Boas novas
APROPUC-SP
18.06.10
Felipe Augusto Silva Matos
Sua sorte foi lançada.
Caído no vão em vão...
A morte não será noticiada.
o nome, o endereço , o motivo do tiro... esquecidos, ou melhor, ignorados, não citados
o fato é que fazia frio. o resto é resto, a violência, corrupção e os procedimentos de rotina.
Qual o preço do silêncio? E de um cargo na polícia Civil?
Estudar um tempo pro concurso, apostilas, se preparar pros testes físicos, e fisiológicos, abandonar os tóxicos, preparar o psicológico...
- Mas pra que tudo isso, paga logo os dez mil! É bacana. hoje tudo tem um preço, da fama ao poder, do sexo aos cargos de "confiança" . E pra entrar na polícia civil, dez mil reais, até que é pouca grana!
Não se sabe ao certo se estava errado ou não, viu-se colocado à força no camburão, tomava socos e pontapés, nem se preocupavam com a multidão. João, foi encontrado torto, assim, meio roxo, meio inchado, olhos arregalados e vários furos pelo corpo.
Dava até gosto de ver - diriam Hitler e seus companheiros da ditadura.
Não se sabe ao certo o que fez, se era fornecedor ou freguês, todos sabem que morava na rua da minha casa, que era quase como irmão do meu vizinho e tinha crescido comigo. O resto era boato ou aparência, as drogas e a cara de bandido. no final quem se importa? , - Pobre, preto já nasce tudo fudido! -, foi esse o verbo respondido à velha senhora, pelo "agente" especial da polícia civil, (orgulho dos cidadãos de bem de nosso Brasil) ao ser questionado sobre o paradeiro de João. nem viu. nem quis saber quem era aquela senhora velha e desesperada, encarou -a bem de perto , enfiou o dedo na cara da velha , e esbravejou - eu quero que o seu filho se foda!!
Cansada àquela hora da madrugada, ainda tinha que escutar essas coisas. esperava uma notícia, mas só escutava estralos, gritos de dor e gemido, e no fundo, torcia pra que o homem de Deus que berrava a dor daquela tortura, fosse seu filho. Seria uma sorte, gemia era de dor! berrava por que estava vivo!
João era foda. moleque ligeiro , trabalhou de pedreiro, padeiro, era pipeiro , corria uma bola, e até que ia bem na escola até ser expulso. O puto do diretor foi quem arrastou a fita.
Era festa junina, carros parados na entrada da escola uns caras querendo parecer da moda, o pancadão estourando os falantes, cigarros, brejas e vinho, às vezes um fininho no desbaratino, "cakiu", opa! , subiu ninguém viu! João não curtia esta fita de moda, andava arrumado só pra não ficar de fora. Não arrastava nem nada, fumava e bebia "socialmente" - a sociedade é que esta descontrolada -, falava isso e sorria. Só acompanhava. só comprava não vendia nada, e tava curtindo muito a nova namorada, Michelle. No dia da festa planejou uma noite de amor inesquecível, num carro conversível, champagne e cigarro importado à luz da lua. Foi a primeira noite dos dois, e a melhor, como agora sabemos. O conversível ficou no sonho, e a camisinha no bolso. Rolou um vinho, os dois um pouco mais alegrinhos, acabaram se pegando no terreno atrás da escola mesmo. o cigarro e a lua até que davam um clima legal, mas o problema de João não foi o amor à luz da lua.
Lançou na madrugada da festa o nome dela, MICHELLE, assim, em letras garrafais no portão da escola. os tegs na quebrada estão sempre na moda, e segunda de manhã, hora da entrada todo mundo via. Causava o maior reboliço: - Caralho o João é foda mesmo!- alguns comentavam, outros riam, os moralistas criticavam, mas o que importava mesmo é que todos viam. João era apaixonado por teg, pela aventura, pela insubordinação. virou até poeta, fez verso pro teg, mas não fez pra sua mãe, na contra capa de seu caderno estilizado estava escrito assim:
Um muro branquinho é como uma folha em branco.
Os lugares mais interessantes são aqueles que eu não alcanço, mas que você vê!
Isso é RPG. Esse é o meu negócio
Rabisco Porque Gosto!
Lançar o teg lá no alto não é só questão de status. É questão de superar, você e ao outro. Segunda-feira, comentários em peso. Pensou em dar um retoque no teg, sei lá, colocar uma dedicatória, maldita hora - Puta! Mó besteira!- não deu outra, em plena luz do dia, foi pego, esculachado e expulso, ficou puto, tava pensando em se formar, mas agora fodeu! Já tava dois anos atrasado, queria comprar um carro, com o tempo que sobrou saindo da escola, trincou num trampo novo, e já era, se acomodou.
Mas ninguém chorava na delegacia, as mãos amarradas nas costas, de pé a aproximadamente cinco horas, isso para aqueles que foram presos porque estavam de moto ou vacilando na rua, o Raimundo- Baiano imundo- como disse o policial antes de lhe descer o pau - nem sabia por que apanhava:
- Vamo falando, meninão!- dizia o policial civil, que fechava cada frase com um tapa na cara, como um ponto de exclamação. - Dizer o que senhor - murmurava Raimundo desesperado. - O que o senhor quer que eu fale?- Fala o que você sabe, baiano filho-da-puta! Pancada pra todo lado. Não sabia de nada mesmo. E talvez o que ele sabia não interessasse. virar massa, arremate, contra-piso, baião de dois nos dias de domingo, caçar calango sem da um tiro, essas coisas...
Raimundo foi visto a dois quarteirões de sua casa, tomando tapa na cara. porque não conseguia dizer, de tanto que tremia, qual o nome da rua da casa da tia, que o abrigou em São Paulo quando veio do interior da Bahia. Este um, Raimundo, estava a mais de dez horas de pé, já tava inchado, meio mijado, mal informado, tudo em nome da lei. foi pego voltando da obra, as 22h30 da noite, depois de umas 10 horas de trabalho pesado, porque sua aparência era semelhante à do procurado. mandaram ele encostar e não disseram nada, e como ele também não disse...
foi o que disseram na manhã em que foi liberado, ficou com poucas marcas e saiu ainda agradecido, pediu desculpas pelo mal entendido, e se foi caminhando meio torto, meio dolorido. Não se despediu dos amigos de surra.
Acusados de bandido, algemados, humilhados, surrados em nome da lei e da ordem. este era o ponto em comum dos cinco liberados naquela manhã de sábado. depois da noite de diversão tudo que queriam era fumar um cigarro. Pra eles saiu até barato, Dona Maria, descobriu que o filho João, que nem fumava, em uma noite, passou de usuário a traficante, e da vida à morte num instante. Revoltante! forjaram dois quilos de qualquer coisa em sua bolsa, um canela-seca na cintura fina, e pronto, justificarão o fim da vida de João, a morte morrida por engano.
Saiu da casa de Michelle às 9h30, estava nervoso, com alguma coisa, parou no bar comprou um cigarro solto (não costumava fumar), tragou profundo e olhou pra lua. Subiu o escadão em direção à sua rua, ouviu barulhos de motos, e alguém vindo rápido em sua direção, vigiou a rua escura, não era ninguém. Com mais atenção Seguiu em frente, um clima diferente na favela, normal. uma viela, duas , ia entrando noutra rua, ouviu disparos e parou. Motos acelarando desesperadamente, cachorros latindo, cinco segundos a comunidade silenciou. Algo havia acontecido. João apertou o passo, olhava os barracos trancados, apertou mais o passo, mais barracos trancados, o passo já não cabia, agora João corria, e mal sabia que ia no sentido errado, devia ter parado, esperado, rezado, sei lá, -só pensou tudo isso depois que entrou na avenida correndo e deu de cara com o cano da ponto 40 prateada, engatilhada, destravada, refletindo a luz de mercúrio da rua, tão perto da sua cara que via cada detalhe, o furo que saia a bala, a bala, a cara do polícia por tras da mira encapuzado, acelerado, NEM CISCA VAGABUNDO! olhava vidrado, endemoniado, frio, Transtornado. pronto pra cuspir chumbo e "TE MANDAR PRA PULTA QUE PARIU"! Sem nem saber seu nome. mandou João deitar, mas nem precisou, Jõao tremia tanto que já não podia se aguentar de pé. Apontou bem nas costelas , e, TOME! desceu o pé. João, gemeu, não entendeu. foi só o primeiro. Que tragédia vive esse nosso povo brasileiro, encurralado no gueto, entre o pau e o desemprego, mas é direito da polícia o monopólio da violência, com morte de polícia ainda, os cara pega igual bicho, morde, bate, humilha, chinga... Se morde.
O pranto de dona Maria, curou foi na faxina de domingo, na casa da Dona Virginia Cantos, com corpo do filho ainda quente e a dor da morte presente, mas se não trabalhasse não teria como enterrar o defunto. Virou notícia no bairro, o povo comentava revoltado, sentado num bar e bebendo. os agentes comemoravam o sucesso da missão, com uma folga e uma churrascada presenteada pelo Senhor Delegado Raul Cantos que acabou encerrando o caso por falta de provas. Ah, Boas novas, Michelle descobriu que esta grávida.
Caído no vão em vão...
A morte não será noticiada.
o nome, o endereço , o motivo do tiro... esquecidos, ou melhor, ignorados, não citados
o fato é que fazia frio. o resto é resto, a violência, corrupção e os procedimentos de rotina.
Qual o preço do silêncio? E de um cargo na polícia Civil?
Estudar um tempo pro concurso, apostilas, se preparar pros testes físicos, e fisiológicos, abandonar os tóxicos, preparar o psicológico...
- Mas pra que tudo isso, paga logo os dez mil! É bacana. hoje tudo tem um preço, da fama ao poder, do sexo aos cargos de "confiança" . E pra entrar na polícia civil, dez mil reais, até que é pouca grana!
Não se sabe ao certo se estava errado ou não, viu-se colocado à força no camburão, tomava socos e pontapés, nem se preocupavam com a multidão. João, foi encontrado torto, assim, meio roxo, meio inchado, olhos arregalados e vários furos pelo corpo.
Dava até gosto de ver - diriam Hitler e seus companheiros da ditadura.
Não se sabe ao certo o que fez, se era fornecedor ou freguês, todos sabem que morava na rua da minha casa, que era quase como irmão do meu vizinho e tinha crescido comigo. O resto era boato ou aparência, as drogas e a cara de bandido. no final quem se importa? , - Pobre, preto já nasce tudo fudido! -, foi esse o verbo respondido à velha senhora, pelo "agente" especial da polícia civil, (orgulho dos cidadãos de bem de nosso Brasil) ao ser questionado sobre o paradeiro de João. nem viu. nem quis saber quem era aquela senhora velha e desesperada, encarou -a bem de perto , enfiou o dedo na cara da velha , e esbravejou - eu quero que o seu filho se foda!!
Cansada àquela hora da madrugada, ainda tinha que escutar essas coisas. esperava uma notícia, mas só escutava estralos, gritos de dor e gemido, e no fundo, torcia pra que o homem de Deus que berrava a dor daquela tortura, fosse seu filho. Seria uma sorte, gemia era de dor! berrava por que estava vivo!
João era foda. moleque ligeiro , trabalhou de pedreiro, padeiro, era pipeiro , corria uma bola, e até que ia bem na escola até ser expulso. O puto do diretor foi quem arrastou a fita.
Era festa junina, carros parados na entrada da escola uns caras querendo parecer da moda, o pancadão estourando os falantes, cigarros, brejas e vinho, às vezes um fininho no desbaratino, "cakiu", opa! , subiu ninguém viu! João não curtia esta fita de moda, andava arrumado só pra não ficar de fora. Não arrastava nem nada, fumava e bebia "socialmente" - a sociedade é que esta descontrolada -, falava isso e sorria. Só acompanhava. só comprava não vendia nada, e tava curtindo muito a nova namorada, Michelle. No dia da festa planejou uma noite de amor inesquecível, num carro conversível, champagne e cigarro importado à luz da lua. Foi a primeira noite dos dois, e a melhor, como agora sabemos. O conversível ficou no sonho, e a camisinha no bolso. Rolou um vinho, os dois um pouco mais alegrinhos, acabaram se pegando no terreno atrás da escola mesmo. o cigarro e a lua até que davam um clima legal, mas o problema de João não foi o amor à luz da lua.
Lançou na madrugada da festa o nome dela, MICHELLE, assim, em letras garrafais no portão da escola. os tegs na quebrada estão sempre na moda, e segunda de manhã, hora da entrada todo mundo via. Causava o maior reboliço: - Caralho o João é foda mesmo!- alguns comentavam, outros riam, os moralistas criticavam, mas o que importava mesmo é que todos viam. João era apaixonado por teg, pela aventura, pela insubordinação. virou até poeta, fez verso pro teg, mas não fez pra sua mãe, na contra capa de seu caderno estilizado estava escrito assim:
Um muro branquinho é como uma folha em branco.
Os lugares mais interessantes são aqueles que eu não alcanço, mas que você vê!
Isso é RPG. Esse é o meu negócio
Rabisco Porque Gosto!
Lançar o teg lá no alto não é só questão de status. É questão de superar, você e ao outro. Segunda-feira, comentários em peso. Pensou em dar um retoque no teg, sei lá, colocar uma dedicatória, maldita hora - Puta! Mó besteira!- não deu outra, em plena luz do dia, foi pego, esculachado e expulso, ficou puto, tava pensando em se formar, mas agora fodeu! Já tava dois anos atrasado, queria comprar um carro, com o tempo que sobrou saindo da escola, trincou num trampo novo, e já era, se acomodou.
Mas ninguém chorava na delegacia, as mãos amarradas nas costas, de pé a aproximadamente cinco horas, isso para aqueles que foram presos porque estavam de moto ou vacilando na rua, o Raimundo- Baiano imundo- como disse o policial antes de lhe descer o pau - nem sabia por que apanhava:
- Vamo falando, meninão!- dizia o policial civil, que fechava cada frase com um tapa na cara, como um ponto de exclamação. - Dizer o que senhor - murmurava Raimundo desesperado. - O que o senhor quer que eu fale?- Fala o que você sabe, baiano filho-da-puta! Pancada pra todo lado. Não sabia de nada mesmo. E talvez o que ele sabia não interessasse. virar massa, arremate, contra-piso, baião de dois nos dias de domingo, caçar calango sem da um tiro, essas coisas...
Raimundo foi visto a dois quarteirões de sua casa, tomando tapa na cara. porque não conseguia dizer, de tanto que tremia, qual o nome da rua da casa da tia, que o abrigou em São Paulo quando veio do interior da Bahia. Este um, Raimundo, estava a mais de dez horas de pé, já tava inchado, meio mijado, mal informado, tudo em nome da lei. foi pego voltando da obra, as 22h30 da noite, depois de umas 10 horas de trabalho pesado, porque sua aparência era semelhante à do procurado. mandaram ele encostar e não disseram nada, e como ele também não disse...
foi o que disseram na manhã em que foi liberado, ficou com poucas marcas e saiu ainda agradecido, pediu desculpas pelo mal entendido, e se foi caminhando meio torto, meio dolorido. Não se despediu dos amigos de surra.
Acusados de bandido, algemados, humilhados, surrados em nome da lei e da ordem. este era o ponto em comum dos cinco liberados naquela manhã de sábado. depois da noite de diversão tudo que queriam era fumar um cigarro. Pra eles saiu até barato, Dona Maria, descobriu que o filho João, que nem fumava, em uma noite, passou de usuário a traficante, e da vida à morte num instante. Revoltante! forjaram dois quilos de qualquer coisa em sua bolsa, um canela-seca na cintura fina, e pronto, justificarão o fim da vida de João, a morte morrida por engano.
Saiu da casa de Michelle às 9h30, estava nervoso, com alguma coisa, parou no bar comprou um cigarro solto (não costumava fumar), tragou profundo e olhou pra lua. Subiu o escadão em direção à sua rua, ouviu barulhos de motos, e alguém vindo rápido em sua direção, vigiou a rua escura, não era ninguém. Com mais atenção Seguiu em frente, um clima diferente na favela, normal. uma viela, duas , ia entrando noutra rua, ouviu disparos e parou. Motos acelarando desesperadamente, cachorros latindo, cinco segundos a comunidade silenciou. Algo havia acontecido. João apertou o passo, olhava os barracos trancados, apertou mais o passo, mais barracos trancados, o passo já não cabia, agora João corria, e mal sabia que ia no sentido errado, devia ter parado, esperado, rezado, sei lá, -só pensou tudo isso depois que entrou na avenida correndo e deu de cara com o cano da ponto 40 prateada, engatilhada, destravada, refletindo a luz de mercúrio da rua, tão perto da sua cara que via cada detalhe, o furo que saia a bala, a bala, a cara do polícia por tras da mira encapuzado, acelerado, NEM CISCA VAGABUNDO! olhava vidrado, endemoniado, frio, Transtornado. pronto pra cuspir chumbo e "TE MANDAR PRA PULTA QUE PARIU"! Sem nem saber seu nome. mandou João deitar, mas nem precisou, Jõao tremia tanto que já não podia se aguentar de pé. Apontou bem nas costelas , e, TOME! desceu o pé. João, gemeu, não entendeu. foi só o primeiro. Que tragédia vive esse nosso povo brasileiro, encurralado no gueto, entre o pau e o desemprego, mas é direito da polícia o monopólio da violência, com morte de polícia ainda, os cara pega igual bicho, morde, bate, humilha, chinga... Se morde.
O pranto de dona Maria, curou foi na faxina de domingo, na casa da Dona Virginia Cantos, com corpo do filho ainda quente e a dor da morte presente, mas se não trabalhasse não teria como enterrar o defunto. Virou notícia no bairro, o povo comentava revoltado, sentado num bar e bebendo. os agentes comemoravam o sucesso da missão, com uma folga e uma churrascada presenteada pelo Senhor Delegado Raul Cantos que acabou encerrando o caso por falta de provas. Ah, Boas novas, Michelle descobriu que esta grávida.
Legenda:
"Cakiu"- expressão corriqueira para designar o uso de cocaína;
"Teg"- tipo especifico de pichação;
"desbaratino"- desbaratinar, disfarçar;
"trincou" - trincar, mandar bem.
Felipe Augusto Silva Matos é morador de Brasilândia e estudante do 2º ano de Serviço Social
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