Sobre a USP, São Paulo e os caminhos que vejo se desenrolar
APROPUC-SP
25.11.11
Muitas das pessoas, ao lerem notícias e coberturas dos mais diversos temas em jornais e revistas, esquecem de observar e analisar um ponto determinante: a posição política e ideológica do jornal, seu posicionamento e, mais além, como tal jornal se relaciona com os fatos. Não é muito difícil descobrir os posicionamentos e linhagens ideológicas dos grandes meios de informação. Basta abrir o jornal e ler um pouco de seu editorial, do que ele assina enquanto tal, do que defende. Caso esclarecedor é o editor do Estado de São Paulo posicionando-se a favor da eleição do então candidato a presidência José Serra no ano passado.
Acabei de chegar em casa (09/11) e abrir o Estado e, apesar de cansada das polêmicas e discussões em torno da USP, abri direto o caderno metrópole, lendo as notícias do dia, no qual é abordado a USP como detenção de estudantes, pichações, coquetel molotov, etc. E embaixo, na pagina C4 do mesmo jornal, duas notinhas: uma sobre Haddad, que afirma a USP não ser uma cracolândia e, portanto, não devendo ser tratada como tal e outra sobre o governador Geraldo Alckmin, que afirma a necessidade dos estudantes de terem aulas de democracia e elogiando a atuação da PM. Logo após isso, volto-me as primeiras paginas do jornal, onde se encontram os artigos do dia e o editorial, e surpreendo-me (ou não) com a praticamente única temática abordada. Todos envolvem, direta ou indiretamente, o conflito na USP, fazendo uso político deste (vale dizer, manipulando-o) - em um editorial que o jornal parece se dotar de inspiração para dar lições do que entende por democracia, em seus termos: controle, limites (limitações, limítrofes, e criminalidade para quem extrapola), "ordem e progresso". E no final da nota em que critica os "arruaceiros", cita Haddad e sua "declaração das mais infelizes" (sic). Curiosa coincidência com a abordagem no caderno metrópole, ou linha editorial pré-definida? Viva Alckmin e o elogio da PM, a polícia militar, nossa grande herança da ditadura!
Os artigos do Estadão, na página A2, são escritos por José Neumanne ("A revolução dos 'bichos grilos' mimados da USP") e pelo nosso "queridíssimo" prefeito Gilberto Kassab, com "Os limites necessários". Deixo aqui o título para quem quiser encontrá-lo no Google, uma ótima chance de, para qualquer pessoa com um olhar um pouco mais critico, após ler o artigo, falar em alto e bom tom "Fora Kassab!". Ali, o prefeito relaciona os conflitos com os camelôs, os protestos na USP e a "invasão"(ocupação) de prédios abandonados do centro e da Zona Leste da cidade. O que importa ao prefeito é a simples relação dialógica legalidade/ilegalidade e a burocratização e normalização como saída para a cidade em ordem, o que parece ser o grande lema do prefeito. Cita o que considera lutas por "soluções" buscadas pela prefeitura da cidade quanto a habitação, como o programa Nova Luz e projetos de urbanização de favela, esquecendo-se de outras informações como a expulsão dos pobres e valorização financeira e imobiliária do centro da cidade com a Nova Luz, além do corte de verbas que a prefeitura carinhosamente empreenderá em 2012, com corte de quase 50% para regiões periféricas como M´Boi Mirim e Campo Limpo em contraposição ao largo aumento de verbas para regiões e áreas nobres da cidade. Trocarão a calçada da Faria Lima, mas o distrito de Jardim São Luís e Jardim Ângela perderão 46% da verba. Viva Kassab! Finalizando o artigo com uma aula de democracia, o prefeito nos ensina sobre a ditadura da maioria exercida por uma minoria. A ditadura da maioria, eleita nas urnas, exercida pela minoria, a gestão DEMO- PSDB.
O editorial do Estado, prezando o olhar criminalizador do movimento estudantil e criticando Haddad na nota "A desocupação da Reitoria", segue abaixo com outra nota-editorial "O avanço do crack", aonde defende o combate efetivo do crack e os efeitos devastadores do uso da droga. Talvez a política que falte para o combate da cracolândia seja exatamente a que deva ser usada contra os baderneiros da USP. Afinal, como já dizia Reinaldo Azevedo, o pensamento de esquerda e o trafico de drogas tem tudo a ver.
É necessário abrir os olhos, se elucidar e talvez estudar um pouco, entender melhor questões como as linhagens ideológicas dos grandes jornais e o uso político dos acontecimentos em detrimento e a favor de determinadas partes da sociedade. Não se enganem, o espetáculo não foi montado por conta das pichações na USP, mas como joguete e objeto fácil de ser manipulado. Assim como as reinvindicações na USP são, não somente políticas, porém paradigmáticas, o posicionamento das grandes mídias revela muito dos caminhos e processos que vejo se delinear. Não sou a maior partidária de uso de termos como "esquerda" e "direita", mas tenho medo de uma direita conservadora que observo a cada dia mais forte, em São Paulo, no Brasil, e no mundo globalizado. E, como li em algum perfil do Facebook, nada melhor do que um protesto estudantil para despertar o reacionário adormecido em grande parte das pessoas...
.Ana Kelson é estudante de Ciências Sociais na PUC SP
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