Debate conclui que Enade usa critérios de mercado na avaliação
O pátio da Cruz que já foi palco de muitas manifestações, assembléias e debates, no dia 28/10 recebeu a polêmica discussão sobre o Enade (Exame Nacional de Desempenho do Estudante). A mesa foi composta pela professora Liguia Masoshigue, do ANDES-SN, José Arbex Jr., professor de jornalismo e diretor da APROPUC, e César Fernandes, estudante de psicologia da UFPR e membro da CONEP (Coordenação Nacional dos Estudantes de Psicologia).
A professora Liguia abriu o debate dizendo que "o Enade passa à revelia da instituição, definindo a natureza e o caráter dos currículos e das prioridades de formação, afrontando abertamente a autonomia didático-científica das universidades e abrindo caminho para uma maior presença de empresários e setores particularistas na educação superior brasileira".
César Fernandes, por sua vez, mostrou que não é possível pensar o Enade sem compreender que o Exame está inserido no Sines (Sistema Nacional de Empregos) e no Reuni, parte da política do atual governo que precariza e privatiza o ensino no Brasil. Segundo o estudante, o Enade "individualiza o estudante pelo mérito e pelo demérito de sua formação, sendo que ele não é o único responsável por isso". Além disso, afirmou que a prova tem como objetivo apenas diagnosticar que existe um problema, mas não aponta a forma como este pode ser superado e muito menos fornece as bases materiais para que isso ocorra.
Boicote e uma outra avaliação
César comentou sobre a necessidade de se construir um novo modelo de avaliação que respeite as diversidades regionais, que não ranqueie as universidades, criando assim um apelo mercantil, e que não tenha um caráter punitivo. "Por todas essas razões, acredito que o boicote seja um instrumento de luta e de defesa da instituição pública e por qualidade de ensino", concluiu.
O professor Arbex afirmou que os critérios do Enade não são de excelência acadêmica, muito pelo contrário, são critérios mercantis. "O Enade é a implementação de um sistema de produtividade no ensino que caminha contra a qualidade das universidades". O professor lembrou que o Exame é decorrência do acordo feito entre o MEC e a USAID - Agência Norte Americana para o Desenvolvimento Internacional -, realizando vários acordos, nos anos 1960 e 1970, entre Brasil e Estados Unidos. Tais acordos foram marcados pela concepção de educação como pressuposto do desenvolvimento econômico e não de pensamento crítico. Para Arbex, o Brasil tem um papel estratégico no neoliberalismo, e a reforma da educação está ligada a esse movimento. "O Enade é uma consequência lógica de um movimento de sucateamento da universidade, assim como já ocorreu com os ensinos básico e médio", concluiu.
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