70 anos da morte de León Trotsky
Erson Martins de Oliveira
No dia 20 de agosto de 1940, Ramón Mercader esperou que Trotsky pusesse os olhos em um artigo para corrigi-lo e imediatamente retirou de seu casaco uma picareta de alpinista golpeando-o na cabeça. No dia seguinte, 21 de agosto, o cérebro do velho militante russo cessa suas funções. O dia 20 de agosto de 1940 ficará marcado na história como um dia de infâmia. Ramón Mercader foi preparado pelo serviço secreto do Kremlin, a mando de Josef Stálin, para assassinar um dos mais elevados líderes da Revolução Russa.
León Davidovich Bronstein, Trotsky, nasceu em 8 de novembro de 1879. Em 1897, já com 18 anos, fundou a Liga Operária do Sul da Rússia. Desde então mergulhou na luta revolucionária sem interrupção. Cumpria 40 anos de militância e contava com 61 anos de idade quando o agente de Stálin arrancou-o da vida num ato de covardia extrema.
Desde cedo, Trotsky mostrou ter luz própria. Os escritos dedicados à Revolução de 1905, quando contava com 26 anos, expressaram o domínio do marxismo, de forma que pôde expor com precisão as leis da história e, consequentemente, os fundamentos programáticos da revolução proletária em país de economia atrasada. Partindo dos estudos do desenvolvimento econômico e social da Rússia, entrelaçado com a economia mundial, elaborou a teoria da revolução permanente. Considerava que as tarefas democráticas da revolução burguesa na Rússia semi-feudal não mais poderiam ser resolvidas pela classe capitalista e sim pelo proletariado organizado em seu partido. A revolução de fevereiro de 1917 comprovou essa tese. O proletariado, unido às massas camponesas, tomou o poder em outubro de 1917, começando por cumprir a tarefa democrática de liquidação da servidão e entrega das terras nacionalizadas para os trabalhadores do campo.
As divergências com Lênin e as incompreensões sobre a concepção de partido foram superadas assim que a estratégia da revolução social e suas tarefas se materializaram no processo insurrecional. As formulações programáticas de 1905 de Trotsky se confirmaram, bem como se confirmou a concepção de Lênin sobre o partido, constituída desde 1902. No momento em que se evidenciou plenamente que o programa do bolchevismo e sua ação revolucionária estavam encarnados pelas massas, Trotsky incorporou-se ao partido e se tornou um de seus principais dirigentes.
No quadro da 1ª Guerra Mundial e da guerra civil, a revolução triunfou, porém no seio de um país despedaçado e soterrado em escombros. As tarefas do Estado operário eram imensas. Desde logo, Lênin reconheceu que a maior dificuldade não estava em conquistar o poder, mas sim edificar a economia socialista. O isolamento da revolução poderia ser fatal. Esperava-se que a Alemanha revolucionária liquidasse o poder de sua burguesia e rompesse mais um elo da cadeia capitalista. O internacionalismo proletário era condição essencial para evitar a sufocação da nova economia assentada na propriedade coletiva dos meios de produção. A revolução na Alemanha não ocorreu e o cerco imperialista a União das Repúblicas Soviéticas se agigantou.
É no âmbito do isolamento da revolução e das tendências capitalistas internas que irromperá no partido comunista russo duas frações: a de Stálin que se manifesta como revisionista do programa internacionalista e a de Trotsky que se coloca por aplicá-lo sob as novas condições econômicas e da luta de classes mundial. Em 1924, data da morte de Lênin, aprofunda-se a divisão entre essas duas posições. Stálin formula com precisão a "teoria do socialismo em um só país" e qualifica o trotskysmo como um perigo para a revolução. Retomam-se as divergências superadas entre Lênin e Trotsky para caracterizar o trotskysmo como menchevismo. Na realidade, constituía-se o estalinismo como expressão política e social de uma burocracia, em cuja base estavam as tendências embrionárias da restauração capitalista. A "teoria do socialismo em um só país" comparece como negação da orientação internacionalista e enfraquece a organização do proletariado como força motriz da construção socialista.
Em oposição a essa linha, em outubro de 1927, Trotsky foi expulso do partido comunista. Em janeiro de 1928, o revolucionário foi desterrado para o Turquestão. No início de 1929, Trotsky foi expulso do país e exilado para a Turquia, acusado de atentar contra o poder do Soviete. A perseguição a Trotsky e sua família se tornou infindável. Em janeiro de 1937, o México acolheu Trotsky, sendo esta a última parada na sequência de expulsões. Os processos de Moscou da década de 30 indicaram a política da burocracia estalinista de se livrar da oposição por meio de assassinatos. Trotsky constituía um perigo, apesar da Oposição de Esquerda russa ter sido derrotada e a IV Internacional, fundada em 1938, padecer de enorme debilidade organizativa.
Por que então assassinar um homem confinado em Coyoacán? A razão está em que a luta contra a burocratização do Estado Operário e os crimes do estalinismo, no quadro da 2ª Guerra Mundial, davam às posições de Trotsky a possibilidade de se potencializarem no seio do proletariado russo e internacional. Toda a liderança do partido bolchevique de 1917 já havia sido decapitada. A ascensão de Hitler, os acontecimentos da Guerra e o desenvolvimento das tendências restauracionistas do pós-guerra na União Soviética vivificaram as teses do internacionalismo proletário de Trotsky. A restauração capitalista que eclodiu em fins da década de 80 e a destruição da União Soviética confirmam, desgraçadamente, as teses do livro "A Revolução Traída". A obra de Trotsky permanece viva como parte da obra de Marx/Engels/Lênin e outros grandes revolucionários.
Erson Martins de Oliveira é ex-professor da PUC-SP e ex-diretor da APROPUC
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