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Home >> Movimentos Sociais >> Balanço da Refundação Comunista sobre o Conclat

Balanço da Refundação Comunista sobre o Conclat

APROPUC-SP 26.06.10
Kennedy - Refundação Comunista

"A democracia operária, não pode ser a democracia da burguesia entre os operários", V. Lênin

HISTÓRICO

Desde 2005, quando diversos setores ligados as esquerdas da CUT (e PT, mas não só) optaram por romper com esta central, denunciando o seu caráter atrelado aos rumos do governo social liberal petista, iniciou-se um debate rico e denso sobre os rumos que deveriam ter o movimento sindical combativo e independente, assim nasceu a INTERSINDICAL.

A primeira reunião nacional feita em fins de 2006 aglutinou um conjunto de mais de 300 representações sindicais além de diversos movimentos populares, era uma pequena representação (num universo de mais de 50 mil sindicatos e associações), mas um significativo passo na superação da dispersão das forças combativas dos movimentos sindicais (e popular).

Neste encontro houve o reconhecimento da necessidade de ampliar o movimento e aglutinar novos setores rumo a uma nova central autônoma.

Houve duas movimentações singulares: a primeira, de tentar dialogar com outras forças políticas que ainda estavam na CUT (ligadas ao PT e Também ao PCdoB) e outra, com maior intensidade junto a CONLUTAS, movimento animado pelo PSTU que contava também com outros setores egressos da CUT, e que desde então apontava (e fazia várias gestões e poderoso lobby) para a fusão da CONLUTAS e INTERSINDICAL

O segundo encontro em fins de 2007 foi marcado por forte polemica entre os grupos ligados majoritariamente ao PSOL e os agrupamentos ligados PCB,ASS e outros coletivos menores, sobre os passos para o movimento. Enquanto a primeira posição apontava para a necessidade de organizar o CONCLAT (junto com o CONLUTAS) e assim organizar uma central sindical socialista, a segunda posição, observava um refluxo das classes trabalhadoras e que a formação de uma central nesses moldes tenderia a fechar as portas a setores de esquerda que se encontravam na CUT (e .mesmo fora da CUT)

O debate foi estrangulado por uma votação onde a vitória por 2 ou 3 votos dos grupos do PSOL , colocou fim a unidade da INTERSINDICAL. A ASS, PCB e demais coletivos mantiveram a sua análise enquanto os demais grupos rumaram para a construção de uma nova central junto com a CONLUTAS.

Em fins de 2009 houve dois encontros consagrando a ruptura entre as INTERSINDICAIS, o primeiro capitaneado pelas alas psolistas, que animaram um seminário em conjunto com a CONLUTAS e acertaram a proposta de realização de um CONCLAT para organização de nova central, sendo eleita uma coordenação organizadora entre a CONLUTAS, INTERSINDICAL e outros movimentos.

O segundo encontro realizado em Praia Grande apontou para a continuidade paulatina de seu movimento.

Como resultado dessa coordenação vários esforços foram feitos para a realização do CONCLAT, quase todas as correntes da INTERSINDICAL abriram mão do ponto de vista eminentemente sindical da nova central, aceitando em sua maioria a participação popular e apenas mantendo um questionamento sobre a participação estudantil.

A CONLUTAS apesar de não abrir mão da participação estudantil, concordou que este tema deveria ser remetido ao congresso, onde os estudantes deveriam ir, mas na condição de observadores.

A ORGANIZAÇÃO DO CONGRESSO

Desde janeiro de 2010 que a coordenação passou a realizar reuniões as terças feiras a tarde em SP. As reuniões tratariam dos assuntos atinentes ao congresso. As divergências começaram a aparecer em larga escala, as mais importantes:

A primeira: dizia respeito à composição da central, esta seria eminentemente policlassista, pois segundo a visão predominante, as classes sociais passavam por uma profunda proletarização e novos setores sociais engrossavam as massas proletárias como professores, funcionários públicos, catadores de papel, movimentos civis (como gays, mulheres etc), Ou seja: a organização do trabalho não passava mais apenas pela organização sindical e ganhava várias e multiformas que poderiam ir de um grêmio estudantil a confederação dos trabalhadores em construção civil.

A segunda grande questão era sobre o funcionamento da futura entidade. A CONLUTAS vaticinava que a melhor forma de impedir a burocracia do movimento sindical seria constituir uma coordenação em rodízio, ou seja, em cada reunião haveria uma representação diferente...Dessa forma não se constituiria uma grupo dirigente permanente, mas sim a representação sindical como permanência.

A terceira polêmica dizia respeito a um conselho representativo da central, que seria formado por todos os movimentos, sindicatos e oposições sindicais presentes. Isso implicaria numa representação "gigante" de todos setores no acompanhamento das reuniões e decisões.

A quarta polêmica dizia respeito se a executiva seria eleita ou não no congresso, a preposição da CONLUTAS era que só se votasse as proporções e o conselho elegesse a executiva

A quinta polemica dizia respeito ao nome, enquanto havia abordagem de que a conceituação deveria apontar para uma nova sigla que expressasse a conformação de um novo campo de ação das classes trabalhadoras a abordagem da CONLUTAS, buscava repetir a junção da FNT-CIO (EUA) com a junção de CONLUTAS - INTERSINDICAL.

Havia várias outras polemicas menores como a da representação tirada na base, participação das oposições, filiação individual etc.

As análises de conjuntura internacional apontavam para caminhos opostos: enquanto os setores vinculados a INTERSINDICAL mantinham a tradicional opinião das esquerdas latina americana favorável a Cuba, e em apoio aos governos progressistas da Venezuela, Bolívia e Equador. A maioria da CONLUTAS apresentava opiniões diferentes colocando a necessidade de derrubar a ?ditadura capitalista em Cuba? se preciso, em aliança com os EUAs e também a avaliação de que os governos Chaves, Morales e Correia impedem o avanço dos movimentos dos trabalhadores a revolução socialista e, portanto devem receber forte oposição. Exemplo prático dessa análise foi o ELACT (Encontro Latino-Americano e Caribenho dos Trabalhadores) em 2009, contando inclusive com setores conservadores em sua composição. Mas em nome da unidade, abriram mão de colocar essas questões no congresso.

O mesmo pode-se dizer no plano nacional, havia uma tendência na maioria das teses em igualar a política social liberal do governo Lula com a política liberal do PSDB e DEM, isso se desdobrava numa tensão de fundo, onde para uns a opção pela candidatura do PSOL seria o melhor caminho a expressar a luta dos trabalhadores contra os governos burgueses e outros, apontavam a candidatura Zé Maria.

No campo das lutas sindicais e populares, havia consenso, não por que temas impactantes como fator previdenciário, redução de jornada para 40h, questão da liberdade sindical e criminalização dos movimentos (etc) não sejam assuntos prementes aos interesses dos trabalhadores, mas a falta de penetração junto as classes trabalhadoras e ao povo em geral colocou esse temário mais como uma reivindicação a ser alcançada do que a uma ação a ser realizada.

O CONGRESSO

As polemicas não foram superadas nas diversas reuniões ocorridas e chegou-se ao congresso em Santos com todas as feridas abertas.

E os mais de 3 mil delegados representando cerca de 300 entidades e movimentos, tiveram diversas dificuldades para acomodar-se, locomover-se ou mesmo dormir, já que a estrutura do congresso mereceria um artigo a parte, tamanha bagunça.

Mas o mais importante é que o clima de ?racha? já estava desenhado, Do lado da INTERSINDICAL, por sua características diluídas em diversas pequenas tendências a impressão que dava é que todos os grupos seriam engolidos ou anexados pela CONLUTAS, em especial pela hegemonia do grupo ligado ao PSTU.

Houveram 20 teses que levaram muito mais que duas horas para serem ?apenas- apresentadas.

Os grupos de discussão foram transferidos de sábado à tarde para domingo de manhã, para que houvesse o lançamento no congresso da candidatura de Zé Maria do PSTU.

E assim -os grupos - foram prejudicados e esvaziados, pois as delegações tiveram que se deslocar 2 cidades depois de Santos (cerca de 1 hora até Praia Grande), para descansarem, sendo que alguns traslados só conseguiram ser feitos após a 1 hora da manhã de domingo, dificultando a volta dos delegados, que teriam que reiniciar os trabalhos as 9h. Nenhum grupo começou seus trabalhos antes das 11h e muitos só conseguiram terminar as reuniões após as 14h.

O debate nos grupos girou em tornos das polemicas: nome da central, composição da direção, participação ou não de estudantes, participação ou não de movimentos populares. As lutas foram votadas em bloco num aparente consenso.

O relevo dado às questões organizativas denota a fragilidade política do congresso, pois não eram as lutas que definiam as formas organizativos, mas o contrário!

Todos os esforços para evitar o colapso do congresso foram feitos: reuniões mais reuniões entre os líderes foram travadas e as opiniões não foram demovidos. E assim ao ser aprovado o nome numa votação apertada houve uma espontânea debandada das bases da INTERSINDICAL (e também de setores da CONLUTAS) que começaram abandonar o congresso, As bases que até então haviam sido convidadas a exercerem um papel passivo diante dos conchavos intermináveis de seus líderes mostraram que talvez o caminho fosse outro.

O CONLUTAS perdeu em sua composição setores ligados a FOS e a Pastoral Operária que seguiram junto o racha. A - Central Conlutas-Intersindical-Central Sindical e Popular - foi formada de maneira frágil e com pouquíssima participação de massas. Imediatamente, através do site do PSTU, a CONLUTAS apresentou uma crítica e ultimato aos que se retiram.

E a direção nacional da INTERSINDICAL apresentou uma nota salientando a vocação para que se continue a busca pela unidade, ou seja, a busca de um novo entendimento.

ALGUMAS CONCLUSÕES

Há uma crise nas esquerdas que não pode ser resumida a um congresso ou a constituição de uma sigla. Era possível identificar elementos da ruptura no inicio das movimentações e nos interesses maiores que expressam os dois principais agrupamentos: CONLUTAS e INTERSINDICAL.

Estes movimentos são hoje -dentro das classes trabalhadores-, setores minoritários e com pouca expressão de massa, são incapazes de conseguir construir bandeiras unitárias que sirvam de referencia a maioria dos trabalhadores, ficando boa parte de sua intervenção restrita à crítica de outros agrupamentos.

A conseqüência dessa crítica é demonstrada em atitudes: Estes movimentos ficaram a margem de lutas significativas travadas no período, como: a da reestatização da vale, o petróleo "continua" nosso, marchas contra a recessão ou as marchas para redução de jornada p 40h (sendo que os movimentos estão divididos em apoiar ou não esta luta). Este cenário demarcatório ganhou a condição cômica com a CONLUTAS resolvendo remarcar a celebração do Dia Internacional das Mulheres para o dia 6 ao invés de 8 de março neste 2010!

Igualmente, há o predomínio de uma concepção voluntarista e praticista como se a realidade fosse algo a ser transformado subjetivamente pela força de vontade ou pelo empreendedorismo. Analises sobre a sociedade e os meios de dominação são genéricos, reduzidos ou simplificados - a critica e denuncias- das direções dos sindicatos e das centrais, como se bastasse ganhar a maioria num determinado sindicato para que as relações sociais fossem alteradas.

De igual maneira a política é resumida a denuncias e os diversos interesses de classes e de suas em disputa, deixam de serem observados e pensados como espaço da ação concreta.

O cenário político envolvendo as classes trabalhadoras é complexo e os discursos de ambos movimentos encarnam uma vocação moral que define um valor ético, mas tal qual a valentia apenas não é suficiente para vencer lutas, esses valores não resolvem questões como de dialogo nas massas populares e nem define vitórias sindicais como ficou explicito no caso da Embraer.

ALGUNS CAMINHOS

Num país continental como o Brasil e numa sociedade complexa como a brasileira uma articulação sindical terá que representar e respeitar diversas formações trabalhistas e diversos níveis de consciência. Reduzir a participação política ao nível dos que são socialistas acaba repetindo as antigas exigências das velhas organizações socialistas utópicos, de que seus membros fossem apenas anti-tabagistas, vegetariano ou favorável ao amor livre.

A multiplicidade de movimentos sindicais com conformações sociais diferentes (metalúrgicos, garis, motoboys, empregadas domesticas, garçons, bóias-frias,bancários etc) expressará consciências de união e luta diferentes, sendo necessário que a articulação sindical constitua pautas que sejam locais e gerais promovendo mediação com esta variedade de consciências e práticas.

Há uma confusão entre o que deve ser o projeto político de um partido, cujas exigências ideológicas são ? profundamente ? outras, e as exigências para a ação sindical. Esta confusão tem distanciado e prejudicado a construção de uma pauta sindical que deve se bater pela unidade e ação dos trabalhadores.

Uma pauta centrada na manutenção e ampliação dos direitos trabalhistas na redução de jornada e na solidariedade aos povos em luta. É o básico para a constituição da unidade política e ação prática entre as diversas forças trabalhistas. Para isso faz-se mister um movimento capaz de articular lutas e construir unidades.

Porem, a constituição desse movimento e de sua central é um longo período e não pode-se feito numa política reduzida ou seja, nós com nós mesmos. É necessário ampliar o espaço político. Primeiro mantendo o diálogo com a central formada pela CONLUTAS. Segundo, reatar o diálogo com os grupos que constituem a outra Intersindical (PCB e ASS), terceiro buscar alianças com setores ligados a CUT, principalmente o AE,DS,TM,OT,FS e também com a CTB.

A compreensão de vivemos um de acumulo de forças nas lutas trabalhistas exige que medidas práticas fortalecendo o associativismo e a organização sindical devem ser a tônica desse momento e a tática para ir maturando a constituição de um poderoso movimento por uma central, eis a estratégia!

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