precisava do documentário "Inside Job", de Charles Ferguson (apesar de que ele ajudou), para me mostrar que as agências
de classificação de risco e os bancos dos EUA são intercambiáveis, de que seu pessoal se move sem sobressaltos entre agência,
banco e governo. Os senhores da classificação (quase sempre senhores, claro) que deram nota AAA aos empréstimos sub-prime e
seus derivativos nos EUA estão agora -através de sua influência venenosa nos mercados - cravando suas garras no povo da Europa,
ao ameaçar reduzir ou retirar, das nações europeias, a mesma nota que eles haviam concedido a criminosos antes do colapso
financeiro nos EUA. Eu sempre acreditei que atenuar é a melhor forma de vencer discussões.
Mas, me perdoem, quem são essas criaturas cujas agências de classificação agora dão mais medo nos franceses do que Rommel
dava em 1940?
Por que meus colegas jornalistas lá em Wall Street não me ensinam? Como é possível que a BBC e a CNN - e, oh queridos, até a
Al Jazeera - tratem essas comunidades de criminosos como instituições inquestionáveis do poder? Por que não há investigações - o
"Inside Job" começou a assinalar o caminho - desses escandalosos negociadores duplos? Isso me lembra a forma igualmente
covarde em que tantos jornalistas estadunidenses cobrem o Oriente Médio, evitando, assustados, qualquer crítica direta a Israel, com
a cumplicidade de um exército de lobistas pró-Likud, tudo para explicar aos espectadores por que
devemos confiar nas "iniciativas de paz" dos EUA no conflito israelo-palestino, por que os bons são os "mo-
derados" e os maus são os "terroristas".
Os árabes pelo menos já começaram a questionar esse nonsense. Mas, quando os manifestantes de Wall Street começam a fazer o
mesmo, eles se tornam "anarquistas", os "terroristas" sociais das ruas ameri-
canas, que ousam exigir que os Bernankes e os Geithners encarem o mesmo tipo de tribunal que Hosni Mubarak. Nós, no Ocidente -
nossos governos - criamos nossos ditadores.
Mas, ao contrário dos árabes, não podemos tocá-los.
O Primeiro-Ministro da Irlanda, Enda Kenny, informou solenemente a seu povo, esta semana, que eles
não eram os responsáveis pela crise em que se encontravam. Eles já sabiam disso, é claro. O que ele não disse foi quem eram os
culpados. Já não é hora de que ele e seus colegas europeus o digam? E nossos jorna- listas também?
Tradução: Idelber Avelar http:// www.vermelho.org.br/noticia.php? id_noticia=170805&id_secao=9 em
12 de Dezembro de 2011
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