Universidade não é lugar de silêncio
APROPUC-SP
04.11.11
Grupo Feminista Yabá
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Pontifícia Universidade Católica: quantos contos sobre a democracia tem o seu baú de memórias! Triste riqueza trancafiada. Hoje em dia, é feio ser democrático na PUC-SP. Aliás, esse momento se demonstra preponderante na caça às bruxas de alguns estudantes da universidade. Essas bruxas são quem? Coletivos organizados, principalmente na Faculdade de Economia e Administração e na Faculdade de Direito.
Proclamam esses estudantes, nos últimos debates inseridos no calendário de campanha para as eleições dos Centros Acadêmicos Leão XIII e 22 de Agosto, a necessidade do combate ao machismo, à homofobia e ao racismo. Em troca, a plateia e a mesa preenchida pelos adversários políticos xingam, gritam, vaiam, urram, riem sarcasticamente. Palmas acaloradas para esses adversários, quando tentam desqualificar a luta desses corajosos coletivos!
Mas do que se trata efetivamente essa reação bruta e cruenta dos estudantes que participaram dos últimos processos políticos nesses dois cursos? O movimento estudantil hoje entremeia as suas discussões por alguns pontos políticos fundamentais em se tratando de PUC-SP: bolsas institucionais, assistência estudantil, qualidade de ensino. Agora, lidar com o debate de opressões é esperar, por certo, um rechaço animalizado de parte do corpo estudantil.
"Lá vem eles de novo! O que isso tem a ver com a faculdade?!". É proibido falar sobre opressões na PUC-SP. Caso essas poucas vozes se manifestem, logo são vítimas de tentativas policialescas de silenciamento. A conclusão histórica que se pode formular para compreender o porquê da perseguição daqueles que insistem em falar sobre negros, mulheres e homossexuais é que estamos em uma universidade que não produz conhecimento para a sua sociedade, para o seu povo, mas que fabrica quadros exponenciais para o mercado de trabalho. Será que são esses tais quadros brancos heterossexuais?
O caráter comunitário e democrático do qual a PUC-SP sofre a degeneração todos os dias, segundo uma sábia mulher, Nadir Kfouri, era a essência da produção de conhecimento, da qualidade da educação. Que democracia buscamos, afinal, se podemos contar nos dedos quantos estudantes negros temos no Direito? Se as músicas das atléticas tornam martirizante o simples fato de ser homossexual ou mulher?
A questão fundamental é que conjunturalmente estamos em um espaço somente ocupado por 10% da população brasileira e, mais do que isso, inseridos em uma das universidades mais caras do Brasil. Provavelmente os negros que os estudantes da FEA conhecem da PUC-SP são, em sua maioria, funcionários terceirizados, assim como os estudantes do Direito não sentem amarras em gritar calorosamente "Cigarro no mamilo, ela morde o cobertor/ Puquiana não sente dor", afinal, "machismo é algo superado por aquelas mulheres que queimavam sutiã nas praças públicas".
Conquista para o movimento estudantil, a pauta de opressões ganhou mais visibilidade nos últimos tempos graças aos setores oprimidos, que obstinadamente construíram a importância dessa discussão. O papel que os estudantes mobilizados cumprem ao se colocarem frente a frente com o discurso discriminatório da classe que ocupa a universidade é retomá-la para a realidade social.
Seres pensantes são seres que inevitavelmente conhecem a dinâmica da sociedade. Se pensantes, podem entender que as problemáticas estruturais que vivemos têm suas expressões basilares na cisão hierárquica e valorativa entre brancos e negros, homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais. Se figurativamente só houver na universidade os papéis dominantes, assinaremos o contrato para mergulharmos horas extensas de nossas vidas em uma bolha alienante.
Ora, porque não nos calamos? Porque o nosso grito ecoa a universidade que ainda não existe, a universidade que queremos. Lutaremos pelo dia em que a população jovem negra seja expressiva na PUC-SP e não seja expressiva nos índices de extermínio policial; lutaremos pelo dia em que as mulheres estudantes de fato não sejam coisificadas (tomara que este dia culmine com o dia em que não houver mais esposas espancadas, adolescentes estupradas); lutaremos para que a sexualidade seja opção e não repressão, para que isto tenha efetivamente espaço na prainha, na rampa, na quadra, em qualquer lugar.
Seguiremos. Rumo ao mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.
O grupo feminista Yabá é composto por mulheres estudantes do direito PUC-SP
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