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Para Téia Pires Sério

APROPUC-SP 11.06.10
Para Téia Pires Sério

 

estamos sentadas no banco do ipê amarelo

numa conversa não-profissional, não-acadêmica

duas memórias se sentam num banco só

agitam as folhas secas de uma árvore comum

34 anos ou mais se entrelaçaram,

a maturidade de um universo

decompõe-se em processo

mas o banco já permite ver toda a finalidade e muitos começos.

 

Téia, eu tinha admiração por Tragtenberg no colégio, nem sabia direito quem ele era

Téia, você me deslumbrou na primeira aula

eu não sabia o que era ciência, metodologia científica...relevância social, científica...neutralidade científica... por sua causa fui estudar textos mais árduos,

comprometidos, críticos, junto a todos do Ciclo Básico...

 

Tá aí, você já abre esse sorrisão e abre outra folha

 

Marília, você se lembra da reunião para prever o que a tropa aí fora ia aprontar

e nós ficamos uma manhã inteira na lousa e, entre tantas alternativas, não previmos a invasão no dia seguinte...

 

Pois é, tivemos que tirar a roupa no brucutu para a polícia feminina comprovar se poderíamos ou não entrar na PUC e não sabíamos se iríamos sair.

 

É sim, uns 50 professores conseguiram entrar, umas 7 da manhã, e aqui dentro era nosso espaço. A lousa podia abrigar qualquer idéia, que ia sendo alterada pela discussão e votada por todos.

 

Mas, Téia, o que eu nunca te contei, nessa correria da vida, é que no dia seguinte, durante a invasão, eu vi você enfrentando um policial, numa sala do prédio velho e seu marido tentando proteger você, que estava grávida. e ele levando cacetada nas costas. Eu aflita, num andar do prédio novo, vendo essa cena e gritando para esse policial parar, inutilmente. Mas deu para cumprir nossa combinação de não perder as pastas com a Atividade 7, que os alunos fizeram naquela noite. Nunca tivemos tempo de contar o que vimos naquele momento, de dura repressão que espargia fumaça vermelha, suficiente para anos de lutas que empreendemos para dissipá-la.

 

Taí, eu pego outra folha e tento dizer que, além de meu pai, você mostrou o espelho de luz a acender. Por sorte, não sucumbimos àquela noite e pude viver décadas junto a você e admiráveis colegas na PUC. e, se hoje vivemos este momento, como se pudéssemos somente colher folhas secas....

minha memória sempre revela o seu sorriso e seu aplauso no meu desabafo diante da demissão dos professores. Sem dizer uma palavra, entre os que ouviam, como uma simples pessoa que ouve, avalia e se posiciona. Nada de euforias, muita seriedade, mas muita sensibilidade em atender à atenção.

 

Taí, você abre esse sorrisão e abre outra folha

 

Marília, eu não sei você, mas eu vou continuar aqui, em meio a estas folhas que têm origem numa hibernação. Quero ver no que vai dar a primavera; você sabe que esta é uma árvore vulnerável, quase extinta...e este é um excelente ponto de observação. No lado da crença, diz-se que seu florescimento indica que não virão geadas.

Eu sei, Téia, sei aonde você sempre estará, apontando as vulnerabilidades em cada processo que leve a importância de se florir.

 

Marília da Silva Pardini é ex-professora da Faculdade de Serviço Social

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