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Home >> Fala Comunidade >> Bruno Dallari: Porque eu saí da PUC-SP

Bruno Dallari: Porque eu saí da PUC-SP

APROPUC-SP 30.07.10

Bruno Dallari

Foram três as razões que me levaram a sair da PUC-SP:

(a) Ser doutor e ganhar como mestre

Todos os professores que se doutoraram a partir de 2005 continuam ganhando como mestres, porque a PUC-SP alega que não tem condições de arcar com o impacto financeiro destes upgrades. Isso significa ganhar R$4mil, quando o salário de um doutor numa universidade pública é de R$6mil. Eu me encontro nesta situação, que é fortemente anômala, a muitos respeitos.
O salário é baixo não só para dar conta do custo de vida (modesto, no meu caso - pex, eu não tenho carro há muito tempo e já desisti de voltar a ter um), mas mesmo para pagar os custos de preparar aulas, comprar livros, ir a congressos, me manter atualizado etc.
No meu caso, esta contingência é particularmente irritante pelo fato de eu ter atrasado a preparação e a defesa do meu doutoramento porque estava me dedicando à PUC-SP - a suas reformas curriculares, à gestão da faculdade, a discutir seus problemas, a encaminhar para o seu futuro, participando de suas várias instâncias etc. Eu poderia ter defendido o doutorado muito mais cedo, se tivesse focado numa carreira solo, ao invés de investir na instituição.

(b) Dar 18 hs/aula por semana

Quando houve a intervenção pela Fundação São Paulo, há alguns anos, ela demitiu 25% do quadro dos professores da PUC-SP e os que ficaram tiveram que assumir as aulas dos outros, num processo que ficou conhecido como "maximização" dos contratos. De 5 disciplinas por semestre - uma carga já pesada - passamos a ter que assumir 8, ganhando o mesmo salário (para completar 40hs, que caracterizam o contrato TI, tempo integral).
A qualidade das minhas aulas caiu, pela dificuldade de preparar tantas aulas em tão pouco tempo, pela tarefa delirante de dominar conteúdos extremamente diversos correspondentes a cada disciplina e pelo próprio esforço físico implicado na atividade. Além disso, a partir de 200 alunos por semestre, não é mais possível fazer um acompanhamento e avaliação adequados dos alunos e a relação se torna anônima e estritamente funcional. O trabalho docente se torna mecânico, impessoal e muito pouco gratificante, para mim e certamente também para os alunos.
Para comparar, numa universidade pública, nenhum professor dá mais de 4 disciplinas por semestre. A suposição é que ele esteja pesquisando o resto do tempo. O problema é que esta suposição se aplica também a nós puquianos, mas não temos o tempo, os meios e a remuneração correspondentes a ela. Em termos de pesquisa, publicações e participação em congressos, minha produção ficou medíocre desde que fomos maximizados. Não é possível dar uma boa aula e um bom curso se não se investiu no conhecimento compreendido por ela ou por ele.

(c) Não ter garantia de manutenção do contrato de Tempo Integral

Não temos a garantia de contratos de Tempo Integral, correspondentes a 40hs semanais. A cada semestre, conforme a disponibilidade de turmas e os arranjos internos dos departamentos, somos sujeitos a ficar com contratos de 30, 20 ou mesmo 10hs, com a redução correspondente dos salários.
Isso até agora não aconteceu comigo, mas já aconteceu com vários colegas. Cada final de semestre, quando são atribuídas as disciplinas para o semestre seguinte, tem sido um momento de grande suspense: será que vou conseguir as 40hs?
É uma situação de grande insegurança financeira. Só a escola da minha filha custa R$700 - o que eu faria com um salário de R$3mil ou R$2mil, durante um semestre ou mais? É um risco que eu não posso me dar ao luxo de correr.
Foi sugerido que teríamos que completar o nosso salário "por fora", para viabilizar o trabalho na PUC-SP. Para mim, isso já seria pagar para trabalhar. Não me disponho.
Estas condições são muito adversas e tornam difícil que se realize um trabalho acadêmico decente. São condições abaixo da minha dignidade profissional, beirando estarem abaixo da minha dignidade pessoal.
Poderia mencionar ainda outros problemas:
Não ter acesso à pós-graduação, como professor e como orientador, mesmo havendo demanda pelos conteúdos que eu poderia ministrar e mesmo tendo alunos que querem se orientar comigo.
Não ter uma sala, nem um espaço mínimo qualquer que possa ser usado para deixar o material didático que usamos em aula e para organizar as atividades.
Estar sujeito permanentemente à confusão administrativa e à precariedade institucional da universidade, que requer a nossa participação mais do que qualquer outra universidade, pública ou privada, sem nenhum resultado vísivel em termos de organização e eficiência.
Mas são as três primeiras condições mencionadas as decisivas para a minha saída.
Todas estas condições - ser um doutor e receber como doutor, dar um máximo de 4 disciplinas por semestre, ter um contrato de tempo integral permanente, orientar na pós-graduação etc. - são "defaults" de qualquer universidade pública. São condições tão elementares, assumidas como componentes mínimos tão evidentes da atuação docente, que sequer são consideradas passíveis de discussão ou negociação. Na PUC-SP, estas reivindicações soam como uma divagação delirante sobre condições utópicas e impraticáveis pela instituição.
As coisas já foram melhores por aqui. Eu e muitos outros professores esperávamos que a nova reitoria encaminhasse de alguma forma esses problemas, mesmo que não os resolvesse de imediato, o quê sabíamos impossível. Mas, dada a atuação e as colocações da Reitoria nos últimos tempos, a perspectiva que se abre não é animadora. Esses componentes que eu mencionei não estão sequer em pauta, a não ser dentro de um pacote muito geral de rediscussão da universidade, envolvendo dezenas de outros aspectos a serem discutidos ao longo dos próximos anos. Uma discussão da qual pode inclusive não sair nada, como já aconteceu outras vezes. Não dá mais para esperar e, no final das contas, não dá mais para acreditar.
Eu lamento enormemente ter que deixar a PUC-SP. No que dependesse de mim, eu ficaria. A PUC-SP continua sendo um ambiente singular entre as universidades brasileiras, mantendo ainda uma certa vivacidade, um espaço para debate e criação, raros no universo acadêmico brasileiro.
Os 11 anos que passei nela foram de intensa realização. Porém, ultimamente, para mim, estar na PUC-SP tem representado mais esterilidade do que criatividade, mais fazer parte do moedor de carne do ensino superior brasileiro do que produzir diálogo e conhecimento.
A perspectiva de ficar na PUC-SP significaria que daqui a alguns anos eu estaria fazendo as mesmas coisas - dando milhões de aulas e não tendo fôlego para produzir nada que valha a pena. Não é o que eu quero para mim. Além disso, eu tenho contas para pagar e não tenho que achar normal estar com o cheque especial sempre estourado. Eu me sinto mais como tendo "sido saído" do que como tendo me decidido a sair. Eu não tive escolha. Eu tinha uma vida aqui, que estou deixando. Não é pouco.
Desejo o melhor para todos e que a PUC-SP recupere o seu caráter e o seu lugar peculiares entre as universidades brasileiras.


Bruno Dallari é ex-professor do Departamento de linguística da Faflica

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