Conto: Oferta
OFERTA
O mundo muito me tem oferecido. De tudo um pouco, e muito do que não desejo. Ofereço hoje ao mundo, como contrapartida de um já antiga divida um conto, que baseia-se num dado da realidade, ou melhor, numa condição de realidade, condição desigual. Não queria simplesmente dizer que é “baseado em fatos reais”, só por ser, este “quase relato” o fruto de uma vivência familiar minha. Gostaria de preservar o que há de particular, mas sem que se perdesse a dimensão maior e mais abrangente que inspira estes escritos- O monopólio da violência por parte da policia, instrumento de repressão, contenção e manutenção das condições desiguais que sustentam este nosso mundo capitalista. Os nomes, os cenários foram todos criados para que pareçam futilmente “genéricos”, e lamentavelmente reais, afinal, é desta forma que nos vêem. Somos rótulos desvalorizados, Nós, os da periferia, de pele negra ou não. A exploração que é fruto da relação desigual entre capital e trabalho, que soa até ridiculamente como uma mera abstração, não diferencia classes, gêneros e tampouco condições, todos devem se vender, e todos se vendem, essa é a lógica. Do pedreiro ao professor, e até o advogado(alienado) que julga-se insubordinado, todos se vendem, uns de uma forma(assalariados) outros de outra (autônomos) e dependendo do poder e do valor social atribuído a sua função recebe no final do mês ,ou a cada vez que alguém te fita encabulado, privilégios e regalias, que mantém a diferenciação. A “classe media” (que talvez já nem exista), luta para se manter num lócus virtual de status, poderes cedidos e privilégios vendidos, tudo bem, este é também um motivo de revolta. Mas falo aqui, de uma realidade um pouco mais dura, do expropriado que é roubado e ainda apanha no caminho de volta pra casa. Raimundo-“ baiano imundo”- foi exatamente esta a frase do policial, que achou super legal dizer pra todos que era um skinread(não sei se isso se escreve assim e pouco me importa). Raimundo não existe fora deste texto, mas representa o preconceito sofrido naquela noite por um homem qualquer, que também não era culpado (como os outros cinco), assim como meu Irmão, que foi surrado uma noite inteira, por não saber responder o que não sabia. Minha mãe desrespeitada na delegacia – Eu quero que o seu filho se foda!- pensei nisso uma noite toda, eu “universiotário” ao lado de minha mãe não pude fazer nada, todo o pouco conhecimento que conquistei ( também por um privilégio doado) não serviu de nada diante dos “Homens da Lei”, não queria nenhum privilégio, se bem que, como as coisas se desenrolam , ser tratado como ser humano, principalmente para os pobres na relação com o poder público e o capital(se é que são dissociaveis ‘neo-liberalismo’) se tornou de fato um privilégio. Me senti totalmente impotente, e o pior, desejei profundamente exercer o poder, queria dizer que conhecia o Dr.Fulano e o Dr. Ciclano e mandar ele à merda, pra casa do caralho. Mas não, fiquei calado, não sou otário, eles só precisam de uma brecha pra te foder, e, além disso, tudo o que minha Mãe não precisava era de mais um filho espancado, por isso engoli em seco, me fiz resignado, e minha revolta(infelizmente) só pode se transformar neste relato. Agradeço ao espaço cedido, e aqueles que o construíram. Sem esperanças de mudanças, a minha contribuição é a denúncia destes resquícios de ditadura...
Boas novas
Sua sorte foi lançada.
Caído no vão em vão...
A morte não será noticiada.
o nome, o endereço , o motivo do tiro... esquecidos, ou melhor, ignorados, não citados
o fato é que fazia frio. o resto é resto, a violência, corrupção e os procedimentos de rotina.
Qual o preço do silêncio? E de um cargo na policia Civil?
Estudar um tempo pro concurso, apostilas, se preparar pros testes físicos, e fisiológicos, abandonar os tóxicos, preparar o psicológico...
- Mas pra que tudo isso , paga logo os dez mil! É bacana. hoje tudo tem um preço, da fama o poder, do sexo aos cargos de “confiança” . E pra entrar na policia civil, dez mil reais , até que é pouca grana!
Não se sabe ao certo se estava errado ou não, viu-se colocado a força no camburão, tomava socos e pontapés, nem se preocupavam com a multidão. João, foi encontrado torto, assim, meio roxo, meio inchado, olhos arregalados e vários furos pelo corpo.
Dava até gosto de ver - diriam Hitler e seus companheiros da ditadura.
Não se sabe ao certo o que fez, se era fornecedor ou freguês, todos sabem que morava na rua da minha casa, que era quase como irmão do meu vizinho e tinha crescido comigo. O resto era boato ou aparência, as drogas e a cara de bandido. no final quem se importa? , -Pobre, preto já nasce tudo fudido!-, foi esse o verbo respondido à velha senhora, pelo “agente” especial da polícia civil,( orgulho dos cidadãos de bem de nosso Brasil) ao ser questionado sobre o paradeiro de João. nem viu. nem quis saber quem era aquela senhora velha e desesperada, encarou -a bem de perto , enfiou o dedo na cara da velha , e esbravejou – eu quero que o seu filho se foda!!
Cansada àquela hora da madrugada, ainda tinha que escutar essas coisas. esperava uma noticia, mas só escutava estralos, gritos de dor e gemido, e no fundo, torcia pra que o homem de Deus que berrava a dor daquela tortura, fosse seu filho. Seria uma sorte, gemia era de dor! berrava por que estava vivo!
João era foda. moleque ligeiro , trabalhou de pedreiro, padeiro, era pipeiro , corria uma bola, e até que ia bem na escola até ser expulso. O puto do diretor foi quem arrastou a fita.
Era festa junina ,carros parados na entrada da escola uns caras querendo parecer da moda, o pancadão estorando os falantes, cigarros, brejas e vinho, as vezes um fininho no desbaratino, “cakiu”, opa! , subiu ninguém viu!. João não curtia esta fita de moda, andava arrumado só pra não ficar de fora. Não arrastava nem nada, fumava e bebia “socialmente” , -a sociedade é que esta descontrolada ,- falava isso e sorria. Só acompanhava. só comprava não vendia nada, e tava curtindo muito a nova namorada, Michelle. No dia da festa planejou uma noite de amor inesquecível, num carro conversível, champagne e cigarro importado a luz da lua. Foi a primeira noite dos dois, e a melhor, como agora sabemos. O conversível ficou no sonho, e a camisinha no bolso. Rolou um vinho, os dois um pouco mais alegrinhos, acabaram se pegando no terreno atrás da escola mesmo. o cigarro e a lua até que davam um clima legal, mas o problema de João não foi o amor a luz da lua.
Lançou na madrugada da festa o nome dela , MICHELLE, assim, em letras garrafais no portão da escola. os tegs na quebrada estão sempre na moda, e segunda de manhã, hora da entrada todo mundo via. Causava o maior reboliço: - Caralho o João é foda mesmo!- alguns comentavam, outros riam, os moralistas criticavam, mas o que importava mesmo é que todos viam. João era apaixonado por teg, pela aventura, pela insubordinação. virou até poeta, fez verso pro teg, mas não fez pra sua mãe, na contra capa de seu caderno estilizado estava escrito assim:
Um muro branquinho é como uma folha em branco.
Os lugares mais interessantes são aqueles que eu não alcanço, mas que você vê!
Isso é RPG. Esse é o meu negócio
Rabisco Porque Gosto!
Lançar o teg lá no alto não é só questão de status. É questão de superar, você e ao outro. Segunda-feira, comentários em peso. Pensou em dar um retoque no teg, sei lá, colocar uma dedicatória, maldita hora - Puta! Mó besteira!- não deu outra , em plena luz do dia, foi pego, esculachado e expulso, ficou puto, tava pensando em se formar,- mas agora fodeu! Já tava dois anos atrasado, queria comprar um carro, com o tempo que sobrou saindo da escola, trincou num trampo novo, e já era, se acomodou.
Mas ninguém chorava na delegacia, as mão amarradas nas costas, de pé à aproximadamente cinco horas, isso para aqueles que foram presos porque estavam de moto ou vacilando na rua, o Raimundo- Baiano imundo- como disse o policial antes de lhe descer o pau- nem sabia porque apanhava:
- Vamo falando, meninão!- dizia o policial civil, que fechava cada frase com um tapa na cara, como um ponto de exclamação. - Dizer o que senhor- murmurava Raimundo desesperado. - O que o senhor quer que eu falo?- Fala o que você sabe, baiano filho-da-puta!! Pancada pra todo lado. Não sabia de nada mesmo. E talvez o que ele sabia não interessasse. virar massa, arremate, contra-piso, baião de dois nos dias de domingo, caçar calango sem da um tiro, essas coisas...
Raimundo foi visto a dois quarteirões de sua casa, tomando tapa na cara. porque não conseguia dizer, de tanto que tremia, qual o nome da rua da casa da tia, que o abrigou em São Paulo quando veio do interior da Bahia. Este um, Raimundo, estava a mais de dez horas de pé, já tava inchado, meio mijado, mal informado, tudo em nome da lei. foi pego voltando da obra,as 22:30hs da noite, depois de umas 10 horas de trabalho pesado, porque sua aparência era semelhante á do procurado. mandaram ele encostar e não disseram nada , e como ele também não disse...
foi o que disseram na manhã em que foi liberado, ficou com poucas marcas e saiu ainda agradecido, pediu desculpas pelo mal entendido, e se foi caminhando meio torto, meio dolorido. Não se despediu dos amigos de surra.
Acusados de bandido, algemados, humilhados, surrados em nome da lei e da ordem. este era o ponto em comum dos cinco liberados naquela manhã de sábado. depois da noite de diversão tudo que queriam era fumar um cigarro. Pra eles saiu até barato, Dona Maria , descobriu que o filho João, que nem fumava, em uma noite,passou de usuário a traficante , e da vida a morte num instante. Revoltante! forjaram dois quilos de qualquer coisa em sua bolsa, um canela-seca na cintura fina, e pronto, justificarão o fim da vida de João, a morte morrida por engano.
Saiu da casa de Michelle as 9:30hs, estava nervoso, com alguma coisa, parou no bar comprou um cigarro solto(não costumava fumar), tragou profundo e olhou pra lua. Subiu o escadão em direção a sua rua, ouviu barulhos de motos, e alguém vindo rápido em sua direção, vigiou a rua escura , não era ninguém. Com mais atenção Seguiu em frente, um clima diferente na favela, normal. uma viela, duas , ia entrando noutra rua, ouviu disparos e parou. Motos acelarando desesperadamente, cachorros latindo, cinco segundos a comunidade silenciou. Algo havia acontecido. João apertou o passo, olhava os barracos trancados, apertou mais o passo, mais barracos trancados, o passo já não cabia, agora João corria, e mal sabia que ia no sentido errado, devia ter parado, esperado, rezado, sei lá, -só pensou tudo isso depois que entrou na avenida correndo e deu de cara com o cano da ponto 40 prateada, engatilhada, destravada, refletindo a luz de mercúrio da rua, tão perto da sua cara que via cada detalhe, o furo que saia a bala, a bala, a cara do policia por traz da mira encapuzado, acelerado, NEM CISCA VAGABUNDO! olhava vidrado , endemoniado, frio,Transtornado. pronto pra cuspir chumbo e “TE MANDAR PRA PULTA QUE PARIU”! Sem nem saber seu nome. mandou João deitar, mas nem precisou, Jõao tremia tanto que já não podia se agüentar de pé. Apontou bem nas costelas , e, TOME! desceu o pé. João, gemeu, não entendeu. foi só o primeiro. Que tragédia vive esse nosso povo brasileiro, encurralado no gueto, entre o pau e o desemprego, mas é direito da policia o monopólio da violência, com morte de policia ainda, os cara pega igual bicho, morde, bate, humilha , chinga... Se morde.
O pranto de dona Maria, curou foi na faxina de domingo, na casa da Dona Virginia Cantos, com corpo do filho ainda quente e a dor da morte presente, mas se não trabalhasse não teria como enterrar o defunto. Virou noticia no bairro, o povo comentava revoltado, sentado num bar e bebendo. os agentes comemoravam o sucesso da missão, com uma folga e uma churrascada presenteada pelo Senhor Delegado Raul Cantos que acabou encerrando o caso por falta de provas. Ah, Boas novas, Michelle descobriu que esta grávida.
Legenda:
“Cakiu”- expressão corriqueira para designar o uso de cocaína.
“Teg”- tipo especifico de pichação.
“desbaratino”- desbaratinar, disfarçar,
“trincou” - trincar, mandar bem.
Felipe Augusto Silva Matos, morador de Brasilândia, é estudante de Serviço Social - PUC-SP, 2º ano.
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